Passado pouco tempo, atraiu-me ao quarto, a pretexto de me mostrar uma coisa interessante, empurrou-me para a cama e…
- É falso! - bradou Parkinson. - Não foi assim que as coisas se passaram!
A directora mandou chamar Kate e explicou-lhe a situação, ficando decidido que, no interesse de todos, convinha manter o incidente em segredo. Parkinson foi despedido, com a determinação de abandonar o estado dentro de quarenta e oito horas. Em seguida, Eva teve um aborto discreto.
Por seu turno, Kate adquiriu a hipoteca do colégio, em poder de um banco local, e mandou executá-la.
Quando se inteirou, Eva soltou um suspiro.
- Tenho muita pena, avó. Gostava realmente do colégio.
Algumas semanas mais tarde, recuperada da operação, ela e Alexandra eram matriculadas no Instituto Fernwood, um colégio suíço nas proximidades de Lausana.
Capítulo vigésimo quinto O fogo que ardia no íntimo de Eva era tão intenso que não o conseguia dominar.
Não estava apenas envolvido o sexo, mas uma fúria de viver, uma necessidade de fazer tudo, ser tudo. Encarava a vida como um amante que pretendia possuir
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desesperadamente. Invejava toda a gente. Se assistia a um espectáculo de bailado, desejava encontrar-se no lugar da bailarina principal, para conquistar as aclamações da assistência. Queria ser uma cientista, uma cantora, uma cirurgiã, uma actriz de renome. Numa palavra, ambicionava tudo neste mundo e não podia esperar para o obter.
Do outro lado do vale em que se situava o Instituto Fern-wood, havia um colégio militar e, quando Eva completou os dezassete anos, virtualmente todos os alunos e grande parte dos instrutores estavam envolvidos com ela. Agora, porém, tomava as precauções apropriadas, pois não lhe interessava voltar a engravidar.
Desfrutava com a prática sexual, mas não em virtude do acto em si. Incutia-lhe um poder extraordinário, já que só cedia aos rogos dos parceiros depois de os obrigar às atitudes e, mesmo, às situações mais vexatórias. A experiência acabou por a levar a decidir que todos os homens eram imbecis.
Eva era atraente, inteligente e herdeira de uma das maiores fortunas do Globo, pelo que não surpreendia que tivesse recebido diversas propostas de casamento.
No entanto, não se achava interessada. Os únicos rapazes que a atraíam eram aqueles de quem Alexandra gostava.
Num baile de sábado à noite, esta última conheceu um jovem francês chamado René Mallot, inteligente e sensível, embora sem atractivos físicos especiais, com o qual simpatizou profundamente, e combinaram encontrar-se na cidade, na semana seguinte.
- Às sete - indicou ele.
- Serei pontual.
No quarto que compartilhavam, Alexandra referiu-se ao rapaz na presença de Eva.
- Não é como os outros. No sábado, vamos ao teatro.
- Parece que te caiu no goto.
- Acabo de o conhecer - alegou, corando. - Em todo o caso… bem, tu compreendes…
- Confesso que não - Eva reclinou-se numa poltrona, as mãos unidas sob a nuca. - Tentou levar-te para a cama?
- Não é desses! Pelo contrário, acho-o até um pouco tímido.
- Desconfio que a minha irmãzinha está apaixonada.
- Não estou nada! Já me arrependi de te ter contado.
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- Penso que fizeste muito bem - declarou com sinceridade.
Quando se apresentou à entrada do teatro, no sábado seguinte, Alexandra não vislumbrou René. Depois de esperar durante mais de uma hora, consciente dos olhares de curiosidade que os transeuntes lhe lançavam, jantou num pequeno restaurante e regressou ao instituto, desolada e decepcionada. Eva não se encontrava no quarto e ela leu até à hora do recolher, após o que apagou a luz.
Quando a irmã entrou, cerca das duas horas da madrugada, Alexandra comentou a meia voz:
- Começava a apoquentar-me contigo.
- Encontrei umas pessoas amigas. Como te correu o serão?
- Ele não se deu ao incómodo de aparecer.
- Tens de aprender a não confiar nos homens, mana.
- Só se lhe aconteceu alguma coisa…
- Que ideia! - Eva abanou a cabeça com veemência. - Deve ter-lhe surgido outra mais do seu agrado.
“Não me custa a crer”, pensou Alexandra. Na realidade, não fazia a mínima ideia de como era bonita e admirável, pois vivera sempre à sombra da irmã. Adorava-a e afigurava -se-Lhe natural que toda a gente se sentisse atraída por ela. Julgavase- lhe inferior, mas nunca l he passara pela cabeça que Eva encorajava subtilmente essa convicção desde a infância.
Houve outros encontros que não se concretizaram. Alguns rapazes dos quais Alexandra gostava pareciam reagir favoravelmente, para depois não voltarem a aparecer. Um fim-de-semana, avistou René inesperadamente numa rua de Lausana e ele aproximou-se com uma expressão ansiosa.
- Que aconteceu? Prometeste telefonar.
- Eu? Não entendo…
- Não és Eva? - perguntou, subitamente perturbado.
- Não, sou Alexandra.
- Desculpa, mas estou atrasado.
E afastou-se apressadamente, deixando-a petrificada, imersa em confusão.
Naquela noite, quando descreveu o episódio a Eva, esta encolheu os ombros e articulou com desprendimento:
- Deve estar fou. Não perdeste nada, Alex.
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Apesar da sua sensação de experiência com os homens, existia um ponto fraco no elemento masculino que ia resultando fatal para Eva. Desde o início da Humanidade que os homens gostam de se vangloriar das suas conquistas e os alunos do colégio militar não constituíam uma excepção, trocando impressões sobre Eva Blackwell com entusiasmo e admiração.
- Quando acabámos de nos rebolar, eu estava esgotado…
- Nunca pensei possuir um corpo como aquele…
- Tem um sexo que fala…
- É uma autêntica pantera na cama!…
Como pelo menos duas dezenas de rapazes e meia dúzia de professores enalteciam os talentos libidinosos dela, o assunto não tardou a tornar-se no segredo mais guardado da região. Por fim, um dos instrutores mencionou o caso a uma professora do Instituto Fernwood, que não hesitou em informar a directora, Mrs. Collins. Esta mandou promover um inquérito discreto, em resultado do qual Eva foi chamada à sua presença.
- No interesse da reputação do instituto, parece-me conveniente que o abandone imediatamente - foram as palavras introdutórias.
Eva olhou-a, como se se achasse na presença de uma demente.
- Não compreendo.
- Refiro-me ao facto de exerceres as funções de estação de serviço de metade dos alunos e instrutores do colégio militar. A outra metade deve formar bicha à espera de vez.
- É uma calúnia inconcebível! - e a voz da rapariga tremia de indignação. - Garanto-lhe que vou comunicar isto a minha avó e…
- Posso poupar-te o incómodo - atalhou Mrs. Collins. - Preferia evitar embaraços ao Instituto Fernwo od, mas se não partires sem provocar escândalo, enviarei a Mistress Blackwell uma lista de nomes que me forneceram.
- Gostava de a ver!
Entregou-a a Eva, sem uma palavra. Era extensa e, depois de a examinar, a rapariga verificou que faltavam pelo menos sete nomes. Por último, ergueu os olhos e afirmou com serenidade:
- Tudo indica que se trata de um conluio contra a minha
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família. Alguém pretende embaraçar minha avó por meu intermédio. Portanto, para que isso não aconteça, partirei.
- É uma decisão muito sensata - aprovou a directora, secamente. - Um carro conduzir-te-á ao aeroporto, de manhã. Entretanto, telegrafarei a tua avó, prevenindo-a do teu regresso. Podes retirar-te.
Eva moveu-se em direcção à porta, e de súbito, antes de a abrir, virou-se para trás e perguntou:
- E minha irmã?
- Alexandra pode ficar, se quiser.
Quando recolheu ao quarto, após a última aula, Alexandra encontrou a irmã atarefada com a bagagem.