Kate conservou o aparelho na mão por um momento e acabou por pousá-lo, após o que premiu um botão do intercomunicador.
- Pode chegar aqui, Brad? - e assim que este entrou no gabinete, anunciou: - Tony telefonou agora mesmo.
- Com a breca! - bradou ele, ao observar-lhe a expressão de triunfo. - Não me diga que conseguiu!
- O trabalho foi todo dele - declarou Kate, modestamente. - Temos o império Hoffmann servido numa bandeja.
- Custa-me a crer! - Brad afundou-se numa poltrona. - Como o convenceu a casar com Marianne Hofmann?
- Foi muito simples. Empurrei-o na direcção que não me convinha.
No fundo, porém, ela sabia que se tratava da direcção acertada, pois Marianne seria uma esposa maravilhosa para o filho. Dissiparia as trevas que o consumiam.
Lucy sofrera uma histerectomia.
Marianne, por seu turno, dar-lhe-ia um filho.
Capítulo vigésimo primeiro Seis meses após o casamento de Tony e Marianne, a companhia Hoffmann foi absorvida pela Kruger-Brent, Ltd. A assinatura formal dos contratos realizou-se em Munique, num gesto de consideração para com Frederick Hoffmann, que ficaria à testa da subsidiária na Alemanha. Tony não pudera dissimular a surpresa causada pela passividade com que
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a mãe aceitara o enlace. Apesar de não costumar perder com graciosidade, mostrara-se cordial para com a nora, quando ela e Tony regressaram da lua-demel nas Baamas, e até se confessara encantada com a união. E o que mais o intrigava era a circunstância de a atitude parecer sincera. No fundo, talvez não a compreendesse como sempre supusera.
O matrimónio constituiu um êxito brilhante desde o princípio. Marianne satisfazia uma necessidade de longa data do marido, e todos os que o rodeavam se apercebiam da mudança operada nele, em particular Kate.
Quando Tony efectuava viagens de negócios, ela acompanhava -o. Observandolhes a felicidade, Kate reconhecia: “Procedi o melhor possível no interesse de meu filho.”
Foi Marianne quem se encarregou de eliminar o fosso que se cavara entre Tony e a mãe. Quando regressaram da lua-de-mel, anunciou o desejo de convidar Kate para jantar, mas ele tentou opor-se:
- Não a conheces. É capaz…
- Quero precisamente conhecê-la. Por favor, querido. Tony acabou por ceder e preparou-se para um serão difícil e mesmo tenso, mas verificou com admiração que a mãe se mostrava feliz entre eles. Na semana seguinte, foi a sua vez de os convidar e a partir de então os jantares converteram-se num ritual.
Kate e a nora tornaram-se amigas. Conversavam ao telefone diversas vezes por semana e almoçavam juntas com frequência.
Tinham combinado encontrar-se num restaurante, no dia em que Kate pressentiu algo de anormal em Marianne, ao vê -la entrar.
- Um uísque duplo - pediu esta última ao empregado. - Sem gelo.
- Que aconteceu? - inquiriu Kate, ciente de que a outra raramente consumia bebidas alcoólicas.
- Fui consultar o doutor Harley.
- Suponho que não está doente? - articulou, com uma sensação de alarme.
- Não. Simplesmente…
A verdade surgiu entrecortada por hesitações. Tudo principiara uns dias antes.
Sentira-se indisposta e procurara o médico…
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- Acho-lhe um aspecto saudável - declarou o dr. Harley. - Que idade tem, Mistress Blackwell?
- Vinte e três.
- Há algum caso de perturbação cardíaca na família?
- Não.
- Cancro? - continuou, inscrevendo anotações numa ficha.
- Tão-pouco.
- Seus pais são vivos?
- Apenas o meu pai. Minha mãe morreu num acidente.
- Teve papeira?
- Não.
- Sarampo?
- Sim, aos dez anos.
- Tosse convulsa?
- Não.
- Sofreu alguma intervenção cirúrgica?
- Apenas para extrair as amígdalas, aos nove anos.
- À parte isso, nunca esteve hospitalizada?
- Não. Ou, melhor, uma vez. Mas por pouco tempo.
- Qual o motivo?
- Pertencia à equipa feminina de hóquei do colégio e, durante uma partida, perdi os sentidos, só acordando no hospital. Estive internada dois dias. Não foi nada de importância.
- Magoou-se durante o jogo?
- Não. Fiquei inconsciente, sem motivo aparente.
- Que idade tinha?
- Dezasseis. O médico disse que devia tratar-se de alguma perturbação glandular própria da adolescência.
O dr. Harley inclinou-se para a frente e perguntou:
- Quando recuperou os sentidos, sentiu alguma impressão em qualquer dos lados do corpo?
Marianne reflectiu por um momento e inclinou a cabeça.
- Sim, no direito. Mas desapareceu passados poucos dias. Não me voltou a incomodar.
- Teve dores de cabeça? Visão enevoada?
- Sim, mas também passou - começou a sentir-se alarmada. - Parece-lhe que tenho alguma coisa grave, doutor?
- Antes de me pronunciar, gostava de proceder a uns testes… para jogar pelo seguro.
- De que género?
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- Um agiograma cerebral, por exemplo. Não é nada de especial. Podemos tratar disso imediatamente.
Três dias mais tarde, ela recebia um telefonema da enfermeira do médico, que a convocou para uma consulta.
- Solucionámos o mistério - anunciou o dr. Harley, mal a viu.
- É de facto grave?
- Nem por isso. O agiograma indica que sofreu um pequeno colapso.
Tecnicamente, chama-se aneurisma e é muito comum nas mulheres, sobretudo nas adolescentes. Um pequeno vaso do cérebro rebentou e derramou pequenas quantidades de sangue. Foi a pressão daí resultante a responsável pelas dores de cabeça e a visão enevoada. Por sorte, essas coisas curam-se espontaneamente.
Marianne escutava com apreensão crescente, até que perguntou:
- Que quer dizer, com exactidão? Pode repetir-se?
- É pouco provável - o dr. Harley esboçou um sorriso. - A menos que tencione voltar a praticar o hóquei, pode fazer uma vida absolutamente normal.
- Eu e Tony costumamos andar a cavalo e jogar o ténis. Acha que?…
- Desde que não exagere, não corre perigo. Pode entregar-se a desportos dessa natureza, assim como ao sexo, sem problemas.
- Graças a Deus - e Marianne soltou um suspiro de alívio.
No entanto, quando se levantava para sair, o médico acrescentou:
- Há só uma coisa, Mistress Blackwell. Se planeia ter filhos, sugiro que recorra a adoptivos.
- Disse que podia fazer uma vida normal - argumentou ela, estremecendo.
- Dá-se, porém, o caso de a gravidez aumentar o volume vascular enormemente e, durante as últimas seis a oito semanas, verifica-se uma elevação suplementar da tensão arte rial. Ora, em virtude do aneurisma, o risco atingiria um ponto inaceitável. Podia tornar-se não só perigoso como fatal. As adopções são fáceis, nos tempos actuais. Posso encarregar-me…
Todavia, Marianne deixara de escutar o que ele dizia. Tinha
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apenas presentes as palavras de Tony: “Havemos de ter uma filha. Uma rapariga exactamente como tu.” -… Não consegui ouvir mais - explicou Marianne. - Saí a correr do consultório e vim para aqui directamente.
Kate desenvolvia esforços prodigiosos para não deixar transparecer o que sentia.
Era um abalo demolidor, mas devia haver uma saída. Havia sempre solução para tudo.
- Bem! - exclamou com um sorriso. - Esperava muito pior.
- Mas eu e Tony desejamos tanto ter um filho!
- O doutor Harley é um alarmista. Você teve pequenos problemas, há anos, e ele pretende envolvê-los de uma importância inexistente - pegou na mão da nora. - Sente-se bem, suponho?
- Sentia, até…
- Não voltou a ter desmaios?
- Decerto que não.
- Isso significa que tudo passou. Pertence ao passado. Aliás, ele próprio afirmou que essas coisas se curavam espontaneamente.
- Também mencionou os riscos.
- Os riscos existem sempre que uma mulher engravida. Aliás, a vida está cheia deles. O essencial é decidir quais merece a pena correr, não acha?