Na realidade, a garota atribuía a culpa a Mrs. Tyler. Porque regressara mais cedo do cinema, para estragar tudo? No fundo, tratava-se de um plano perfeito.
A clínica em que Tony se encontrava situava-se numa tranquila área arborizada de Connecticut e Kate visitava -o uma vez por mês. A lobotomia fora coroada de êxito, originando o desaparecimento da agressividade. Ele reconhecia a mãe e perguntava sempre polidamente por Eva e Alexandra, sem todavia manifestar o menor interesse em vê-las. Aliás, deixava transparecer escasso interesse por coisa alguma, conquanto parecesse feliz. “Feliz, não satisfeito”, cogitava Kate.
“Mas satisfeito com quê?”
Numa das visitas, procurou o director da clínica, antes de sair, e perguntou:
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- Meu filho não faz nada em todo o dia?
- Entretém-se a pintar.
Tony, que podia ter possuído virtualmente o mundo, passava os dias a pintar!
Esforçando-se por dissimular a desolação que a percorria, insistiu:
- O quê?
- Ninguém consegue compreendê-lo.
Capítulo vigésimo quarto Durante os dois anos seguintes, Kate preocupou-se seriamente com Alexandra.
Não restavam dúvidas de que a garota revelava marcada tendência para os acidentes. Nas férias de Verão passadas na propriedade das Baamas, quase pereceu afogada, quando brincava com a irmã na piscina, valendo-lhe a intervenção oportuna de um jardineiro. No ano imediato, quando efectuavam um piquenique numa área acidentada, Alexandra resvalou à beira de uma ravina e conseguiu salvar-se porque teve a presença de espírito de se agarrar a uns arbustos que se destacavam do declive.
- Deves vigiar melhor tua irmã - indicou Kate a Eva. - Parece incapaz de tomar conta dela, como tu.
- Pois é - assentiu a interpelada, com uma expressão grave. - Não a perderei de vista.
Kate estimava ambas as netas, mas de maneiras diferentes. Contavam agora sete anos e eram igualmente bonitas, com cabelos louros compridos, semblantes exóticos e olhos dos McGregor. Apesar de idênticas, possuíam personalidades muito distintas. Para Kate, a afabilidade de Alexandra recordava -lhe Tony, enquanto Eva se parecia mais com ela, em determinação e auto -suficiência.
Um motorista conduzia-as ao colégio no Rolls Royce da família, e Alexandra sentia-se embaraçada por as colegas a verem rodeada de semelhante aparato, ao passo que a irmã ficava encantada. Kate dava, a cada uma, sua mesada, com a recomendação de que mantivessem um registo de como a despendiam. Eva costumava ficar sem dinheiro no final da primeira quinzena e pedia emprestado a Alexandra,
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conseguindo depois falsear os dados inscritos no livro, para que a avó não se apercebesse. Contudo, Kate descobria a artimanha e esboçava um sorriso. Com apenas sete anos de idade e já se revelava uma conta bilista criativa!
Ao princípio acalentara o sonho secreto de que Tony acabasse por se recompor e regressar à Kruger-Brent, mas à medida que o tempo se escoava, as esperanças dissipavam-se. Foi informada de que, embora ele pudesse ausentar-se da clínica para breves visitas ao lar materno, acompanhado por um enfermeiro, jamais conseguiria voltar a participar nas actividades do mundo exterior.
Decorria o ano de 1962 e a companhia continuava a prosperar e a expandir-se, pelo que as exigências de uma direcção no va se avolumavam. Kate acabava de celebrar o septuagésimo aniversário. Tinha agora os cabelos completamente brancos, mas conservava um porte erecto e firme, pleno de vitalidade. No entanto, sabia que a acção inexorável do tempo terminaria por a dominar e a chava-se preparada para enfrentar esse dia. Impunha-se que a Kruger-Brent fosse preservada para a família. Brad Rogers, embora um gerente de excelente qualidade, não era um Blackwell. “Tenho de resistir até que as gémeas possam ocupar o meu lugar.” E Kate evocava as derradeiras palavras de Cecil Rhodes: “Tão pouco feito e tanto para fazer!”
As duas irmãs completaram doze anos, no limiar da adolescência. A avó, que lhes consagrara todo o tempo humanamente possível, redobrava de esforços para as acompanhar de perto. Aproximava-se o momento de tomar uma decisão importante.
Durante a semana da Páscoa, ela e as netas seguiram para Dark Harbor num avião da companhia. As gémeas haviam visitado todas as propriedades da família, à excepção da de Joanesburgo, e, de entre todas, Cedar Hill era a sua favorita.
Apreciavam em particular a liberdade de movimentos e o isolamento da ilha, juntamente com as oportunidades para nadar e praticar esqui aquático. Eva perguntou se podia levar umas colegas, como acontecera no passado, mas desta vez Kate não concordou. A avó, aquela figura poderosa e imponente, desejava achar-se a sós com elas. As duas irmãs pressentiam que se iria passar algo de diferente.
Entretanto, Eva e Alexandra continuavam surpreendentemente
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parecidas, dua s beldades de cabelos dourados; contudo, Kate sentia-se menos interessada nas suas similaridades que nas diferenças. Sentada no terraço, observando-as no final de uma partida de ténis, analisava-as mentalmente. Eva era a chefe e Alexandra a seguidora. A primeira possuía um temperamento voluntarioso, enquanto a segunda se revelava flexível. Uma podia considerar-se atleta natural, ao passo que a outra continuava a sofrer acidentes. Poucos dias antes, por exemplo, quando se encontravam num pequeno barco à vela, com Kate ao leme, levantara -se um golpe de vento súbito e Alexandra fora projectada no mar, escapando de perecer afogada por um triz. A tripulação de uma embarcação que se achava nas proximidades auxiliara Eva a salvar a irmã. Kate perguntava a si própria se tudo aquilo teria alguma relação com o facto de Alexandra haver nascido três minutos depois de Eva, mas as razões careciam de importância. A decisão fora tomada. Já não lhe subsistia a mínima dúvida no espírito. Apostava o seu dinheiro em Eva e tratava-se de uma aposta de dez biliões de dólares.
Encontraria o marido apropriado para ela e, na altura devida, ascenderia à direcção suprema da Kruger-Brent. Quanto a Alexandra, teria uma vida de abundância e conforto e poderia gerir alguns dos estabelecimentos de caridade que Kate fundara.
O primeiro passo para que o plano de Kate arrancasse consistia em providenciar para que Eva frequentasse o colégio conveniente.
- As minhas netas são ambas encantadoras, mas descobrirá que Eva possui mais inteligência. Posso mesmo afirmar que se trata de uma rapariga extraordinária e espero que possa apurar as suas faculdades devidamente neste estabelecimento.
- Todas as nossas alunas dispõem de meios apropriados para se aperfeiçoar.
Referiu-se apenas a Eva. E a irmã?
- Alexandra? É uma moça bonita - e a apreciação parecia pejorativa, nos lábios dela. - Inteirar-me-ei dos seus progressos com regularidade.
E a directora ficou com a impressão de que estas palavras constituíam uma advertência.
As duas gémeas adoravam o colégio, em particular Eva, que apreciava a liberdade de se encontrar longe de casa e não
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ter de prestar contas dos seus actos à avó e a Solange Dunas. O regulamento em Briarcrest era rigoroso, mas isso não a apoquentava, pois estava habituada a furtar-se às regras. A única coisa que a preocupava era a presença de Alexandra, e chegara a rogar à avó que a matriculasse apenas a ela, mas deparara-se-lhe uma negativa firme e irrevogável.
Manifestava sempre prontidão em acatar as disposições dela, pois sabia onde se situava o poder. O pai era um louco, internado numa clínica, e a mãe morrera. Por conseguinte, o controlo do dinheiro encontrava-se nas mãos da avó. Eva sabia que a família dispunha de larga fortuna e, conquanto ignorasse o quantitativo exacto, ou mesmo aproximado, compreendia que bastava para lhe proporcionar tudo o que ambicionava. Subsistia unicamente um problema: Alexandra.
Uma das actividades favoritas das gémeas em Briarcrest consistia na aula matinal de equitação. A maior parte das raparigas possuíam calção de montar, e Kate não descurara esse pormenor quando lhes fornecera o equipamento para o colégio. O instrutor, Jerome Davis, observava as evoluções das suas pupilas, e reconhecia que uma das novas, Eva Black-well, reunia as condições para se tornar perita na matéria. Não necessitava pensar no que fazia, na maneira de pegar nas rédeas ou na posição a adoptar na sela. Ela e a montada constituíam um bloco único admirável de contemplar.