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Agora, proferiu, levemente embaraçado: .- penso que abordei todos os pormenores. Ocorre-lhe alguma pergunta?

- Não - articulou Eva, quase em estado de choque.

- Nesse caso, queira assinar os documentos.

Dez minutos mais tarde, encontrava-se de novo na rua, com um cheque de duzentos e cinquenta dólares na bolsa.

Na manhã seguinte, Eva telefonou a uma agência e principiou a procurar casa.

Nas suas fantasias, imaginara um belo apartamento sobranceiro ao Central Park, com decoração moderna e confortável, um ambiente próprio para receber convidados. A realidade, porém, produziu-lhe um abalo demolidor. Parecia não haver habitações dispo níveis naquela área para quem possuísse o rendimento semanal de duzentos e cinquenta dólares. Subsistia apenas um apartamento - estúdio de uma assoalhada, com um sofá -cama, um recanto que a boa vontade do funcionário da agência considerava “escritório”, uma reduzida kitchenette e uma minúscula casa de banho;

- É o melhor que me pode oferecer? - perguntou Eva, desolada.

- Não - replicou o homem, secamente. - Tenho uma casa de vinte divisões em Sutton Place por meio milhão de dólares.

”Bastardo”, pensou ela, com amargura.

No entanto, o desespero só a invadiu verdadeiramente na tarde seguinte, quando se mudou. O quarto de vestir na residência anterior era maior que todo o apartamento, e ela não pôde deixar de configurar Alexandra na vasta moradia da Quinta Avenida. “Porque não teria morrido queimada? Faltara tão pouco!” Se a irmã perdesse a vida e Eva fosse a

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única herdeira, tudo se desenrolaria de maneira diferente, pois a vó não a deserdaria.

No entanto, se Kate Blackwell supunha que ela tencionava renunciar à herança com tanta facilidade, não a conhecia. Não fazia a mínima tenção de viver com duzentos e cinquenta dólares por semana. Havia cinco milhões que lhe pertenciam, depositados no banco, e aquela mulher senil impedia-a de lhes pôr as mãos. “Tem de haver um meio de me apoderar desse dinheiro. Descobri-lo-ei, por muito que custe.”

A solução do problema apresentou-se-lhe no dia seguinte.

- Em que lhe posso ser útil, Miss Blackwell? - perguntou com deferência Alvin Seagram, vice-presidente do National Union Bank, disposto na verdade a fazer praticamente tudo para a comprazer. Que boa fada teria conduzido a jovem à sua presença? Se conseguisse assegurar a conta da Kruger-Brent, ou parte, nos seus cofres, veria a carreira descrever uma curva ascensional velo z.

- Há uma determinada quantia depositada em meu nome - principiou Eva. - Cinco milhões de dólares, mais concretamente. No entanto, em virtude das condições envolvidas, só o poderei utilizar quando completar trinta e cinco anos - esboçou um sorriso ingénuo. - Parece uma data tão distante!

- É natural que pareça, na sua idade - o banqueiro sorriu igualmente. - Tem dezanove anos, talvez?

- Vinte e um.

- E é bonita, se me permite que lho diga.

- Obrigada, Mister Seagram - e o sorriso dela acentuou-se. Afinal, tudo se desenrolaria muito mais facilmente do que supusera, pois o homem era um imbecil.

- De que modo lhe posso valer?

- Bem, gostava de saber se posso contrair um empréstimo sobre o fundo depositado em meu nome e, por assim dizer, congelado. É que preciso mais do dinheiro agora do que aos trinta e cinco anos. Tenciono casar em breve e o meu noivo trabalha na construção civil em Israel, só regressando dentro de três anos.

- Compreendo perfeitamente - afirmou Alvin Seagram, compadecido com a situação. Nada mais fácil do que satisfazer o pedido da bela moça. Os bancos concediam empréstimos sobre fundos congelados quase todos os dias. Ao mesmo

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tempo, comprazeria um membro da família Blackwell, o que decerto se reflectiria em operações financeiras futuras. - Não vejo problema algum - acrescentou com firmeza. - Trata-se de uma transacção muito simples. É claro que o banco não lhe pode emprestar a totalidade da quantia depositada, mas fornecer-lhe -á pelo menos um milhão. Acha satisfatório?

- Absolutamente - assentiu Eva, esforçando-se por dissimular a alegria.

- Nesse caso, queira revelar-me os pormenores desse fundo.

- Pode contactar com Brad Rogers, na Kruger-Brent, que lhe dará todos os elementos necessários.

- Muito bem. Telefonar-lhe-ei em seguida.

- Quanto tempo calcula que demorará? - perguntou, levantando-se.

- Um ou dois dias, no máximo. Farei pressão para que as formalidades sejam reduzidas tanto quanto possível.

- É muito amável - murmurou, estendendo a mão.

No instante em que Eva saiu do gabinete, Alvin Seagram pegou no telefone e indicou:

- Ligue-me a Brad Rogers, da Kruger-Brent, Limited. Só de pronunciar o nome da firma sentia um estremecimento de emoção por todo o corpo.

Dois dias depois, Eva apresentou-se no banco e foi imediatamente conduzida à presença de Seagram, que anunciou sem rodeios:

- Lamento, mas o banco não lhe pode ser útil, Miss Blackwell.

- Não compreendo - ela tinha dificuldade em acreditar no que ouvia. - Disse que se tratava de uma transacção muito simples.

- Nessa altura, não conhecia todos os factos.

Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, o banqueiro recordava o que Brad Rogers lhe revelara:

- Sim, existe um depósito de cinco milhões de dólares em nome de E va Blackwell e o seu banco pode adiantar-lhe o dinheiro que quiser. No entanto, quero preveni - lo de que Kate Blackwell encararia semelhante atitude com profundo desagrado.

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Não havia necessidade de pormenorizar quanto às consequê ncias, pois a Kruger- Brent contava com amigos poderosos em todos os sectores. E, se esses amigos começassem a retirar os seus depósitos do National Union Bank, Seagram não necessitava entregar-se a conjecturas minuciosas para saber como isso se reflectiria na sua carreira.

- Lamento, mas nada posso fazer - reiterou a Eva. Esta encarava-o, frustrada.

Todavia, estava decidida a não permitir que aquele homem se apercebesse do abalo que acabava de sofrer.

- Desculpe o incómodo - articulou, friamente. - Há mais bancos em Nova Iorque.

Passe muito bem.

- Devo preveni-la de que nenhum dos meus colegas lhe emprestará um cêntimo.

Alexandra estava perplexa. No passado, a avó tornara óbvio, por uma infinidade de atitudes, que se inclinava para Eva. Agora, de um dia para o outro, tudo se modificara. Devia ter ocorrido algo de terrível entre as duas, embora não fizesse a mínima ideia de que se tratava.

Quando tentava abordar o assunto, Kate replicava em tom peremptório:

- Não há mistério nenhum nisso. Eva decidiu seguir a sua vida.

E também não conseguia extrair nada da irmã.

Entretanto, Kate principiou a consagrar mais tempo a Alexandra, a qual se sentia particularmente intrigada. Dir-se-ia que a avó se apercebia da sua presença pela primeira vez, e assolava-a a desconfortável sensação de que era estudada.

Na verdade, Kate via a neta pela primeira vez, e em virtude da decepção que sofrera, ponderava tudo demoradamente antes de formar uma opinião definitiva acerca de Alexandra. Por fim, considerou-se satisfeita.

Não era fácil conhecer a gémea de Eva, muito mais reservada que esta última.

Possuía uma inteligência viva, e a sua inocência, combinada com a beleza, tornava-a ainda mais atraente. Sempre recebera inúmeros convites para festas, bailes ou teatros, mas agora era a avó quem decidia quais devia aceitar ou recusar. O facto de um pretendente dispor de fortuna não bastava. Kate procurava um homem capaz de ajudar a neta a dirigir a dinastia da família. Entretanto, abstinha-se de

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revelar ou denunciar as suas intenções a Alexandra. Haveria muito tempo para o fazer, quando surgisse o companheiro que se lhe afigurasse ideal.

Por seu turno, Eva singrava num mar de rosas. O episódio com a avó afectara-lhe o ego tão profundamente que, por uns tempos, esquecera um facto de importância capitaclass="underline" o efeito que exercia nos homens. Durante a primeira festa para a qual foi convidada, depois de se instalar no apartamento, deu o número do telefone a seis - quatro dos quais casados - e, em menos de vinte e quatro horas, fora para a cama com todos. A partir de então, compreendeu que não necessitaria de se preocupar com o dinheiro, pois inundavam-na de ofertas: jóias dispendiosas, quadros valiosos e, na maioria dos casos, quantias avultadas.