Desviou os olhos para a neta e descortinou-lhe uma expressão de veneração no olhar. Por um instante fugaz, pensou nela própria e em David nos tempos remotos em que se amavam profundamente.
Interrompeu-lhe as reflexões momentâneas a entrada do mordomo, que anunciou:
- O jantar está pronto, Mistress Blackwell.
A conversa à mesa pareceu mais informal, mas as perguntas de Kate eram incisivas, e Mellis achava-se preparado para a mais importante, quando surgiu.
- Gosta de crianças? “Ela está desesperada por um neto… Deseja-o mais do que tudo o resto no mundo” - Se gosto de crianças? - e o interpelado exibiu um ar surpreendido. - Que é um homem sem filhos ou filhas? Quando casar, manterei a minha pobre esposa muito ocupada. Na Grécia, o valor de um indivíduo mede-se pelo número de descendentes.
“Parece sincero”, pensou Kate. “Mas todo o cuidado é pouco. Amanhã, incumbirei Brad Rogers de lhe investigar as finanças pessoais.”
Antes de se deitar, Alexandra telefonou à irmã, a quem prevenira da visita de George Mellis.
- Fico ansiosa por saber o que se passou - declarara Eva. - Liga para cá assim que ele sair. Quero um relatório minucioso.
E agora Alexandra informava!
- Penso que a avó gostou muito dele.
- Que disse? - insistiu a outra, experimentando umfris-son de triunfo.
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- Fez-lhe uma infinidade de perguntas, mas George portou-se admiravelmente.
“Então, sempre prestara atenção às recomendações dela.” - Vão casar?
- Bem, ele ainda não falou nisso, mas creio que o fará.
- Achas que a avó não se oporá?
- Estou quase certa disso. Vai investigar as finanças pessoais dele, mas por aí não haverá problema.
Eva sentiu um abalo inesperado, enquanto a irmã acrescentava:
- Sabes como ela gosta de tomar todas as precauções.
- É verdade - assentiu distraidamente. Estavam perdidos, a menos que lhe ocorresse uma solução sem demora. - Vai-me informando do que houver.
- Está descansada. Boa noite.
Pousou o auscultador e voltou a levantá-lo com prontidão, a fim de marcar o número de George Mellis, mas ainda não chegara a casa. Efectuou tentativas cada dez minutos, até que ele atendeu finalmente.
- Podes arranjar um milhão de dólares rapidamente? - perguntou ela.
- De que estás para aí a falar?
- Kate vai investigar as tuas finanças.
- Sabe o que a minha família possui.
- Refiro-me à tua pessoa e não à família.
Seguiu-se um silêncio momentâneo, até que Mellis articulou:
- Onde queres que vá buscar uma quantia dessas?
- Tenho uma ideia - murmurou Eva.
Quando entrou no seu gabinete, na manhã seguinte, Kate indicou à recepcionista:
- Diga a B rad Rogers que investigue as finanças pessoais de George Mellis, empregado na Hanson and Hanson.
- Mister Rogers teve de se ausentar da cidade e só regressa amanhã, Mistress Blackwell. Pode aguardar ou?…
- Não é sangria desatada. Fica para amanhã.
George Mellis encontrava -se sentado à sua secretária, nos escritórios da firma de corretagem Hanson and Hanson. A Bolsa achava-se em plena actividade e a vasta sala era um pandemónio de vozes. A sede contava com duzentos e vinte e
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cinco funcionários: corretores, analistas, contabilistas e representantes de clientes, os quais trabalhavam a uma velocidade febril. Excepto Mellis, petrificado na secretária, dominado pelo pânico. O que se preparava para fazer valer-lhe-ia longa permanência na prisão, se falhasse.
- Não atende o telefone?
Um dos sócios da firma surgira na sua frente e ele apercebeu-se de que a campainha tocava com insistência. Impunha-se que agisse com naturalidade e não fizesse coisa alguma susceptível de despertar suspeitas.
- George Mellis - proferiu para o bocal, ao mesmo tempo que dirigia um sorriso tranquilizador ao homem.
Passou o resto da manhã recebendo indicações para comprar e vender acções, mas o seu espírito concentrava-se no plano de Eva para roubar um milhão de dólares. “É muito simples, George. Basta apoderares-te de alguns certificados de títulos por uma noite. Poderás restituí-los de manhã, sem que alguém se aperceba”.
Todas as firmas de corretagem possuem acções e títulos no valor de milhões de dólares guardados em cofres-fortes, como uma medida de conveniência para os clientes. Alguns dos certificados de acções ostentam o nome do detentor, mas a esmagadora maioria contém um número em código da CMISU - Comissão dos Métodos de Identificação de Segurança Uniforme -, que identifica o proprietário.
Esses certificados não são negociáveis, mas George Mellis não pretendia trocálos pelo seu valor. Na Hanson and Hanson, as acções eram guardadas num cofre - forte situado no sétimo piso, numa área de segurança vigiada por um polícia armado diante de uma porta que só se podia abrir por meio de um rectângulo de acesso de plástico codificado. Ora, embora Mellis não possuísse um desses rectângulos, conhecia alguém que lho poderia “emprestar”.
Helen Thatcher era uma viúva solitária que já singrava na casa dos quarenta. No entanto, tinha feições atraentes e corpo razoavelmente torneado, além do que se podia considerar uma cozinheira excelente. Estivera casada vinte e três anos e a morte do marido deixara um vazio na sua vida. Por outras palavras, necessitava de um homem que lhe prestasse assistência. Todavia, o seu problema consistia em que a maioria dos que trabalhavam na Hanson and Hanson eram mais novos, pelo que ninguém a convidava para sair.
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() seu local de trabalho situava-se no departamento de contabilidade, no piso superior ao de George Mellis, que ela classificara como o melhor substituto para o extinto companheiro, desde a primeira vez que o vira. Convidara-o algumas vezes para um jantar caseiro e deixara transparecer que as suas atenções não se cingiriam ao campo da culinária, se ele estivesse interessado. Contudo, até agora, Mellis arranjara sempre uma desculpa para se esquivar às actividades de alcova com a colega.
Naquela manhã, quando o telefone tocou e Helen levantou o auscultador, escutou a voz que lhe provocava vibrações especiais.
- Fala George.
- Olá, George! Em que lhe posso ser últil?
- Tenho uma pequena surpresa para si. Pode chegar cá abaixo?
- Agora?
- Sim.
- É que estou a meio de…
- Se tem muito que fazer, fica para outra ocasião.
- Não, não. Desço já.
Ignorando o telefone, que voltou a tocar mal cortou a ligação, ele pegou num maço de papéis e encaminhou-se para o sector dos elevadores. Uma vez aí, olhou em volta, para se certificar de que ninguém o observava, e enveredou pela escada.
Quando alcançou o piso de cima, espreitou para verificar se Helen já saíra e entrou na sala, como se tivesse assuntos a tratar lá. Se o interceptassem… Mas não podia perder tempo a pensar nisso e apressou-se a abrir a gaveta do meio da secretária, onde sabia que ela guardava o ambicioso rectângulo de plástico. Fê-lo desaparecer na algibeira com prontidão e regressou apressadamente ao ponto de partida.
- Desculpe - proferiu, ao ver que Helen o esperava, como previra. - O chefe chamou-me para um assunto urgente.
- Não tem importância. Qual é a surpresa?
- Um passarinho segredou-me que faz anos hoje, e queria levá-la a almoçar.
- É muito gentil - e Mellis viu que ela travava breve luta íntima para decidir se devia ou não esclarecer que não era o dia do seu aniversário. - Aceito com o maior prazer.
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- Nesse caso, encontramo-nos no Tony's, à uma.
O convite podia perfeitamente ter sido formulado pelo telefone, mas Helen Thatcher estava demasiado excitada para se preocupar com semelhante pormenor.
Mellis entrou em acção no momento em que ela se afastou, pois tinha muito que fazer antes de repor o rectângulo de plástico no lugar donde o tirara. Meteu-se no elevador, até ao sétimo piso, e dirigiu-se à área de segurança, onde se encontrava o guarda diante da porta gradeada. Com a maior naturalidade, introduziu o rectângulo na ranhura e abriu. No instante em que entrava, o polícia observou: