- Não se pode dizer que vivas mal - comentou ele.
- Sim, tive sorte - e os dedos dela moviam-se nos botões da blusa com nervosismo. - Queres uma bebida?
- Não, obrigado. Tentei contactar contigo, depois de deixar Paris.
- Mudei-me.
- Para a América?
- Sim.
- Como conseguiste trabalho na Carleton Blessing?
- Bem… respondi a um anúncio - explicou, cada vez mais embaraçada.
- Quando viste a minha mãe pela primeira vez?
- No teu apartamento, em Paris. Não te lembras que?…
- Basta de mentiras! - Tony sentia uma cólera surda propagar-se a todas as fibras do corpo. - Terminou a comédia. Nunca bati numa mulher, mas se insistes em dizer falsidades, palavra de honra que ficas com a cara imprópria para ser fotografada por uns tempos.
Agora, não houve hesitação na resposta:
- Quando foste admitido na École dês Beaux-Arts. Ela conseguiu que me aceitassem como modelo.
Experimentou uma sensação pungente no estômago, mas desenvolveu esforços para prosseguir.
- Para que nos conhecêssemos?
- Sim, mas…
- E pagou-te para que te tornasses minha amante e fingisses amar-me?
- Exacto. A guerra tinha acabado pouco antes e eu esta va sem dinheiro. Procura compreender a situação. Mas acredita que o meu amor por ti não era fingido…
- Limita-te a responder às minhas perguntas, sem comentários desnecessários.
Qual a finalidade de tudo isso?
- Tua mãe queria que te vigiasse.
Tony recordou-se da ternura dela… - proporcionada pelo dinheiro da mãe - e sentiu-se dominado pela vergonha. Não
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passara de um títere, controlado e manipulado pela progenitora, que nunca se preocupara com ele. Não era seu filho, mas o seu príncipe coroado, o herdeiro natural. A única coisa que contava para ela era a companhia.
Com um derradeiro olhar a Dominique, rodou nos calcanhares e afastou-se, enquanto ela o acompanhava com o olhar ofuscado pelas lágrimas. “Não menti quando disse que te amava. Nisso, fui sincera.”
Kate encontrava-se na biblioteca, quando Tony surgiu, extremamente embriagado.
- Fa-falei com Dominique. Vo-cês as duas devem ter rido como loucas à mi-minha custa.
- Tony… - começou ela, alarmada.
- A partir de agora, não quero que te tor-tornes a imiscuir na mi-minha vida pessoal, ouviste?
Viu-o retirar-se em passos incertos e acudiu-lhe um presságio desagradável.
Capítulo vigésimo No dia seguinte, Tony alugou um apartamento em Green-wich Village e pôs termo aos jantares sociais com a mãe, mantendo as suas relações a um nível rigorosamente impessoal, de negócios. De vez em quando, Kate efectuava uma tentativa de reconciliação, que o filho ignorava.
Apesar de assolada por profunda amargura, estava convencida de que procedera da melhor maneira para Tony, tal como acontecera numa ocasião em relação a David. Não podia permitir que abandonassem a companhia. O filho era o único ser humano do mundo que ela amava, e observava com pesar que se tornava cada vez mais insular, refugiando-se no seu íntimo e rejeitando os outros. Não tinha amigos e, em contraste com a cordialidade e comunicabilidade do passado, mostrava-se frio e reservado. Erguera uma muralha à sua volta que ninguém lograva transpor. “Precisa de uma esposa que se preocupe com ele. E de um filho que continue a herança. Tenho de o ajudar.”
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Brad Rogers entrou precipitadamente no gabinete de Kate e anunciou:
- Vai haver mais problemas.
- Que aconteceu?
- O Parlamento da África do Sul ilegalizou o Conselho Representativo dos Nativos e aprovou a Lei Comunista - explicou, pousando um cabograma na secretária.
- Meu Deus! - o diploma nada tinha a ver com o comunismo. Referia simplesmente que quem discordasse de qualquer medida governamental e tentasse alterá-la incorria em transgressão da Lei Comunista e podia ser detido. - É a sua maneira de enfraquecer a resistência dos negros. Se… - foi interrompida pela recepcionista, através do intercomunicador.
- Há uma chamada do estrangeiro para si. Trata-se de Mister Pierce, de Joanesburgo.
Jonathan Pierce era o gerente da sucursal da firma na capital sul-africana, e Kate apressou-se a pegar no auscultador.
- Olá, Johnny! Como vai?
- Eu bem, mas lamento não poder dizer o mesmo da situação por cá.
- Que aconteceu?
- Acabo de ser informado pela Polícia de que capturaram Banda.
Kate encontrava-se a bordo do primeiro voo para Joanesburgo, depois de recomendar aos advogados da companhia que vissem o que podiam fazer por Banda. No entanto, receava que nem o poder e o prestígio da Kruger-Brent fossem suficientes para o auxiliar. Com efeito, fora considerado inimigo do Estado, e ela não se atrevia a pensar no que consistiria o castigo aplicado. Em todo o caso, impunha-se que pelo menos lhe falasse e oferecesse todo o apoio ao seu alcance.
Assim que o avião aterrou em solo sul-africano, Kate dirigiu-se aos escritórios da firma e telefonou ao director das prisões, que informou:
- Ele encontra -se num bloco de isolamento e não pode receber visitas. No seu caso, porém, vou ver o que consigo.
Na manhã imediata, ela achava-se na prisão de Joanesburgo, sentada diante de Banda, que estava algemado, e havia uma espessa chapa de vidro entre ambos.
Kate não sabia bem
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o que esperava ver, todavia ele não apresentava um ar desesperado e sorriu ao dizer:
- Tinha a certeza de que viria. É como seu pai. Não consegue estar longe do barulho, hem?
- Olha quem fala - redarguiu ela. - Raios para isto! Como te vamos tirar daqui?
- Num caixão. É a única maneira de me deixarem sair.
- Disponho de um batalhão de bons advogados que…
- Não merece a pena. Desta vez, apanharam-me com as mãos na massa. Agora, tenho de me resignar.
- Não compreendo.
- Sempre fui alérgico às prisões. Ainda não construíram uma capaz de me conter.
- Não cometas loucuras, Banda. Eles não hesitavam em matar-te.
- Lembre-se que fala com um homem que sobreviveu a tubarões, a um campo de minas e a cães de guarda - ele deixou transparecer uma ponta de nostalgia no olhar. - Sabe uma coisa? Creio que foi o melhor período da minha vida.
Quando Kate se apresentou para nova visita, no dia seguinte, o director da prisão declarou:
- Sinto muito, Mistress Blackwell, mas Banda foi transferido, por razões de segurança.
- Para onde?
- Não estou autorizado a revelá-lo.
No outro dia, quando se levantou, pegou no jornal e leu a notícia que figurava na primeira página: “Chefe rebelde abatido na tentativa de fuga da prisão”. Uma hora mais tarde, encontrava-se no gabinete do director da prisão, que explicou:
- Banda perdeu a vida nas circunstâncias reveladas pela Imprensa. Não há nada a acrescentar.
“Enganas-te. Há mais. Muito mais!” Banda morrera, mas ter-se-ia porventura extinguido o sonho de liberdade do seu povo?
Dois dias depois, Kate regressava a Nova Iorque, não sem antes se ter ocupado de todos os preparativos para o funeral. A bordo do avião, voltou-se para a janela, a fim de contemplar a sua terra amada pela última vez. O solo era vermelho e fértil e encerrava nas suas entranhas tesouros que excediam os
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sonhos dos homens mais ambiciosos. No entanto, dir-se-ia que fora lançada uma maldição sobre o território. “Não tornarei a pôr cá os pés”, prometeu a si própria.
“Nunca!”
Uma das responsabilidades de Brad Rogers consistia em orientar o Departamento de Planeamento de Longo Alcance da Kruger-Brent. Na realidade, tinha uma propensão especial para descobrir firmas que constituíam aquisições lucrativas.
Um dia do princípio de Maio, entrou no gabinete de Kate e depositou duas pastas de cartolina sobre a secretária.