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Fez uma pausa diante da porta e abriu-a. A mãe vestia-se diante do espelho, quando o ouviu entrar.
- Tony! Que?…
Ele apertou o revólver e, meticulosamente, começou a puxar o gatilho.
Capítulo vigésimo segundo O direito de primogenitura - a pretensão daquele que nasce primeiro a um título ou propriedade da família - acha-se profundamente enraizado na História. Entre as famílias reais na Europa, uma entidade oficial de patente elevada encontra -se presente em cada nascimento de um possível herdeiro de uma rainha ou princesa, para que, na eventualidade de surgirem gémeos, o direito de sucessão não constitua motivo de controvérsia. Nessa conformidade, o dr. Mattson tomou a precaução de anotar qual das gémeas viera ao mundo em primeiro lugar.
Todos concordavam em que as gémeas Blackwell eram os bebés mais belos jamais vistos. Saudáveis e invulgarmente vivas, as enfermeiras do hospital invocavam o mínimo pretexto para entrar na sala e contemplá-las. Parte da fascinação, embora nenhuma delas o admitisse, residia nas histórias misteriosas que circulavam acerca da família das recém-nascidas. A mãe morrera durante o parto, o pai desaparecera e constava à boca pequena que tentara assassinar sua própria mãe, conquanto ninguém estivesse em condições de o confirmar. Os jornais guardavam silêncio sobre o assunto, à parte a breve referência ao colapso nervoso sofrido por Tony Blackwell em resultado da morte da esposa, o que motivara o seu internamento numa clínica não mencionada.
Os últimos dias tinham sido infernais para John Harley. Nunca esqueceria a cena que se lhe deparara, quando entrara no quarto de Kate Blackwell, após o telefonema histérico do mordomo. Ela encontrava-se estendida no chão, em estado de coma, com ferimentos de bala no pescoço e no peito, no meio de um charco de sangue, enquanto Tony, empunhando uma tesoura, reduzia a farrapos todos os vestidos e agasalhos da mãe contidos no roupeiro.
O médico lançou uma simples olhadela a Kate e apressou-se a chamar uma ambulância. Em seguida, ajoelhou ao lado do corpo e tomou-lhe o pulso, que era fraco e irregular, além de que as faces adquiriam uma tonalidade azulada, facto indicativo de que entrava em estado de choque. Sem perda de um segundo, deulhe uma injecção de adrenalina e bicarbonato de sódio.
- Que aconteceu? - perguntou, por fim, ao mordomo, alagado em transpiração glacial.
- Não sei ao certo. Mister Blackwell pediu-me um café, e estava na cozinha quando ouvi tiros. Corri cá acima e encontrei a senhora no chão, enquanto ele, de revólver em punho, dizia: “Já não te incomodará mais, mãe. Acabo de a matar.”
Depois, abriu o roupeiro e começou a retalhar os vestidos.
Com um suspiro de desolação, o dr. Harley voltou-se para Tony.
- Que está a fazer?
- Ajudo a mãe - foi a reposta, com uma expressão feroz. - Destruo a companhia que matou Marianne.
Kate foi transportada para a enfermaria de emergência de um hospital particular do centro da cidade pertencente à Kru-ger-Brent, Ltd., onde recebeu quatro transfusões de sangue durante a operação para extrair as balas.
Foram necessários três enfermeiros para arrastar Tony até à ambulância, e só depois de o dr. Harley lhe dar uma injecção principiou a acalmar um pouco.
No dia em que o médico visitou Kate pela primeira vez, ela apressou-se a perguntar num murmúrio:
- Onde está o meu filho?
- Cuidamos dele. Não se preocupe.
Na realidade, Tony fora levado para um sanatório particular em Connecticut.
- Porque tentou matar-me?
- Atribui-lhe a culpa da morte de Marianne.
- Mas isso é uma loucura!
O dr. Harley não comentou esta afirmação. “Atribui-lhe a culpa da morte de Marianne.” Muito depois de ele se haver retirado, Kate continuava empenhada em rejeitar estas palavras. Estimava a nora, porque
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tornara o filho feliz. “Tudo o que fiz foi por ti, Tony. Todos os meus sonhos tinhamte por alvo. Como é possível que não o soubesses?” Não obstante, odiava-a tanto que tentara matá-la. Assolava-a uma angústia tão profunda que desejava morrer.
Mas não sucumbiria. Procedera como devia. Os outros laboravam num erro. Tony era um fraco. Todos o tinham sido. O pai fora demasiado fraco para enfrentar a morte do filho e a mãe para, só, fazer face à vida. “Eu não o sou. Posso enfrentar isto e resistir. Viverei. Sobreviverei. A companhia há-de sobreviver.”
QUINTA PARTE
Eva e Alexandra 1950-1975
Capítulo vigésimo terceiro Kate convalescia em Dark Harbor, permitindo que o sol e o ar do mar a curassem.
Tony encontrava -se numa clínica de alienados particular, onde podia receber os melhores cuidados possíveis.Ela mandara chamar psiquiatras de Paris, Viena e Berlim, mas todos os diagnósticos indicavam a mesma conclusão: o filho era um esquizofrénico e paranóico homicida.
- Não reage às drogas ou ao tratamento psiquiátrico e é violento. Temos de o conservar isolado.
- De que modo? - perguntou Kate.
- Mantemo-lo numa cela almofadada. A maior parte do tempo, vemo-nos obrigados a vestir-lhe a camisa-de-forças.
- É indispensável?
- Sem ela, mataria todas as pessoas ao seu alcance.
Fechou os olhos, com uma expressão de dor. Não era do seu dócil e afável Tony que falavam. Tratava-se de um estranho, um possesso. Por fim, descerrou as pálpebras e murmurou:
- Não se pode fazer nada?
- Sem estabelecermos contacto com a mente, não. Administramos-lhe drogas, mas quando o efeito se atenua, torna a enfurecer-se. Não podemos manter o tratamento indefinidamente.
- Que sugere?
- Em casos similares, verificámos que a remoção de uma pequena porção do cérebro produziu resultados notáveis.
- Uma lobotomia?
- Exacto. Seu filho continuaria a funcionar em todos os aspectos, com a diferença de que não voltariam a registar-se manifestações de violência.
Kate conservou-se silenciosa por longos momentos, ponderando a situação, que ainda se lhe afigurava incrível. Por último, o dr. Morris, um jovem interno da Clínica Menninger, volveu:
- Compreendo como a decisão lhe deve ser difícil, Mis-tress Blackwell. Se deseja reflectir uns dias…
- Se é a única coisa que porá termo ao seu tormento, tem a minha autorização - declarou ela com firmeza.
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Frederick Hoffmann desejava ficar com as netas e levá -las para a Alemanha. Ao observá-lo, Kate tinha a impressão de que envelhecera vinte anos desde a morte da filha e compadecia-se dele, mas não estava disposta a abdicar das gémeas de Tony.
- Precisam das atenções de uma mulher. Marianne gos taria que se criassem aqui.
Pode vir vê-las sempre que queira.
E ele acabou por se deixar convencer.
As gémeas foram transferidas para a residência de Kate, a qual entrevistou várias preceptoras, até que admitiu uma jovem francesa chamada Solange Dunas.
A que nascera primeiro recebeu o nome de Eva e, a outra, Alexandra. Eram idênticas, impossíveis de distinguir. Quem as via juntas ficava com a impressão de que tinha na sua frente uma imagem num espelho, e Kate maravilhava-se com o duplo milagre criado pelo filho e Marianne. Apesar de vivas e possuidoras de reflexos rápidos, transcorridas poucas semanas Eva principiou a revelar-se mais madura do que a irmã. Foi a primeira a gatinhar, a falar e a andar, conquanto Alexandra não tardasse a seguir-lhe o exemplo. Esta última adorava -a e tentava imitá-la em tudo. Kate passava com elas tanto tempo quanto as ocupações lhe permitiam. Faziam-na sentir-se mais jovem e em breve recomeçou a sonhar. “Um dia, quando for velha e decidir afastar-me dos negócios…”
No primeiro aniversário das netas, promoveu uma festa. Mandou confeccionar dois bolos idênticos e houve dezenas de prendas de amigos, empregados da companhia e pessoal doméstico. O segundo pareceu seguir-se quase imediatamente. Kate tinha dificuldade em acreditar que o tempo passava tão depressa e as gémeas cresciam com tanta rapidez. Ao mesmo tempo, começava a distinguir claramente as diferenças nas suas personalidades. Eva, a mais forte, revelava maior arrojo, enquanto Alexandra, mais recatada, se contentava em acompanhar as iniciativas da irmã. “Sem mãe nem pai, é extraordinário que se estimem tanto”, pensava Kate com frequência.