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- Talvez - admitiu Marianne, pensativamente. De súbito tomou uma decisão. - Tem razão. Não diremos nada a Tony, para lhe evitar preocupações desnecessárias. O segredo fica entre nós.

- Sem dúvida - assentiu Kate, ao mesmo tempo que reflectia: “Apetecia-me matar John Harley por a ter assustado.”

Três meses depois, Marianne engravidou, enquanto Tony ficava encantado, Kate silenciosamente triunfante e o dr. Harley horrorizado.

- Vou tomar as medidas convenientes para o aborto imediato - anunciou este último.

- Não, doutor - redarguiu ela. - Sinto-me bem e vou ter a criança.

Quando informou a sogra da sugestão do médico, esta última dirigiu-se ao consultório para o increpar:

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Que ideia foi essa de recomendar o aborto a minha nora?

- Expliquei-lhe que, se le va a gravidez até ao fim, corre o risco de morrer.

- É uma conjectura. Não pode ter a certeza. Há-de correr tudo bem. Portanto, evite alarmá-la.

Oito meses mais tarde, às quatro da madrugada de princípios de Fevereiro, Marianne entrou em parto prematuramente. Os seus gemidos acordaram Tony, que começou a vestir-se com rapidez, enquanto recomendava:

- Não te preocupes, querida. Levo-te ao hospital num instante.

- Depressa, por favor - murmurou ela, cujas dores se tornavam excruciantes.

Ao mesmo tempo, perguntava a si própria se não devia ter comunicado ao marido a natureza da conversa que tivera com o dr. Harley. Mas não. Como Kate afirmara, a decisão competia-lhe exclusivamente. A vida era tão maravilhosa que Deus não permitiria que lhe acontecesse alguma coisa.

Quando Marianne e Tony chegaram ao hospital, encontrava-se tudo preparado.

Ele acompanhou-a a uma sala de espera, de onde a levaram para os exames preliminares. O obstetra, dr. Mattson, mediu-lhe a tensão arterial, enrugou a fronte e repetiu a operação. Em seguida, voltou-se para a enfermeira a seu lado e indicou:

- Mande levá-la para a sala de partos, sem demora!

Tony acabava de recorrer à máquina que se achava no corredor, para obter um maço de tabaco, quando uma voz áspera proferiu atrás dele:

- Mas é o nosso Rembrandt!

Reconheceu o homem que vira com Dominique à entrada do apartamento desta.

Como lhe chamara? Sim, Ben. De momento, fitava -o com uma expressão de antagonismo. Ciúme? Que lhe teria ela dito? Nesse instante Dominique fez a sua aparição e comunicou a Ben:

- A enfermeira diz que Micheline não pode receber visitas. Voltaremos… - de súbito, avistou Tony e interrompeu-se. - Que fazes aqui?

- Minha mulher entrou em parto.

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- Foi sua mãe que preparou a situação? - interpôs Ben.

- Que quer dizer?

- Dominique explicou-me que ela trata de todos os seus assuntos.

- Pára com isso, Ben!

- Porquê? Não é verdade? Não foi o que disseste?

- De que está ele a falar? - inquiriu Tony, virando-se para Dominique.

- Não faças caso. Vamos, Ben.

No entanto, este parecia divertir-se com a perplexidade de Tony e prosseguiu:

- Quem me dera ter uma mãe assim. Se quer um modelo atraente para a cama, ela compra-lho. Se deseja promover uma exposição de quadros em Paris, trata disso num ápice.

- Endoideceu.

- Parece-lhe? - dirigiu-se à rapariga. - Ele não sabe?

- Não sei o quê? - bradou Tony.

- Nada.

- Ele afirma que minha mãe preparou a minha exposição em Paris. É verdade? - e vendo a expressão de Dominique, insistiu: - Responde!

- Pagou a Goerg para que me deixasse expor as telas?

- Mas gostou realmente delas.

- Explica-lhe aquilo do crítico - sugeriu Ben.

- Basta!

Dominique rodou nos calcanhares para se afastar, porém, Tony segurou-a pelo braço.

- Espera! Foi também minha mãe que providenciou para que ele aparecesse na exposição?

- Foi - e a voz dela convertera-se num murmúrio quase inaudível.

- Mas considerou os meus trabalhos horríveis.

- Não, Tony. André d'Usseau disse a tua mãe que te podias ter tornado um artista.

- Ela pagou-lhe para que me destruísse?! - vociferou ele, incrédulo.

- Estava convencida de que agia em conformidade com o teu interesse futuro.

A enormidade do acto da mãe afigurava-se-lhe esmagadora. “Tudo o que me disse era mentira. Nunca teve em mente

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permitir que vivesse a minha vida”. E André d'Usseau! Como podia deixar-se comprar um homem daqueles? Mas evidentemente que Kate conhecia o preço de toda a gente. Oscar Wilde referia-se a pessoas como ela quando descrevera alguém que estava ao corrente do preço de tudo e do valor de nada. Todos os seus manejos tinham sempre a Kruger-Brent como alvo. E a Kruger-Brent era Kate Blackwell. Por fim, Tony voltou as costas a Dominique e a Ben e afastou-se com ar desvairado.

Na sala de operações, os médicos lutavam desesperadamente para salvar a vida de Marianne, cuja tensão arterial baixara de forma alarmante, ao mesmo que as palpitações do coração se tornavam desordenadas. Administraram-lhe oxigénio e uma transfusão de sangue, mas não obtiveram o mínimo efeito. Ela estava inconsciente, em virtude de uma hemorragia cerebral, quando nasceu o primeiro bebé, e morta três minutos depois, no momento em que veio ao mundo o segundo.

Tony ouviu uma voz distante chamá-lo e voltou-se. Era o dr. Mattson, que anunciou:

- Tem duas belas e saudáveis filhas, Mister Blackwell.

- E Marianne? - a expressão do médico fê-lo estremecer. - Está bem?

O dr. Mattson respirou fundo e meneou a cabeça com lentidão.

- Lastimo, mas os nossos esforços resultaram infrutíferos. Faleceu na…

- O quê? - Tony segurou o interlocutor pelas bandas do casaco e sacudiu-o com violência. - Mente! Minha mulher não morreu!

- Mister Blackwell…

- Onde está ela? Quero vê-la!

- De momento, não é possível. Estão a prepará -la para…

- Matou-a, bastardo!

Principiou a agredir o obstetra, o que obrigou dois internos a intervir e a segurarlhe os braços com firmeza.

- Acalme-se, Mister Blackwell.

- Quero ver minha mulher! - rugia Tony, debatendo -se como um louco.

- Larguem-no - ordenou o dr. Harley, aproximando-se. - Deixem-nos sós.

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O dr. Mattson e os dois internos retiraram-se, enquanto Tony chorava como uma criança.

- Ma-mataram Marianne, John! Assassinaram-na!

- Ela morreu, Tony, e lamento-o profundamente, mas ninguém a matou. Preveni-a há meses de que, se deixasse a gravidez prosseguir, arriscaria a vida.

- Não… não compreendo.

- Marianne não lhe explicou? Sua mãe não disse nada?

- Minha mãe? - balbuciou Tony, estupefacto.

- Considerou-me alarmista e aconselhou Marianne a não fazer caso das minhas recomendações - o médico calou-se por uns segundos. - Vi as gémeas. São admiráveis. Quer que?…

Todavia, Tony afastava -se sem lhe prestar atenção.

- Bom dia, Mister Blackwell - saudou o mordomo, abrindo a porta a Tony.

- Bom dia, Lester.

- Há alguma novidade? - perguntou, apercebendo-se do aspecto desgrenhado do recém-chegado.

- Não. Está tudo em ordem. Importa-se de me trazer um café?

- Imediatamente.

Tony aguardou que o mordomo se encaminhasse para a cozinha e obedeceu à voz na sua cabeça que lhe comandava os movimentos.

Entrou na sala dos trofeus, abriu a vitrina que continha a colecção de armas de fogo e contemplou os numerosos instrumentos de morte.

Continuando a obedecer à voz íntima, pegou num revólver e examinou o tambor, para se certificar de que estava carregado.

“Ela deve estar lá em cima, Tony.”

Dirigiu-se para a escada e principiou a subi-la em passos firmes. Agora, sabia que a mãe não era culpada do mal que espalhava à sua volta. Estava possessa e ele tencionava curá-la. A Kruger-Brent arrebatara -lhe a alma e Kate não tinha a mínima responsabilidade dos seus actos. Ela e a companhia haviam-se convertido num corpo único e quando a matasse, a firma também morreria.