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- Talvez te interesse saber - acrescentou Kate, agora em voz trémula -, mas é a decisão mais penosa que tive de tomar em toda a vida.

E afastou-se em passos firmes e cabeça bem erguida.

Kate permanecia sentada no quarto às escuras, tentando determinar o motivo por que tudo correra mal.

Se David não morresse no acidente na mina e Tony tivesse conhecido o pai…

Se Tony não quisesse ser um artista…

Se Marianne tivesse vivido…

“Se. Uma palavra de duas letras, símbolo de futilidade.”

O futuro era barro, a ser moldado dia a dia, mas o passado consistia em rocha granítica, imutável. “Todos os que amava me traíram. Tony. Marianne. Eva. Sartre tinha razão: "O inferno são os outros".” Ao mesmo tempo, perguntava-se quando se extinguiria a dor.

Se Kate era assolada pela dor, Eva não conseguia dominar a fúria. Limitara-se a estar na cama por umas horas com um homem, e a avó agira como se tivesse praticado um crime hediondo. “A cadela antiquada!” Antiquada, não. Senil. Isso mesmo. Estava senil. Havia de recorrer a um bom advogado, para que o novo testamento fosse contestado nos tribunais. O pai e a mãe não possuíam o funcionamento normal das faculdades mentais. Ninguém a deserdaria. A Kruger- Brent era a sua companhia. Aliás, a avó repetira numerosas vezes que um dia lhe pertenceria. E Alexandra! Consagrara todos aqueles anos a manobras para a caluniar e desacreditar

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definitivamente. Ambicionava a companhia para ela e, por ironia e crueldade do destino, tudo indicava que a irmã a conseguiria. O que acontecera naquela tarde era horrível, mas a ideia de a irmã dirigir um império quase incomensurável era -lhe insuportável. “Não posso consentir que isso aconteça. Descobrirei uma maneira de o impedir!” Por fim, parou de fazer a mala e foi procurá-la.

Alexandra encontrava-se no jardim, com um livro na mão, e ergueu os olhos quando ouviu Eva aproximar-se.

- Resolvi voltar para Nova Iorque, Alex.

- Já? A avó projecta um cruzeiro à costa da Dalmácia, na próxima semana.

- Quero lá saber disso! Reflecti maduramente e cheguei à conclusão de que é a altura de possuir um apartamento só meu - Eva exibiu um sorriso. - Procurarei um a meu gosto e, se te portares bem, deixo-te visitar-me, uma vez por outra.

“É este o tom exacto”, pensou. “Cordial, mas não aduladora, para que não desconfie de nada…”

Entretanto, Alexandra observava -a com apreensão crescente.

- A avó já sabe?

- Disse-lhe esta tarde. Ficou desolada, claro, mas compreende. Eu queria arranjar um emprego, mas insistiu em conceder-me uma mesada.

- Queres que vá contigo? “A descarada cadela de duas caras!” Primeiro, obrigava-a a sair de casa e agora fingia que desejava acompanhá-la. “Ninguém se livra de mim com essa facilidade.

Verão como elas mordem!” Encontraria um apartamento satisfatório (procuraria um decorador fabuloso para lho arranjar) e disporia de inteira liberdade de movimentos. Poderia convidar homens a passar a noite com ela. Seria verdadeiramente livre pela primeira vez na vida. A perspectiva era a todos os títulos inebriante.

Todavia, replicou:

- Agradeço a atenção, Alex, mas quero estar só por uma temporada.

Alexandra continuava a olhá -la com ar desolado. Seria a primeira vez que se separariam.

- Havemos de nos ver com frequência, hem?

- Sem dúvida - prometeu Eva. - Muito mais do que imaginas.

Capítulo vigésimo sexto Quando regressou a Nova Iorque, Eva alojou-se num hotel do centro da cidade, em conformidade com as instruções recebidas. Uma hora mais tarde, Brad Rogers telefonava -lhe.

- Sua avó contactou comigo de Paris. Parece que houve qualquer problema entre as duas.

- Nada de importância - e ela soltou uma gargalhada. - Uma pequena divergência familiar.

Preparava-se para apresentar uma defesa pormenorizada, mas apercebeu-se a tempo do perigo existente em algo do género. A partir de agora, necessitava de usar da maior prudência. Nunca tivera de se preocupar com o dinheiro. Achava -o sempre disponível. De futuro, precisava de o conservar bem presente no pensamento. Não fazia a mínima ideia do quantitativo da mesada e, pela primeira vez na vida, invadia-a um temor irresistível.

- Explicou-lhe que vai redigir novo testamento? - perguntou Brad.

- Sim, acho que tocou no assunto.

- Parece-me preferível trocarmos impressões pessoalmente. Segunda-feira às três da tarde, está bem?

- Sem dúvida.

- No meu gabinete.

- Não faltarei.

Eva entrou no edifício da Kruger-Brent, Ltd., às 15.55 e foi saudada com deferência pelo guarda de segurança, o porteiro e o ascensorista. “Todos me conhecem”, pensou. “Sou uma Blackwell.” O elevador conduziu-a ao piso da administração e, momentos depois, encontrava -se sentada no gabinete de Brad Rogers.

Este ficara surpreendido, qua ndo Kate lhe telefonara para comunicar que ia deserdar Eva, pois sabia que ela manifestava predilecção especial pela neta e a incluía em planos de grande envergadura. Não fazia a mínima ideia do motivo e, no fundo, admitia que não era de sua conta. Se Kate quisesse revelar-lho mais tarde, muito bem. Para já, o seu dever consistia em cumprir as ordens dela. Sentiu compaixão momentânea pela atraente jovem na sua frente. A avó não era muito

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mais velha quando ele a vira pela primeira vez. E o mesmo se passava consigo próprio. Agora, convertera-se num velho de cabelos grisalhos, ainda esperançado em que Kate reconhecesse que alguém a amava profundamente.

- Tenho aqui uns documentos para você assinar - informou. - Leia-os primeiro e…

- Não é necessário.- Tem de compreender a situação. Segundo o testamento de sua avó, é beneficiária de um fundo calculado em mais de cinco milhões de dólares, de que ela é a executora. Por sua determinação, o dinheiro pode ser-lhe entregue em qualquer altura entre os vinte e um e os trinta e cinco anos de idade - aclarou a voz. - Decidiu fazê-lo aos trinta e cinco. A partir de hoje, receberá duzentos e cinquenta dólares semanais.

Era impossível, uma autêntica bofetada sem mão! Um vestido decente custava mais do que isso. Nunca conseguiria manter-se com semelhante quantia. Aquele bastardo devia achar-se de conivência com a chanfrada da avó e desfrutava intimamente, refastelado atrás da secretária. Eva sentia o desejo quase irreprimível de pegar no pesa-papéis de bronze e utilizá-lo para lhe esmagar o crânio.

Entretanto, Brad prosseguia:

- Não disporá de qualquer espécie de crédito no comércio, nem deverá mencionar o nome Blackwell para o obter. Tudo o que adquirir será pago com dinheiro à vista.

O pesadelo tornava-se cada vez mais tenebroso.

- Se houver alguma notícia desagradável nos jornais ligada ao seu nome, a mesada será suspensa. Entendeu?

- Sim - foi a resposta, num murmúrio quase inaudível.

- Você e sua irmã Alexandra eram beneficiárias de um seguro de vida de vossa avó no valor de cinco milhões de dólares cada uma. A apólice em seu nome foi cancelada esta manhã. Decorrido um ano, se Mistress Balckwell estiver satisfeita com o seu comportamento, duplicará o quantitativo da mesada - e Brad hesitou, antes de acrescentar: - Existe uma estipulação final.

- Qual? - perguntou ela, ao mesmo tempo que pensava: “Quer mandar-me suspender pelos polegares em público.” - Sua avó não quer voltar a vê-la.

“Mas quero vê -la eu. Na agonia da morte.” - Se tiver algum problema, deve telefonar-me

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- continuou ele - Ela não deseja que torne a aparecer neste edifício ou visite qualquer das propriedades da família.

Enquanto pronunciava estas palavras, recordava que tentara dissuadir Kate de tomar uma medida tão drástica.

- É sua neta, que diabo! Corre-lhe o seu sangue nas veias, e trata -a como uma leprosa.

- Ela é uma leprosa.

E a discussão terminara.