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- Que estás a fazer?

- Vou para casa.

- A meio do período?

- Ainda não chegaste à conclusão de que perdemos o nosso tempo aqui? Não aprendemos nada de novo. Limitamo -nos a gastar o dinheiro da avó, sem proveito.

- Não sabia que pensavas assim - balbuciou Alexandra, surpreendida.

- Ficaste a saber. E garanto -te que aguentei até agora só por tua causa, pois pareces satisfeita.

- Realmente, mas…

- Lamento, Alex, mas não aguento mais. Quero voltar para Nova Iorque, para o meio a que pertencemos.

- Falaste com Mistress Collins?

- Há momentos.

- Como reagiu?

- Como querias que reagisse? Ficou apavorada, com receio de que a minha saída provoque uma imagem indesejável ao instituto. Suplicou-me mesmo que ficasse.

- Confesso que não sei o que dizer - murmurou Alexandra, sentando-se na borda da cama.

- Não precisas de dizer nada. O assunto não é contigo.

- Claro que é! Se te sentes tão mal aqui… - interrompeu-se e assumiu uma expressão voluntariosa. - Talvez tenhas razão. Limitamo-nos a perder tempo. Para que precisamos de conjugar verbos latinos?

- Exacto. Ou que nos interessam as campanhas de Aníbal ou do raio do irmão Asdrúbal? - Eva fez uma pausa e sorriu

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dissimuladamente ao ver a irmã pegar na sua mala e abri-la em cima da cama. - Não queria pedir-te que me acompanhasses, mas alegra-me que venhas comigo.

- Não me interessa ficar sem ti.

- Já agora, enquanto acabo de fazer a mala, telefona à avó e previne -a de que seguimos para casa de avião, amanhã. Diz-lhe que não suportamos isto.

Importas-te?

- De modo algum - Alexandra hesitou. - Mas desconfio de que não vai ficar contente.

- Não te preocupes com a velhota. Eu trato de a tranquilizar.

Kate Blackwell tinha amigos, inimigos e associados de negócios em posições elevadas, pelo que, nos últimos meses, lhe haviam acudido aos ouvidos rumores singulares. Ao princípio, tomara-os por meras manifestações de inveja mesquinha.

Não obstante, persistiam: Eva tinha encontros de natureza inconfessável com alunos de um colégio militar na Suíça, praticara um aborto, recebera tratamento por contrair uma doença venérea…

Assim, foi com profundo alívio que se inteirou de que as netas regressavam a casa, pois tencionava aprofundar o assunto.

No dia em que as gémeas chegaram, Kate aguardava-as em casa e levou imediatamente Eva para a saleta contígua ao seu quarto.

- Contaram-me coisas desagradáveis - principiou. - Para já, quero saber porque foram expulsas.

- Não nos expulsaram - replicou a rapariga. - Decidimos vir-nos embora.

- Por causa de certos incidentes com rapazes?

- Por favor, avó - murmurou, embaraçada. - Preferia não falar nisso.

- Mas vais ter de falar. Que andaste a fazer?

- Eu, nada. Foi Alex que… - interrompeu-se e levou a mão à boca.

- Continua - insistiu Kate, implacável.

- Não lho devemos levar a mal. Deve ser mais forte que ela. Gosta de fingir que é irresistível. Eu não fazia a mínima ideia do que sucedia, até que as colegas começaram a tecer comentários. Parece que se… encontrava com muitos rapazes.

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- Porque não a convenceste a pôr termo a isso?

- Bem tentei, mas ela ameaçou matar-se. Oh, avó, penso que é um pouc o… instável. Se aludisses ao assunto na sua frente, era capaz de cometer um disparate - e os olhos de Eva humedeceram-se de lágrimas.

- Não chores - recomendou Kate, comovida. - Não lhe direi nada. Fica tudo entre nós.

- Não queria que soubesses - soluço u a rapariga. - Sabia que te desgostava.

Mais tarde, durante o chá, Kate observou Alexandra dissimuladamente. “É bonita por fora e corrupta por dentro”, pensou. O reconhecimento do facto apavorava-a.

Nos dois anos seguintes, enquanto completavam os estudos num colégio americano, Eva revelou-se particularmente discreta. O alarme registado na Suíça obrigara-a a rodear-se das maiores precauções. Impunha-se que nada afectasse as suas relações com a avó. Aliás, a velhota não podia durar muito mais - já completara setenta e nove anos! - e ela tencionava desenvolver todos os esforços para ser a sua herdeira.

Quando as gémeas fizeram vinte e um anos, Kate levou-as a Paris e comproulhes guarda-roupas completos no Coco Chanel.

Numa pequena reunião no Restaurante Lê Petit Bedouin, Eva e Alexandra foram apresentadas ao conde Alfred Maurier e esposa, Vivien. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, aspecto distinto, cabelos grisalhos e corpo disciplinado de atleta e a companheira ainda atraente, apesar da idade, com reputação firmada como anfitriã internacional.

Eva não lhes teria prestado atenção especial se não se apercebesse do comentário que uma componente do grupo dirigiu à condessa.

- Confesso que os invejo. São o casal mais feliz que conheço. Há quantos anos casaram? Vinte e cinco, salvo erro.

- Vinte e seis, no próximo mês - interpôs Alfred. - E talvez me possa considerar o único francês da História que nunca foi infiel à esposa.

Soou uma gargalhada geral em que Eva não participou e, durante o resto do serão, preocupou-se em observar o conde

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Maurier e a mulher. Não conseguia compreender o que ele via nela.

Provavelmente, nunca tivera ensejo de fazer amor como mandavam as regras do prazer supremo. Na realidade, considerava-o um desafio que a estimulava particularmente.

No dia seguinte, Eva telefonou a Maurier, que se encontrava no gabinete de trabalho.

- Fala Eva Blackwell. Provavelmente nem reparou em mim, mas…

- Que ideia! É uma das atraentes netas da minha amiga, Kate.

- A sua boa memória lisonjeia-me. Desculpe incomodá-lo, mas dizem que é uma autoridade em vinhos. Ora, tenciono promover uma festa-surpresa em honra de minha avó e, embora tenha ideias bem definidas sobre a ementa, gostava que me aconselhasse acerca das bebidas.

- Com o maior prazer. Depende do que for servido, claro. Se principiar com peixe, um Chablis pouco encorpado…

- Tenho uma memória horrível. Não nos podíamos reunir para trocar impressões?

Se estiver livre para o almoço, por exemplo…

- Em atenção à velha amizade com sua avó, abro uma excepção.

- Óptimo.

Eva pousou o auscultador com lentidão. Seria um almoço que o conde recordaria toda a vida.

Encontraram-se no Lasserre e a discussão respeitante aos vinhos foi breve. Ela escutou com resignação as opiniões de Maurier, até que perdeu a paciência e o interrompeu:

- Amo-o, Alfred.

Ele calou-se abruptamente a meio de uma frase.

- Perdão…

- Estou apaixonada por si. Levou o copo aos lábios e declarou:

- Excelente néctar - dando uma palmada amável na mão dela, acrescento u: - Todos os bons amigos se devem estimar.

- Não me refiro a essa espécie de afecto, Alfred.

Este fitou os olhos flamejantes de Eva e compreendeu a que espécie se referia, o que o enervou visivelmente. Ela

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tinha vinte e um anos e ele já ultrapassara a meia-idade e amava a esposa. Não entendia o que se passava com as moças actuais. Por fim, incapaz de descobrir as palavras apropriadas para manter as devidas distâncias, balbuciou:

- Nem… nem sequer me conhece.

- Sonho consigo desde a infância. Imaginava um homem de armadura reluzente, alto, bem-parecido…

- Receio que a minha armadura esteja um pouco enferrujada.

- Não troce de mim, por favor - suplicou Eva. - Quando o vi, ontem à noite, não consegui desviar mais os olhos de si. Não fui capaz de pregar olho.

- Não sei o que dizer-lhe. Sou casado, amo minha mulher e…

- Nem faz uma ideia de como a invejo! Talvez nem imagine a sorte que tem.

- Sem dúvida que imagina - e ele esboçou um sorriso amarelo, empenhado em mudar de assunto. - Lembro-lho a cada momento.