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Segunda-feira à tarde, Eva telefonou-lhe para anunciar:

- Parece que obtiveste êxito. George Mellis ligou para cá, a fim de me pedir o teu número. Posso dar-lho?

- Se tens a certeza de que não te interessa… - articulou Alexandra, surpreendida ao verificar que sorria de satisfação.

- Já te disse que não é o meu tipo.

- Então, podes dar-lhe o número do meu telefone.

Trocaram impressões por mais uns minutos e quando pousou o auscultador, Eva voltou-se para Mellis, deitado na cama a seu lado.

- A senhora disse que sim.

- Quando telefono?

- Quando eu te indicar.

Alexandra esforçava-se por esquecer que George Mellis lhe telefonaria, mas obtinha um resultado contraproducente, pois ainda pensava mais nisso. Nunca se sentira particularmente atraída por jovens bem-parecidos, porque descobrira que, na sua maioria, não passavam de presunçosos. No entanto, este parecia diferente. Irradiava uma qualidade dominadora. O mero contacto da mão bastara para a excitar. “És parva. Só viste o homem durante dois minutos!”

Mellis não telefonou naquela semana, e as emoções dela passaram da impaciência à frustração e depois à cólera. “Que vá para o diabo! Deve ter encontrado outra. Melhor!”

Quando o telefone tocou finalmente, na semana seguinte, e

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escutou a voz grave e rouca, a irritação dissipou-se como que por artes mágicas.

- Fala George Mellis. Vimo-nos o outro dia em que você almoçava com sua irmã.

Ela disse que não se importava que eu lhe telefonasse.

- De facto, referiu-se a essa possibilidade - admitiu Alexandra, com simulada naturalidade. - Antes que me esqueça: obrigada pelo almoço.

- Você merece um autêntico festim. Merece mesmo um monumento. Aceitava, se a convidasse para jantar, uma noite destas?

- Bem… acho que sim. Com todo o gosto.

- Óptimo. Se recusasse, matava-me.

- Não faça isso, por favor. Detesto comer só.

- Eu também. Conheço um restaurante discreto na Mul-berry Street chamado Matoon's.

- É o meu favorito!

Mellis lançou um olhadela a Eva e sorriu, admirando a sua perícia na preparação do cenário. Com efeito, revelara -lhe todas as predilecções e antipatias da irmã.

Quando ele pousou o auscultador, pensou: “Começou!”

Foi o serão mais encantador na vida de Alexandra. Uma hora antes de Mellis se apresentar, recebeu uma dúzia de pequenos balões cor-de-rosa presos a uma orquídea. Ela receava que a imaginação a levasse a esperar demasiado, mas quando o voltou a ver sentiu todas as dúvidas esfumarem-se. Ô poderoso magnetismo tornou a dominá -la.

Uma vez no restaurante, ele perguntou:

- Quer consultar a ementa, ou não se importa que eu escolha?

- Confio no seu gosto.

Mandou servir uma das iguarias preferidas dela, que ficou com a estranha sensação de que lhe lia o pensamento. Quando apareceu a salada e o viu proceder à mistura com notável perícia, inquiriu:

- Você cozinha?

- É uma das grandes paixões da minha vida. Ensinou-me minha mãe, uma cozinheira excepcional.

- Mantém relações estreitas com a família?

Ele esboçou um sorriso, e Alexandra reflectiu que era o

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mais deslumbrante que jamais observara nos lábios de um homem.

- Sou grego - declarou Mellis, com simplicidade. - Tenho três irmãos e duas irmãs mais novos e constituímos um bloco muito unido - o olhar enevoou-se com uma expressão de nostalgia. - Quando me separei deles, senti uma das maiores tristezas de sempre. Pediram-me que ficasse, para continuar à testa do negócio, mas teve de ser.

- Porquê?

- Talvez lhe pareça parvoíce de minha parte, mas prefiro singrar pelos meus próprios meios. Sempre experimentei dificuldade em aceitar dádivas, e o negócio constitui uma dádiva legada por meu avô a meu pai. Cedi a minha parte à família.

De resto - acrescentou baixando a voz -, se continuasse na Grécia, não nos tínhamos conhecido.

- Nunca foi casado? - quis saber Alexandra, sentindo-se corar.

- Não. Costumava ficar noivo uma vez por dia, mas mudava sempre de ideias.

Chame-me bota-de-elástico, se quiser, mas quando me unir a uma mulher será para sempre. Uma basta para mim, desde que seja a que me convém.

- E uma maneira de pensar admirável.

- E você, alguma vez esteve apaixonada?

- Não.

- Que infelicidade para alguém! Mas que sorte para…

Naquele momento, o empregado apareceu com a sobremesa. Alexandra ansiava por que Mellis completasse a frase, mas receou insistir.

Nunca se sentira tão à vontade com um homem. George Mellis parecia tão profundamente interessado nela que a levou a falar-lhe da infância e da vida em geral, com as preferências e aversões.

Entretanto, ele orgulhava-se da forma experiente como enfrentava a s mulheres.

Sabia que as atraentes eram as mais inseguras, pois os homens concentravam-se na sua beleza e faziam com que se sentissem mais objectos do que seres humanos. Quando se encontrava com uma delas, nunca aludia aos seus atractivos físicos. Assim, fazia com que se julgasse admirada pelo seu espírito e diante de alguém que compartilhava dos seus sonhos. Tudo isto constituía uma experiência extraordinária para Alexandra, que se referiu a Kate e a Eva.

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- Sua irmã não vive convosco?

- Não. Quis instalar-se num apartamento independente.

E ela perguntava a si própria por que razão Mellis não sentira atracção por Eva.

No entanto, qualquer que fosse a causa, congratulava-se com a reacção dele.

Enquanto jantavam, apercebeu-se de que todas as mulheres presentes lançavam olhares furtivos ao seu companheiro, sem que este parecesse preocupar-se com o facto.

Quando tomavam café ele sugeriu:

- Há um clube nocturno em St. Marks Place, chamado Five Spot, e se gosta dejazz…

- E onde toca Cecil Taylor!

- Já esteve lá? - exclamou, fingindo-se surpreendido.

- Diversas vezes - Alexandra sorriu, divertida. - Adoro ouvi-lo. É incrível como partilhamos os mesmos gostos!

- Parece milagre…

Depois de escutarem várias interpretações ao piano de Cecil Taylor, seguiram para um bar na Bleecker Street, onde os clientes bebiam, comiam pipocas, lançavam dardos e ouviam boa música interpretada por um pianista anónimo.

Mellis aceitou o desafio de um desconhecido para uma partida de dados e suplantou-o sem dificuldade. “É um homem que nasceu para vencer…”, pensou Alexandra.

Passava das duas da madrugada quando abandonaram o bar, e ela reconheceu com pesar que o serão se aproximava do fim.

No Rolls Royce com motorista que alugara, Mellis conservava -se silencioso, limitando-se a contemplar a companheira. A semelhança entre as duas irmãs era invulgar. “Gostava de saber se os corpos também se parecem tanto.” E imaginava Alexandra na cama com ele, contorcendo-se e uivando de dor.

- Em que pensa? - acabou ela por perguntar.

- Se lhe disser, ri-se - murmurou Mellis, desviando os olhos.

- Prometo que não.

- No fundo, não a censurava. Devo ser considerado uma espécie deplayboy.

Conhece o género: sempre metido em festas, passeios de iate, etc. - voltou a fitála.

- É a única mulher que podia modificar tudo isso. Para sempre.

- Não… não sei o que dizer - sussurrou Alexandra, sentindo as pulsações acelerarem-se.

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- Não diga nada, por favor.

Os seus lábios achavam -se muito próximos e ela estava preparada para o que se pudesse seguir. Todavia, ele não deixou transparecer a mínima intenção de passar à ofensiva, pois Eva advertira -o com veemência. “Não te aventures de mais, na primeira noite. Se o fizeres, convertes-te em mais um dos numerosos Romeus ansiosos por se apoderar de Alexandra e da fortuna. A iniciativa tem de partir dela.”

Por conseguinte, limitou-se a pegar-lhe na mão até que o carro se imobilizou com suavidade diante da mansão Black-well.