- Acabo de ver umas credencias óptimas para a minha sala, mas ainda não recebi o cheque da mesada. Importas-te, querido?…
E eles nunca se importavam.
Sempre que se apresentava em público, Eva provindenciava para que a acompanhassem homens solteiros. Os casados recebia-os discretamente, à tarde, no seu apartamento. Aliás, revelava a máxima prudência em todos os seus actos.
Desenvolvia os maiores esforços, coroados de êxito, para que o seu nome não figurasse nas colunas de mexericos dos jornais, não porque se preocupasse com o perigo de lhe suspenderem a mesada, mas por estar convencida de que a avó ainda se lhe arrojaria aos pés. Kate Blackwell necessitava de um herdeiro para dirigir a Kruger-Brent e Alexandra só se achava preparada para não passar de uma dona de casa estúpida.
Uma tarde, quando folheava o último número de Town and Country, deparou-selhe uma fotografia da irmã dançando com um homem atraente. O facto suscitoulhe reflexões tenebrosas. Se Alexandra casasse e tivesse um filho, os seus planos desmoronar-se-iam irremediável e definitivamente.
Durante quase um ano, a irmã telefonara -lhe com regularidade, a fim de a convidar para almoçar ou jantar, mas Eva esquivara-se sempre com uma ou outra desculpa. Agora, reconheceu que chegara o momento de terem uma conversa e sugeriu que se encontrassem no seu apartamento.
Alexandra nunca lá estivera e Eva preparou-se para assistir
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a uma manifestação de pesar. Ao invés, porém, ouviu-a exclamar:
- É encantador! Muito funcional, não achas?
- Para as minhas necessidades, chega - replicou Eva, com um sorriso de resignação, - Interessa-me uma coisa intime. Como está a avó?
- Óptima - Alexandra hesitou. - Não sei o que se passou entre as duas, mas se vires que te posso ajudar…
- Ela não te disse?
- Não. Recusa-se a abordar o assunto.
- É natural. A pobrezinha deve sentir-se culpada. Aconteceu o seguinte. Conheci um rapaz médico, com o qual tencionava casar, e fomos para a cama. A avó descobriu e pôs-me fora de casa. Nunca vi uma mulher tão antiquada…
- Mas isso é horrível! - proferiu, com uma expressão desolada. - Têm de a procurar os dois e…
- Infelizmente, ele morreu num acidente de aviação.
- Meu Deus! Porque não me contaste isto antes?
- Estava demasiado envergonhada para o revelar a alg uém, mesmo a ti.
Costumava dizer-te tudo, como sabes.
- Deixa-me falar à avó. Explico-lhe…
- Não! O amor-próprio não mo permite. Promete que nunca lhe dirás nada.
- Mas estou certa de que ela…
- Promete!
- Está bem - acedeu Alexandra, com um suspiro.
- Acredita que me sinto feliz aqui. Gozo de plena liberdade de movimentos. É estupendo! - Eva colocou o braço em torno da cintura da irmã. - Mas basta de falar de mim. Conta-me a tua vida. Já encontraste o teu príncipe encantado? Aposto que sim!
- Não.
- Hás-de encontrar - asseverou, olhando-a pensativamente. Era a sua imagem, mas estava decidida a destruí-la.
- Não tenho pressa. Resolvi começar a ganhar a vida e falei nisso à avó. Para a semana, sou recebida pelo director de uma agência publicitária, com vista a um emprego.
Almoçaram num pequeno restaurante perto do apartamento e Eva insistiu em pagar a conta, pois não queria nada da irmã. Quando se despediram, esta última aventurou:
- Se precisares de dinheiro…
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- Que ideia! Tenho mais do que o suficiente.
- Em todo o caso, se te escassear, podes contar com tudo o que tenho.
- Eu sei - dclarou Eva, com um sorriso enigmático. - Mas na verdade não me falta nada.
Não lhe interessavam migalhas. Estava empenhada em obter todo o bolo. A questão consistia em descobrir um meio.
Havia uma reunião de fim-de-semana em Nassau, e Eva recebeu um telefonema de Nita Ludwig, sua antiga colega no colégio da Suíça:
- Sem a tua presença, não tem graça. Estarão lá todas as nossas amigas.
- Talvez seja divertido - admitiu. - Não faltarei. Naquela tarde, foi empenhar uma pulseira de esmeraldas, oferta de um presunçoso funcionário superior de uma companhia de seguros com esposa e cinco filhos, e comprou vestuário de Verão na Lord Taylor e uma passagem de ida e volta para Nassau, embarcando na manhã seguinte.
A propriedade dos Ludwig situava-se nas proximidades da praia e incluía uma vasta mansão, com trinta divisões, a menor das quais excedia as dimensões do apartamento de Eva. Esta foi cond uzida ao quarto que lhe estava destinado por uma empregada uniformizada, após o que desceu à sala para se reunir aos outros convidados.
Depararam-se-lhe dezasseis pessoas possuidoras de um factor comum: eram abastadas. Nita Ludwig perfilhava a filosofia de “cartas do mesmo naipe”. Um jornalista que assinava colunas de mexericos denominava o grupo de “conjunto jacto”, expressão que os visados enjeitavam publicamente e apreciavam na intimidade. Eram os privilegiados, os poucos eleitos, separados de todos os restantes seres humanos por um deus discriminativo. Os outros, que continuassem convencidos de que não se comprava tudo com o dinheiro. Eles sabiam que isso não correspondia à verdade. O dinheiro proporcionava-lhes beleza, amor, luxo e um lugar no céu. E Eva vira-se excluída de tudo aquilo pelo capricho de uma velha de vistas estreitas. “Mas não por muito tempo”, decidiu para consigo.
No momento em que entrou na sala, as conversas interromperam-se. Num ambiente cheio de mulheres atraentes,
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tornou-se subitamente o foco das atenções gerais. Nita pegou-lhe no braço, a fim de proceder às apresentações daqueles que ela não conhecia. Eva mostrava -se cordial e comunicativa, ao mesmo tempo que observava os homens com ares de entendida, para seleccionar os alvos. Na sua maioria eram casados, mas isso só servia para lhe facilitar os projectos.
Em dado momento, um indivíduo de calça enxadrezada e camisa havaiana acercou-se dela e observou:
- Aposto que está farta de ouvir dizer que é bonita.
- Nunca me farto de uma coisa dessas, Mister?…
- Peterson, mas pode tratar-me por Dan. Devia ser estrela de Hollywood.
- Receio não ter talento para representar.
- Mas estou convencido de que possui muitos outros.
- É uma coisa que só se pode saber depois de os experimentar, Dan - sussurrou Eva, com um sorriso malicioso.
- Veio só? - perguntou ele, humedecendo os lábios.
- Vim.
- Tenho o iate ancorado na baía. Que diz a efectuarmos um pequeno cruzeiro, amanhã?
- É uma ideia excelente..
- Não compreendo porque nunca nos encontrámos. Conheço sua avó, Kate, há muitos anos.
- A avó é uma jóia - articulou ela, esforçando-se por manter o sorriso. - Acho conveniente juntarmo-nos aos outros.
- Não se esqueça do que combinámos.
O homem não voltou a ter oportunidade de lhe falar a sós. E va evitou-o durante o almoço e à tarde meteu-se num dos carros destinados aos convidados e seguiu em direcção à cidade. No cais, deteve -se para observar o movimento dos pesqueiros que descarregavam o abundante produto da faina, no qual abundava o marisco de numerosas espécies.
Soprava uma brisa agradável e a superfície do mar sereno brilhava como se estivesse coberta de diamantes. Eva avistava, do outro lado da água, a curva crescente da praia de Para-dise Island. Uma lancha motorizada partiu naquele momento e, no instante imediato, ergueu-se a figura de um homem na sua esteira.