- Mas aprecia-o realmente? Compreende a sua sensibilidade? Preocupa-se com a sua felicidade?
- É uma mulher muito atraente, Eva, e um dia encontrará o seu cavaleiro de armadura reluzente… sem ferrugem.
- Já o encontrei e quero ir para a cama com ele.
O conde lançou um olhar apavorado em volta, para verificar se alguém das mesas próximas ouvira.
- Por favor!
- É a única coisa que lhe peço - volveu ela, baixando a voz e inclinando-se para a frente. - A recordação perdurará até ao fim da minha vida.
- É impossível - articulou ele com firmeza. - Tem-me nessa conta? Julga que ando por aí a engatar?…
- Conheci apenas um homem que me interessou. Estávamos para casar, quando morreu num acidente de alpinismo, a que assisti. Foi horrível.
- Lastimo profundamente.
- Parece-se tanto com ele! Quando o vi pela primeira vez, cheguei a pensar que Bill tinha ressuscitado. Se me conceder uma hora, não tornarei a importuná-lo. Por favor, Alfred!
O conde olhou a interlocutora demoradamente, ponderando os prós e os contras.
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No fundo, porém, era francês.
Passaram toda a tarde num pequeno hotel da Rue Sainte-Anne, e ele viu-se forçado a admitir que, em toda a sua experiência pré-matrimonial, nunca fora para a cama com uma mulher como Eva. Na verdade, era um furacão, uma ninfa, um demónio. Sabia demasiado. Ao anoitecer, sentia-se totalmente exausto.
- Quando nos voltamos a ver, querido? - perguntou ela, no momento em que se vestiam.
- Eu telefono-te.
Na realidade, não tencionava dar azo a que a situação se repetisse. Havia naquela rapariga algo de assustador, quase diabólico.
O assunto teria terminado aí, se não fossem vistos à saída do hotel por Alicia Vanderlake, que fizera parte de uma comissão de caridade com Kate, no ano anterior. Tratava-se de uma trepadora social e aquilo constituía uma escada fornecida pelo céu. Observara nos jornais fotografias do conde Maurier e esposa, assim como das gémeas Blackwell. Ignorava qual das duas acabava de ver, mas o pormenor carecia de importância. Por conseguinte, consultou a agenda e marcou o número do telefone de Kate.
- Bonjour - proferiu o mordomo, do outro lado do fio.
- Desejava falar com Mistress Blackwell.
- Da parte de quem?
- Alicia Vanderlake. É para um assunto de natureza pessoal. Momentos depois, a voz de Kate vibrava no auscultador.
- Estou…
- Penso que se recorda de mim, Mistress Blackwell. Participámos numa comissão, o ano passado, e…
- Se é para um donativo, contacte com o meu…
- Não se trata disso. Diz respeito a sua neta.
- Sim? - articulou, na expectativa.
- Considero meu dever revelar-lhe que acabo de a ver sair de um hotel com o conde Alfred Maurier. O motivo por que o visitaram, parece-me óbvio.
- Custa-me a crer - afirmou em tom glacial. - A qual das minhas netas se refere?
- Bem… não sei - Alicia Vanderlake soltou uma risada de nervosismo. - Não sou capaz de as distinguir.
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- Obrigada pela informação - e Kate cortou a ligação. Conservou-se imóvel por um momento, assimilando o que acabava de escutar. Conhecia Maurier de longa data e a acusação de Alicia Vanderlake afigurava -se-lhe em discordância absoluta com o seu carácter, impensável mesmo. Não obstante, os homens deixavam-se impressionar. Se Alexandra lhe preparara uma armadilha…
Por fim, voltou a pegar no telefone e indicou à telefonista:
- Quero falar para o Instituto Fernwood, em Lausana, Suíça.
Quando regressou a casa, naquela tarde, Eva sentia-se dominada por intensa satisfação. Não por ter experimentado prazer especial com o conde Maurier, mas em virtude da vitória sobre ele. “Se o conquistei com tanta facilidade, posso repetir a proeza com qualquer homem. Posso até dominar o mundo.” Em seguida, entrou na biblioteca, onde se lhe deparou Kate.
- Olá, avó. Tiveste um bom dia?
- Nem por isso - foi a resposta seca. - E tu?
- Fui comprar umas coisas, mas…
- Fecha a porta e senta -te.
O tom que ouviu indicou a Eva que se devia preparar para uma situação delicada.
No entanto, esforçou-se por deixar transparecer serenidade, quando indagou:
- Há alguma novidade?
- É o que espero escutar da tua boca. Pensei em convidar Alfred Maurier para assistir a esta conversa, mas decidi poupar-nos a humilhação.
O cérebro da rapariga começou a rodopiar, ao mesmo tempo que reflectia: “É impossível! Ninguém está ao corrente do meu encontro com ele.” - Não… não compreendo o que queres dizer.
- Nesse caso, permite-me que te elucide sem rodeios. Estiveste na cama com ele, esta tarde.
- Esperava que não descobrisse o que me fez, porque é teu amigo - as lágrimas assomaram com prontidão. - Foi horrível. Convidou-me para almoçar, embriagoume e…
- Cala-te! - a voz de Kate possuía a inflexão cortante de um chicote. - És desprezível.
Conhecera a hora mais pungente da sua vida ao abarcar a
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verdade acerca da neta. Ainda conservava bem nítidas no espírito as palavras da directora do colégio suíço: “Sabemos o que é a juventude, Mistress Blackwell, e se uma das raparigas tem uma ligação secreta, não me imiscuo. Mas Eva revelavase tão promíscua, que, no interesse da reputação deste estabelecimento…”
E Eva atribuíra a culpa a Alexandra.
Em seguida, Kate começou a evocar os acidentes. O roupão em chamas, que quase provocara a morte de Alexandra. A queda desta na ravina. O incidente na embarcação à vela, que estivera prestes a terminar no afogamento. Recordou a descrição dos pormenores da “violação” de Eva pelo professor de inglês: “Mr.
Parkinson disse que queria trocar impressões comigo sobre o meu ponto de inglês e sugeriu que aparecesse em sua casa, um domingo à tarde. Quando entrei, vi que estava só. Passado pouco tempo, atraiu-me ao quarto, a pretexto de me mostrar uma coisa interessante, empurrou-me para a cama e…”
Houve igualmente o caso de marijuana em Briarcrest, cuja responsabilidade Eva atribuíra à irmã, simulando defendê-la. Era essa a sua técnica: ser a vilã e apresentar-se como heroína. Inteligência não lhe faltava, sem dúvida.
Agora, Kate estudava o monstro de rosto de anjo na sua frente. “Construí todos os meus planos para o futuro à tua volta. Serias tu que um dia dirigirias a Kruger- Brent.”
Com um suspiro de pesar, anunciou pausadamente:
- Quero que saias desta casa. Espero jamais voltar a pôr-te a vista em cima - fez uma pausa, enquanto Eva adquiria uma lividez cadavérica. - És uma prostituta, mas suponho que poderia fechar os olhos a isso. Infelizmente, és também falsa, ardilosa e uma mentirosa psicopata, o que de modo algum desejo tolerar.
Os acontecimentos desenrolavam-se com demasiada rapidez, e a rapariga ainda tentou estender a mão para uma tábua de salvação:
- Se Alexandra te mentiu a meu respeito…
- Ela não sabe de nada. Limitei-me a ter uma longa conversa com Mistress Collins.
- Foi só isso? - tentou incutir um tom de alívio à voz. - Detesta-me, porque…
- Não percas tempo - murmurou Kate, que parecia
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repentinamente fatigada. - Terminou tudo. Já mandei chamar o meu advogado.
Vou deserdar-te.
- Não é possível! - Eva sentiu o seu mundo desmoronar-se. - De que viverei?
- Receberás uma pequena mesada. Doravante, viverás a tua própria vida. Podes dar-lhe o rumo que entenderes. No entanto, presta atenção ao seguinte - e Kate reassumiu a inflexão autoritária. - Se me chegar aos ouvidos ou ler uma palavra de escândalo a teu respeito ou manchares o nome dos Blackwell de algum modo, ficarás sem um cêntimo. Entendido?
A rapariga viu a expressão firme da avó e compreendeu que desta vez não havia saída possível. Acudiram-lhe aos lábios várias explicações, mas não passaram daí.