Na véspera do seu quinto aniversário, Eva tentou assassinar Alexandra.
286
Está escrito no Génese 25, 22-23: “E as crianças labutaram juntas com ela…
E o Senhor disse-lhe: Duas (nações) estão no ventre, e duas maneiras de povos serão separadas das tuas entranhas; e um (povo) será mais forte que o outro (povo); e o mais velho servirá o mais jovem.”
No caso de Eva e Alexandra, porém, a primeira não tinha a mínima intenção de servir a irmã mais nova.
Na verdade, odiava-a desde que se conhecia e enfurecia-se em silêncio, quando alguém pegava em Alexandra, a acariciava ou lhe oferecia um presente.
Afigurava-se-lhe que era ludibriada. Queria tudo para si - o afecto e as coisas bonitas que as rodeavam. Não podia sequer ter um aniversário só dela. Detestava a irmã porque se parecia com ela, vestia da mesma maneira e absorvia a parte da estima da avó que lhe pertencia. Alexandra adorava-a e Eva desprezava -a por isso. O que tinha era apenas dela, mas resultava insuficiente. À noite, sob as vistas de Solange Dunas, as duas garotas pronunciavam as suas orações juntas, mas Eva acrescentava sempre uma prece silenciosa para que Deus fulminasse Alexandra. No entanto, à medida que o tempo passava sem que fosse escutada, decidiu que devia agir por suas próprias mãos. O quinto aniversário achava-se próximo e custava-lhe aceitar a ideia de que o compartilhariam, mais uma vez.
Impunha-se que matasse Alexandra, e sem demora.
Na véspera do aniversário, Eva encontrava-se deitada, mas bem acordada, e, quando se certificou de que todos dormiam, acercou-se da cama da irmã e despertou-a.
- Vamos à cozinha ver os bolos para amanhã.
- Está toda a gente a dormir - argumentou Alexandra, esfregando os olhos.
- Não acordamos ninguém.
- Mademoiselle Dunas é capaz de não gostar. Porque não os vemos antes de manhã?
- Porque quero que seja agora. Vens ou não?
Tentou afastar o sono, reflectindo que, embora não desejasse vê-los, convinha não contrariar Eva.
- Está bem - assentiu, por fim.
287
Saltou da cama, enfiou o roupão de nylon, igual ao da irmã, e calçou as pantufas.
- Não faças barulho - recomendou Eva, encaminhando-se para a porta.
Atravessaram o longo corredor, desceram a escada e entraram na ampla cozinha, que continha dois enormes fogões de gás, seis fogareiros eléctricos, três frigoríficos e uma arca congeladora.
Eva descobriu num dos frigoríficos os bolos de aniversário confeccionados pela cozinheira, Mrs. Tyler. Num deles, lia-se Parabéns, Alexandra e no outro Parabéns Eva.
“Para o ano, só haverá um”, pensou esta.
Em seguida, pegou no da irmã e colocou-o sobre o tampo de mármore da mesa, após o que abriu uma gaveta e extraiu uma embalagem de velas coloridas.
- Que vais fazer? - quis saber Alexandra.
- Quero ver como fica com as velas acesas - murmurou Eva, começando a dispôlas no bolo.
- Ainda dás cabo dele e Mistress Tyler fica fula.
- Não se importa - abriu outra gaveta e puxou de duas caixas de fósforos de cozinha. - Ajuda-me.
- Quero voltar para a cama.
- Então, volta, gata medrosa. Desenrasco-me sozinha.
- Que queres que faça? - perguntou Alexandra, depois de breve hesitação.
- Vai acendendo as velas - indicou a irmã, passando-lhe uma das caixas.
Alexandra tinha medo do fogo, em resultado das advertências da preceptora sobre os perigos de brincar com fósforos. Aliás, ambas conheciam as histórias horríveis que circulavam acerca das crianças que infringiam essa regra. Todavia, Alexandra não queria desapontar a irmã, pelo que principiou obedientemente a acender as velas.
Eva observou-a por um momento e disse:
- Esqueces as do outro lado, pateta.
Alexandra inclinou-se para a frente, a fim de chegar lá, de costas para a outra, que se apressou a acender um fósforo, aproximando-o da caixa que tinha na mão. No instante em que esta irrompeu em chamas, largou-a aos pés de Alexandra e a ponta do roupão começou a arder. Escoaram-se uns segundos, primeiro que Alexandra se apercebesse do que acontecia,
288
e, ao experimentar a sensação de queimadura, soltou um grito de dor.
Eva contemplou o roupão em chamas por um momento, impressionada com a extensão do seu êxito, e acabou por exclamar:
- Não te mexas, que vou buscar um balde de água!
E precipitou-se para a copa, o coração inundado de alegria.
Foi uma película de terror que salvou a vida a Alexandra. Mrs. Tyler fora ao cinema com um sargento da Polícia, cuja cama compartilhava de vez em quando, mas o écran achava-se sulcado de tantos cadáveres e corpos mutilados, que não conseguiu suportar o suplício até ao fim e desabafou:
- Isto talvez sejam ossos do ofício para ti, Richard, mas já não aguento mais.
O sargento seguiu-a com relutância em direcção à saída e chegaram à mansão Blackwell uma hora mais cedo. No instante em que abriu a porta, a cozinheira ouviu os gritos de Alexandra e correram ambos para a cozinha. Após breves segundos de hesitação para abarcar a cena, ele arrancou o roupão do corpo da garota e verificou que apresentava queimaduras nas pernas e nas coxas, mas as chamas não haviam atingido os cabelos ou qualquer área vital. Não obstante, ela caiu, inconsciente.
- Chama uma ambulância - disse o sargento. - Mis-tress Blackwell está em casa?
- Suponho que sim.
- Vai preveni-la.
Quando Mrs. Tyler pousava o auscultador, depois de chamar a ambulância, soou um grito na copa e Eva surgiu com um balde na mão, chorando convulsivamente.
- Alexandra morreu? - balbuciou. - Está morta?
- Não, minha filha, salvou-se - e a cozinheira tomou-a nos braços, para a serenar.
- Há-de ficar boa.
- A culpa foi minha! Ela quis acender as velas do bolo de aniversário, mas eu não a devia ter deixado.
- Não se preocupe - murmurou, acariciando-lhe a cabeça. - Tudo se há-de compor.
- Os fósforos caíram-me da mão e o roupão dela começou a arder.
- Pobre criança - articulou o sargento, olhando Eva com uma expressão de pesar.
289
- Tem queimaduras de segundo e terceiro graus, nas pernas e na parte inferior das costas - informou o dr. Harley. - No entanto, ficará como nova, embora pudesse registar-se uma tragédia.
- Acredito - aquiesceu Kate, horrorizada com o aspecto do corpo da neta. Após uns segundos de hesitação, acrescentou: - Mas ainda estou mais preocupada com Eva.
- Também foi atingida?
- Fisicamente não, mas atribui-se a culpa do acidente. Tem pesadelos medonhos.
Nas últimas três noites, precisei de a conservar nos braços para que voltasse a adormecer. Não quero que isto se torne mais traumático. É uma garota muito sensível.
- As crianças recompõem-se depressa de tudo. Se surgir algum problema, previna-me, para que lhe recomende um pediatra.
- Obrigada - murmurou Kate, pensativamente.
Eva sentia-se profundamente indignada, pois a festa de aniversário fora cancelada. “Alexandra privou-me deste prazer”, reflectiu com amargura.
A irmã restabeleceu-se com prontidão e as marcas das queimaduras acabaram por desaparecer. Por seu turno, Eva libertou-se da remota sensação de culpa com notável facilidade. Aliás, Kate assegurava -lhe com frequência: “Um acidente pode acontecer a qualquer pessoa. Não te consideres culpada”.