- Não estejas nervosa - sussurrou, principiando a despi-la.
Entretanto, conservava bem presentes as advertências de Eva. “Domina-te. Se a magoares e ela descobre o porco que és, não a voltas a ver. Reserva os punhos para as tuas prostitutas e rapazinhos bonitos.”
Nessa conformidade, terminou de a despir, desembaraçou-se por seu turno da roupa apressadamente e deitaram-se.
Os minutos que se seguiram foram verdadeiramente celestiais para Alexandra e um fardo quase insustentável para Mellis, o qual continha a custo o desejo de a obrigar a voltar-se para lhe introduzir o pénis no ânus.
Em todas as ligações amorosas há mal-entendidos, cenas de ciúme e pequenas desavenças, mas não no romance entre eles. Graças aos conselhos meticulosos de Eva, Mellis conseguia explorar todas as emoções de Alexandra da melhor maneira.
Havia determinadas áreas do corpo dela que lhe interessavam mais, mas necessita va de usar das maiores precauções. A altas horas da noite, visitava bares suspeitos e discotecas, onde se lhe deparavam viúvas famintas de amor, prostitutas ávidas de dinheiro e rapazes condescendentes, que conduzia a hotéis sombrios. Nunca praticava os se us actos sórdidos duas vezes no mesmo lugar, nem seria acolhido com satisfação, pois os seus parceiros sexuais costumavam aparecer inconscientes, com os corpos maltratados e por vezes cobertos de queimaduras de cigarro.
Mellis evitava os masochistas. Esses gozavam com a dor, o que o privava de sentir prazer. Ao invés, gostava de os ouvir gritar e implorar misericórdia, como fora obrigado a fazer pelo pai, em criança. O castigo pelas infracções mais insignificantes consistia em espancamentos que lhe provocavam a inconsciência.
Aos oito anos, o progenitor surpreendera-o com um garoto da vizinhança, ambos desnudos, e, depois de lhe bater até que o sangue lhe brotara do nariz e dos ouvidos, aproximara-lhe a ponta de um cigarro aceso do pénis. A queimadura sarara com o tempo, mas a cicatriz íntima perdurara.
George Mellis possuía a natureza selvagem e arrebatada dos seus antepassados helénicos. Não suportava a ideia de ser dominado por alguém, e sujeitava-se à pungente humilhação que Eva Blackwell lhe infligia apenas porque necessitava dela. Quando tivesse a fortuna em seu poder, tencionava castigá-la até que suplicasse que a matasse. Conhecê-la fora a ocorrência mais afortunada que se lhe poderia deparar. “Afortunada para mim”, cismava ele. “Para ela, foi infortunada.”
Alexandra nunca parava de se surpreender com a facilidade com que Mellis lhe adivinhava as preferências em matérias tão diferentes como flores, discos e livros.
Quando visitavam um museu, ele entusiasmava-se com as mesmas telas de que ela gostava. Por mais que se esforçasse em procurar-lhe um ponto fraco, um defeito, não conseguia. Era perfeito. O facto obrigava-a a ansiar cada vez mais pelo momento em que o apresentaria à avó. Não obstante, Mellis encontrava sempre um pretexto para se esquivar à confrontação.
- Mas estou certa de que gostarás dela, querido! - insistia. - Quero que conheça o homem que amo.
- Não duvido de que se trata de uma excelente senhora - argumentava ele -, mas receio que pense que não sirvo para ti.
- Que patetice! - a modéstia do amante enternecia-a. - A avó vai adorar-te!
- Em breve. Quando eu reunir a coragem suficiente.
Mellis discutiu o assunto com Eva, que reflectiu por uns momentos e decidiu:
- Está bem. De qualquer modo, o momento crucial é
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inevitável, mais cedo ou mais tarde. Mas presta a maior atenção às tuas palavras e gestos. Ela é uma cadela muito esperta. Não lhe subestimes as faculdades por um segundo que seja. Se desconfia de que te animam intenções materiais, retalha-te o coração e dá-o de comer aos cães.
- Porque precisamos dela?
- Porque, se fizeres alguma coisa que provoque o antagonismo entre as duas, estamos arrumados.
Alexandra nunca o vira tão nervoso como na noite em que se preparavam para jantar com Kate. Entretanto, rezava intimamente para que nada corresse mal, pois desejava, mais que qualquer outra coisa no mundo, que a avó e Mellis simpatizassem mutuamente.
Por seu turno, Kate nunca vira a neta tão feliz. Alexandra conhecera os jovens mais atraentes e abastados e jamais manifestara interesse por eles. Por conseguinte, impunha-se que observasse com atenção o homem que conseguira conquistar o coração da rapariga. Kate dispunha de um faro.especial para detectar caçadores de fortunas e estava firmemente decidida a evitar que a neta fosse apanhada pela rede de algum.
Ansiava conhecer George Mellis, porque tinha a vaga impressão de que ele sentia relutância em a enfrentar e gostava de descobrir o motivo.
Ouviu a campainha da porta e, no minuto seguinte, Alexandra entrou na sala, dando a mão a um desconhecido classicamente bem-parecido.
- Avó, apresento-te George Mellis.
- Até que enfim - disse Kate. - Começava a pensar que me evitava, Mister Mellis.
- Pelo contrário, Mistress Blackwell; nem imagina como aguardava este momento.
Ele preparava -se para acrescentar: “Ainda é mais bonita do que Alex dizia”, mas conteve-se. “Tem cautela. Nada de adulações, que são como uma bandeira vermelha para a velhota.”
Nesse momento, surgiu um empregado, que preparou bebidas e se retirou discretamente.
- Sente-se, Mister Mellis.
- Obrigado.
Alexandra instalou-se ao lado dele no sofá, diante da avó, enquanto esta prosseguia:
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- Sei que vocês se encontram com frequência. - Para profundo prazer meu.
- Minha neta diz que trabalha numa firma de corretagem - volveu, sem o perder de vista por um instante.
É exacto.
- Para ser franca, parece-me estranho que esteja empregado, quando podia dirigir uma empresa lucrativa.
- Já te expliquei, avó…
- Quero ouvi-lo dos lábios de Mister Mellis.
“Acima de tudo, sê delicado. Não a antagonizes. Se deixares transparecer o menor sinal de fraqueza, ela reduz-te a farripas.” - Não tenho o hábito de discutir a minha vida particular… - e ele hesitou, como se procurasse tomar uma decisão. - No entanto, dadas as circunstâncias… - encarou Kate com firmeza e continuou: - Sou um homem muito independente. Nunca aceito caridade. Se tivesse fundado a Mellis and Com-pany, dirigia-a com a maior satisfação. Mas o fundador foi o meu avô, que a converteu num negócio muito lucrativo para meu pai. A minha colaboração não é necessária. Meus três irmãos possuem competência suficiente para orientar as operações. Prefiro trabalhar por conta de outrem, até encontrar algo que possa construir e proporcionar-me orgulho.
Kate inclinou a cabeça com lentidão. O homem não correspondia de modo algum às suas previsões mais tenebrosas. Esperara que se lhe deparasse umplayboy, um caçador de fortunas daqueles que lhe perseguiam as netas desde a adolescência. O que se encontrava na sua frente parecia diferente. Não obstante, existia nele qualquer coisa de inquietante que não conseguia definir. Na realidade, era quase demasiado perfeito.
- Sei que a sua família é abastada - observou, após uma pausa.
“Basta que acredite que és podre de rico e amas Alex com loucura. Sê simpático.
Domina o temperamento turbulento, e podemos cantar vitória.” - O dinheiro representa uma necessidade, sem dúvida. Em todo o caso, há centenas de outras coisas que me interessam mais.
Kate informara-se acerca da situação da Mellis and Com-pany e, segundo o relatório da Dun Bradstreet, o seu activo excedia os trinta milhões de dólares.
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- Mantém relações estreitas com a família, Mister Mellis?
- Talvez de mais - e o semblante dele iluminou-se. - Segundo um velho adágio, quando um de nós se corta num dedo, todos sangramos. Mantemo-nos em contacto permanentemente.
Na verdade, havia mais de três anos que não trocava uma palavra com qualquer familiar.
- Sou partidária das famílias unidas - disse Kate, com um movimento de cabeça de aprovação.