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- Em nada de especial.

Na realidade, Tony pensava na mãe e no que lhe custava perder.

Entretanto, Kate acompanhava Charlie Wyatt na visita à biblioteca, em cujas estantes se viam primeiras edições de Oliver Goldsmith, Laurence Sterne, Tobias Smollett e John Donne, juntamente com um in-fólio de Ben Johnson. O texano percorria com a vista os tesouros que o rodeavam, até que se imobilizou diante de um volume encadernado do Endymion, de John Keats.

- É um exemplar da Roseberg - afirmou, voltando-se para Kate.

- Exacto - confirmou ela, surpreendida. - Há apenas dois conhecidos.

- O outro encontra-se na minha biblioteca.

- Era de prever - articulou, rindo. - Os seus ares de texano do petróleo conseguiram iludir-me.

- Sim? São uma camuflagem excelente.

- Onde estudou?

- Primeiro na Escola de Minas do Colorado e depois em Oxford como bolseiro - e Wyatt contemplou Kate em silêncio, por um momento. - Constou-me que foi você que sugeriu a minha presença na conferência da Casa Branca.

- Limitei-me a mencionar o seu nome.

- Foi um gesto que não posso deixar de agradecer. E, agora que estamos sós, porque não me explica exactamente o que tem em mente?

Tony encontrava -se no seu gabinete de trabalho, uma pequena dependência a meio do corredor do rés-do-chão, afundado numa poltrona de espaldar elevado, examinando uns documentos, quando sentiu a porta abrir-se e entrar alguém.

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Era Marianne Hoffmann, e antes que ele pudesse revelar a sua presença, ouviu-a soltar uma exclamação abafada.

Acabava de ver os quadros na parede. Tratava-se de trabalhos de Tony, os poucos que trouxera do apartamento de Paris, e só permitira que estivessem expostos naquela saleta. Viu a rapariga mover-se em redor para os contemplar, mas era demasiado tarde para o poder evitar.

- Não acredito - murmurou ela, finalmente. Assolou-o uma irritação repentina, pois sabia que não eram maus a esse ponto. De súbito, fez um movimento na poltrona e o couro rangeu, obrigando Marianne a voltar-se.

- Peço desculpa - balbuciou. - Não sabia que estava aqui alguém.

- Não tem importância - retorquiu Tony, com certa brusquidão, pois desagradavalhe que invadissem o seu santuário. - Procurava alguma coisa?

- Não. Vagueava simplesmente. A sua colecção de quadros devia encontrar-se num museu.

- Excepto estes.

Intrigada, a rapariga voltou a observá -los e distinguiu a assinatura.

- São seus!

- Lamento que não lhe agradem.

- Acho-os fantásticos! Não compreendo. Se sabe pintar tão bem, porque decidiu fazer outra coisa? Considero os seus trabalhos, não bons, mas maravilhosos! - calou-se por um momento, mas ele não reagiu visivelmente. - Em tempos, quis ser pintora e cheguei a estudar com Oskar Kokoschka durante um ano. Finalmente, desisti, porque reconheci que nunca atingiria o nível que pretendia. Mas você! - virou-se de novo para os quadros. - Esteve em Paris?

- Sim.

- Que pena…

- Ah, estão aqui? - Kate acabava de assomar à entrada e olhava -os com curiosidade. Por fim, aproximou-se de Marianne e prosseguiu: - Procurei-a por toda a parte. Seu pai diz que adora as orquídeas e quero que visite a nossa estufa.

- Obrigada, Mistress Blackwell, mas…

- Ocupa-te dos outros convidados, Tony - indicou, sem prestar atenção às objecções da rapariga.

Ele experimentava uma fascinação especial pela maneira

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como a mãe manobrava as pessoas. Na realidade, agia com uma suavidade admirável, sem desperdiçar um único movimento. A operação principiara com a chegada dos Wyatt antes dos Hoffmann e continuara com a colocação de Lucy ao lado dele a todas as refeições e as conferências a sós com Charlie Wyatt. A filha deste era uma moça atraente e constituiria a esposa ideal para o futuro chefe da Kruger-Brent.

Meneando a cabeça num gesto de amargura, Tony perguntava-se qual seria o movimento seguinte de Kate. Na verdade, não necessitou de esperar muito tempo para se inteirar.

Encontravam-se no terraço, tomando cocktaiLs, quando ela revelou ao filho:

- Mister Wyatt convidou-nos para passar o próximo fim-de-semana no seu rancho.

Não achas uma ideia maravilhosa? - acrescentou, com uma expressão de prazer.

- Nunca estive num rancho do Texas.

Ora, a Kruger-Brent possuía um rancho no Texas que tinha provavelmente o dobro da superfície do dos Wyatt.

- Espero que também vá - interpôs o texano, dirigindo-se a Tony.

- Por favor… - sussurrou Lucy.

Parecia uma conspiração. Ao mesmo tempo, porém, era um desafio. Por conseguinte, ele decidiu enfrentá-lo.

- Com o maior prazer.

“Se Lucy tem em mente seduzir-me, perde o seu tempo”, pensou. A mágoa provocada pela mãe e por Dominique haviam-Lhe implantado uma desconfiança tão profunda nas mulheres, que a sua única associação com elas passara a manifestar-se através das prostitutas dispendiosas, sem dúvida as mais sinceras, pois só desejavam o dinheiro e mencionavam a quantia desde o princípio. Tony esportulava o preço pedido e obtinha aquilo que pagava. Sem complicações, lágrimas ou embustes.

Lucy Wyatt teria uma surpresa.

Domingo de manhã, Tony dirigiu-se à piscina para nadar um pouco e verificou que Marianne Hoffmann já se encontrava na água, com um fato de banho branco que lhe acentuava os contornos do corpo esbelto. Quando o avistou, acercou-se em braçadas graciosas e sorriu-lhe.

- Bom dia.

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- Bom dia. Nada muito bem.

- Adoro praticar desportos. Herdei-o de meu pai. Ergueu-se para a borda da piscina e ele estendeu-lhe uma toalha, ao mesmo tempo que perguntava:

- Já tomou o pequeno-almoço?

- Não. Pensei que a cozinheira não se levantava tão cedo.

- Isto é um hotel com serviço de copa permanente.

- Um sistema muito útil - Marianne voltou a sorrir.

- Onde vive?

- Na maior parte do tempo, em Munique. Possuímos um schloss, um castelo, nos arredores.

- Onde se criou?

- Isso já é mais complicado. Durante a guerra, mandaram-me para um colégio na Suíça. Depois, fui para Oxford, estudei na Sorbona e vivi alguns anos em Londres - olhou-o sem pestanejar. - E você?

- Bem, saltitei entre Nova Iorque, Maine, Suíça, África do Sul, uns anos no Pacífico durante a guerra, Paris… - Tony interrompeu-se, como se decidisse que falara de mais.

- Desculpe se me intrometo no que não devo, mas não compreendo porque desistiu de pintar.

- Contos largos - replicou secamente. - Vamos ao pequeno-almoço.

Comeram sós, no terraço sobranceiro à baía, ao mesmo tempo que conversavam despreocupadamente. Marianne parecia interessada no que lhe dizia respeito e Tony experimentava uma atracção estranha por ela.

- Quando regressa à Alemanha? - perguntou em dado momento.

- Para a semana. Vou casar.

- Ah! - a revelação apanhou-o desprevenido. - Quem é ele?

- Um médico que conheço desde criança. Obedecendo a um impulso irresistível, aventurou:

- Quer jantar comigo, em Nova Iorque?

Ela observou-o por instantes e ponderou a resposta antes de aquiescer:

- Com todo o gosto.

- Então, fica combinado - concluiu Tony, sorrindo.

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Jantaram num pequeno restaurante à beira-mar, em Long Island. Ele desejava Marianne só para si, fora do raio de acção da mãe. Embora se tratasse de um serão inofensivo, se ela o descobrisse não hesitaria em envenená-lo. Era um assunto privado entre os dois e, durante o breve lapso de tempo que perdurasse, ninguém o perturbaria. A companhia de Marianne agradava -lhe ainda mais do que previra. “Quando regressa à Alemanha?” “Para a semana. Vou casar.”

Nos cinco dias que se seguiram, viram-se com frequência. Tony cancelou a viagem ao Canadá, conquanto não soubesse explicar claramente porquê.