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Supusera que se tratava de uma forma de rebelião contra o plano da mãe, uma vingança mesquinha, mas se isso correspondera à verdade, no início, tudo se alterara depois. Cada vez se sentia mais atraído pela rapariga. Admirava -lhe a sinceridade, qualidade que desesperara de voltar a encontrar.

Como ela era uma turista em Nova Iorque, ele acompanhava -a a toda a parte. Os dias sucediam-se quase sem que se apercebessem, até que chegou sexta -feira, quando Tony devia partir para o rancho dos Wyatt.

- Quando regressa à Alemanha?

- Segunda-feira de manhã - informou Marianne, sem a mínima alegria na voz.

Ele seguiu para Houston naquela tarde. Podia ter ido com a mãe num dos aviões da companhia, mas preferira evitar todas as situações que o obrigassem a ficar a sós com ela. Pela parte que lhe dizia respeito, Kate não passava de uma associada na firma: brilhante, poderosa, simulada e perigosa.

No Aeroporto William P. Hobby de Houston, aguardava -o um Rolls Royce que o conduziu ao rancho, guiado por um motorista de calça Levi's e camisa de meiamanga.

- A maior parte dos convidados prefere voar directamente para o rancho - explicou o homem. - Mister Wyatt possui um aeródromo excelente. Daqui, é cerca de uma hora até ao portão da propriedade e mais meia até à residência.

Tony pensava que ele exagerava, mas não tardou a mudar de opinião, pois o território dos Wyatt parecia mais uma cidade que um rancho. Transpuseram o portão principal por uma estrada privativa e, transcorridos trinta minutos, começaram

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a passar por edifícios de geradores, celeiros, currais, casas de hóspedes e bangalós do pessoal. A residência era uma construção imponente de um único piso, e Tony considerou-a deprimentemente hedionda.

Kate já chegara e encontrava-se sentada no terraço sobranceiro a uma piscina do tamanho de um pequeno lago, parecendo imersa em animada conversa com Charlie Wyatt. Quando avistou o recém-chegado, o texano interrompeu-se abruptamente a meio de uma frase, e Tony pressentiu que era o tópico abordado.

- Vem aí o seu rapaz! Fez boa viagem, Tony?

- Óptima, obrigado.

- Lucy esperava que viesse mais cedo.

- Ah, sim? - articulou, com um olhar de través à mãe.

- Vai haver um churrasco em vossa honra - volveu Wyatt. - Convidei praticamente todas as pessoas importantes da região.

Naquele momento, Lucy surgiu à entrada, de calça jeans e blusa branca cingidas, que lhe realçavam os inequívocos atributos físicos, como Tony não pôde deixar de admitir para consigo.

- Julgava que nunca mais aparecia! - exclamou, pegando-lhe no braço.

- Peço desculpa pelo atraso, mas tive de ultimar uns assuntos.

- Não tem importância, agora que chegou - a rapariga exibiu um sorriso cativante.

- Que lhe apetece fazer, esta tarde?

- Que tem para oferecer?

- Tudo o que quiser - proferiu num murmúrio. Entretanto, Kate e Wyatt observavam-nos com sorrisos de satisfação.

O churrasco atingiu um nível espectacular, mesmo atendendo aos padrões texanos. Apresentaram-se cerca de duzentos convidados, que se faziam transportar em aviões particulares, Mercedes ou Rolls Royce. Duas orquestras tocavam simultaneamente em diferentes áreas do recinto. Meia dúzia de bartenders serviam champanhe, uísque, refrigerantes e cerveja, enquanto quatro “chefes” preparavam a comida ao ar

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livre. Além disso, havia várias longas mesas repletas de sobremesas de quase todas as qualidades concebíveis.

Cada vez que se voltava, Tony esbarrava num empregado da casa que lhe oferecia bebidas ou aperitivos. Dava a impressão de que o pessoal doméstico igualava os convidados em número. Ao mesmo tempo, acudiam-lhe aos ouvidos fragmentos de conversas.

- O tipo veio propositadamente de Nova Iorque para me levar à certa, mas tratei de o prevenir: “Tenho muita pena, amigo. Não entro em acordos referentes a petróleo com firmas a leste de Houston…” - É preciso cuidado com os fulanos de falas mansas. Se não nos precavemos, enrolam-nos…

Em dado momento, Lucy acercou-se dele e comentou:

- Não o vejo comer - olhou-o com apreensão. - Sente-se mal?

- De modo algum. É uma reunião impressionante.

- Ainda não viu nada. Espere até à hora do fogo-de-artifício.

- Fogo-de-artifício?

- Exacto. Desculpe este ajuntamento, mas meu pai quis impressionar sua mãe.

Amanhã, já cá não estão.

“Nem eu”, pensou Tony, cada vez mais convencido de que a sua comparência no rancho constituíra um erro. Se a mãe estava tão empenhada em absorver a Wyatt Oil Tool, que arranjasse outra maneira de o conseguir. Esquadrinhou a multidão com a vista e localizou-a no meio de um grupo de admiradores. Não havia dúvida de que continuava atraente, apesar de estar quase com sessenta anos. Na realidade, Kate Black-well parecia muito divertida, mas Tony sabia que ela detestava solenemente tudo o que a circundava. “Mas não hesita em fazer todos os sacrifícios para alcançar aquilo que pretende.” Pensou em Marianne e na aversão que experimentaria por semelhante orgia insensata. Ao lembrar-se dela, todavia, sentiu um profundo desconforto. “Vou casar com um médico que conheço desde criança.”

Meia hora depois, quando Lucy voltou a procurá-lo, já ia caminho de Nova Iorque.

Telefonou a Marianne de uma cabina do aeroporto.

- Preciso falar-lhe.

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- Muito bem - foi a resposta, sem a mínima hesitação.

Tony não conseguira afastá -la do pensamento por um único instante. Separado dela, assolava -o a solidão, a sensação de que lhe faltava uma parte de si mesmo.

Tinha o pressentimento aterrador de que, se a deixasse partir, ficaria perdido para sempre. Necessitava-a como a ninguém em toda a sua vida.

Encontraram-se no apartamento dele, e quando a viu entrar, Tony sentiu um desejo que julgava extinto para sempre. Ao contemplá-la, compreendeu que a sensação era compartilhada, e não havia palavras capazes de exprimir o milagre operado.

Ela anichou-se-lhe nos braços, e a emoção de ambos assemelhava-se a uma torrente que os arrastava numa explosão gloriosa, uma erupção e um contentamento para além de qualquer descrição. Flutuavam juntos numa suavidade aveludada que não conhecia tempo nem lugar, perdidos numa glória e numa magia maravilhosas e mútuas. Mais tarde, esgotados, permaneceram deitados, mantendo-se num amplexo de profunda ternura.

- Vou casar contigo, Marianne.

- Tens a certeza? - murmurou ela, olhando-o atentamente. - Há um problema, querido.

- O teu compromisso?

- Não. Posso desfazê-lo, sem dificuldade. Refiro-me a tua mãe.

- Ela não tem nada a ver…

- Deixa-me acabar. Pretende que cases com Lucy Wyatt.

- Isso é o plano dela. O meu encontra-se aqui.

- Ficava a odiar-me. Não quero que tal aconteça.

- Não te interessa saber o que eu quero? E o milagre recomeçou.

Escoaram-se quarenta e oito horas antes de Kate Blackwell voltar a ter notícias de Tony, que desaparecera do rancho Wyatt sem se despedir, para regressar a Nova Iorque, deixando o texano perplexo e a filha furiosa. Depois de apresentar desculpas, aceites com relutância, Kate partiu igualmente e, uma vez em casa, ligou ao apartamento de Tony. No entanto, não obteve resposta em todo esse dia nem no seguinte.

Ela encontrava-se no seu gabinete, quando o telefone tocou, e adivinhou quem era mesmo antes de levantar o auscultador.

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- Estás bem, Tony?

- Perfeitamente, mãe.

- De onde falas?

- Ando em lua-de-mel. Casei com Marianne Hoffman, ontem - registou-se um longo silêncio. - Mãe?

- Sim?

- Podias dar-me os parabéns ou pronunciar uma das frases habituais nestas ocasiões - articulou Tony, com uma ponta de amargura.

- Com certeza. Desejo-te as maiores felicidades, filho.

- Obrigado - e a ligação foi cortada.