- Não me recordo de o ver antes.
- É natural - e o coração de Mellis começou a palpitar mais depressa. - Não costumo frequentar estas paragens. Um dos meus clientes decidiu de repente que queria ver os seus certificados de acções e obrigou-me a vir buscá-los. Oxalá a operação não me tome toda a tarde.
- Felicidades - replicou o outro, com um sorriso.
O interior do cofre-forte era de betão armado e media dez metros por cinco. Sem hesitar, Mellis aproximou-se das gavetas à prova de fogo que continham as acções e abriu uma. O número de títulos que cada certificado representava achava-se inscrito na parte anterior e variava de um a cem mil. Ele esquadrinhouas com rapidez e eficiência, escolhendo várias, de diferentes companhias, até perfazer o valor de um milhão de dólares. Em seguida, guardou-as na algibeira interior do casaco e moveu-se para a saída.
- Afinal, foi rápido - comentou o guarda.
- Os computadores forneceram-me números errados. Vou ter de desfazer a confusão amanhã.
- Desconfio que os computadores atrapalham mais do que ajudam.
Quando regressou à sua secretária, Mellis descobriu que transpirava abundantemente. “Até aqui, tudo bem”, pensou, pegando no telefone, a fim de contactar Alexandra.
- Precisava de falar contigo e tua avó, esta noite, querida.
- Julgava que tinhas uma reunião de trabalho.
- Pois tinha, mas cancelei-a. O que pretendo comunicar-Lhes reveste-se da maior importância.
Às treze horas em ponto, ele voltava a colocar o rectângulo de plástico na gaveta da secretária de Helen Thatcher,
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enquanto esta aguardava no restaurante. Por sua vontade, tê-lo-ia conservado em seu poder, mas sabia que todos os que não fossem entregues no final de cada dia de trabalho perderiam a validade na manhã seguinte e o computador não os aceitaria. Às 13.10 horas, sentava-se à mesa do restaurante. A meio da refeição pegou na mão de Helen e murmurou:
- Havemos de fazer isto mais vezes. Está livre amanhã? - Sem dúvida, George!
Quando abandonou o escritório, naquela tarde, George Mellis levava consigo certificados de acções no valor de um milhão de dólares.
Apresentou-se na mansão Blackwell às sete exactas e o mordomo conduziu-o à sala, onde Kate e Alexandra o aguardavam.
- Boa noite - principiou. - Espero não vir incomodar, mas precisava de falar com ambas. - e voltando-se para Kate. - O meu gesto poderá parecer fora de moda, Mistress Blackwell, mas peço-lhe autorização para desposar sua neta. Amo Alexandra e creio que ela também me tem afecto. Apesar disso, gostaríamos de contar com a sua aprovação - levou a mão à algibeira do casaco, extraiu os certificados de acções e colocou-os em cima da mesa diante dela. - Ofereço-lhe um milhão de dólares como prenda de casamento. Assim, não necessitaremos do seu dinheiro. Apenas carecemos da sua bênção.
Kate baixou os olhos para os certificados e reconheceu os nomes de todas as companhias neles mencionados. Entretanto, Alexandra acercou-se de Mellis, devorando-o com os olhos brilhantes de alegria.
- Que dizes, avó?
Esta contemplou-os em silêncio por um momento e reconheceu que não se devia opor aos seus desígnios.
- Têm a minha bênção - declarou por fim, reflectindo que não podia deixar de os invejar.
Ele exibiu um sorriso cativante e aproximou-se dela.
- Permite-me? - perguntou, e beijou-a na face.
Durante as duas horas imediatas, trocaram impressões sobre o casamento, e Alexandra advertiu:
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- Não quero uma cerimónia pomposa, avó. Não concordas, George? i - Sem dúvida. O amor é um assunto privado. i Por último, decidiram que a união se realizaria na maior intimidade, presidida por um magistrado.
- Seu pai virá? - quis saber Kate.
- Ninguém o conseguiria impedir - afirmou Mellis. - Ele e os meus cinco irmãos e irmãs.
- Estou ansiosa por conhecê-los.
- Creio que gostarás deles.
Ela sentia-se impressionada com a situação e congratulava -se sobretudo pela visível felicidade da neta, que encontrara um homem profundamente apaixonado.
“Tenho de me lembrar de recomendar a Brad que já não precisa investigar as finanças do rapaz.”
Quando se preparava para sair, e numa altur-a em que Kate já recolhera ao quarto, Mellis observou com aparente naturalidade:
- Não me parece conveniente deixar aqui acções no valor de um milhão de dólares. Vou levá-las para o meu cofre, até ver.
- Boa ideia - aprovou Alexandra.
Assim, ele voltou a guardá-las na algibeira e retirou-se.
Na manhã seguinte, repetiu o processo com Helen Thatcher. Enquanto ela descia ao seu encontro (“Tenho uma coisa para si”), ele tornava a apoderar-se do rectângulo de plástico. Depois, ofereceu-lhe um cachecol de seda (“uma prenda de anos atrasada”), e confirmou o encontro para almoçar. Desta vez, o ingresso no cofre-forte pareceu mais fácil. Restituiu os certificados ao lugar primitivo, voltou a colocar o rectângulo de plástico na gaveta da secretária e reuniu-se a Helen num restaurante das proximidades.
- Porque não jantamos em minha casa, esta noite? - sugeriu ela, antes de se separarem.
- Receio que seja impossível. Vou casar.
Três dias depois do casamento, Mellis apresentou-se na mansão Blackwell, o rosto alterado por uma expressão de pesar.
- Acabo de receber uma notícia terrível. Meu pai sofreu novo ataque cardíaco.
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- Lastimo muito! - exclamou Kate. - Vai-se recompor?
Contactei a família pelo telefone, várias vezes, durante a noite. A conclusão a que se chegou é que se há-de restabelecer, mas não poderá assistir, ao casamento.
- Podíamos ir a Atenas na lua-de-mel e visitá-lo - aventou Alexandra.
- Tenho outros planos, matia mou - murmurou Mellis, acariciando-lhe a cabeça. - A família não intervém neles.
A cerimónia nupcial foi celebrada na ampla sala da mansão Blackwell, com a presença de cerca de uma dezena de convidados, entre os quais Vince Barnes, Alice Koppel e Marty Bergheimer. Alexandra suplicara à avó que permitisse a comparência de Eva, mas Kate mostrara-se intransigente.
- Tua irmã jamais será bem-vinda a esta casa.
- És cruel, avó - volveu a rapariga, de olhos húmidos. - Estimo as duas. Não lhe podes perdoar?
Por um instante, Kate sentiu-se tentada a esquecer a deslealdade da neta, mas conteve-se a tempo.
- Procedo como me parece melhor para todos.
Um fotógrafo registou o acontecimento para a posteridade, e ela ouviu Mellis recomendar ao homem que tirasse mais algumas cópias para enviar à família.
“Vê-se que sente profundo afecto pelos pais e pelos irmãos”, pensou com satisfação.
Após o tradicional corte do bolo, Mellis murmurou ao ouvido de Alexandra:
- Vou ter de me ausentar por um par de horas.
- Aconteceu alguma coisa?
- Que ideia! Simplesmente, a única maneira de convencer os meus c hefes a dispensarem-me para casar foi com a promessa de terminar um trabalho que deixei em suspenso. Regressarei muito a tempo de seguirmos no avião. Só parte às cinco, como sabes.
- Está bem, mas despacha-te, por favor - e ela esboçou um pálido sorriso. - Não quero ter uma lua-de-mel sem ti.
Quando ele entrou no apartamento de Eva, viu-a envolta num negligée translúcido.
- Divertiste-te muito no teu casamento, querido?
- Sim, obrigado. Foi uma cerimónia íntima, mas elegante. Decorreu tudo na perfeição.
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- Sabes porquê? Por minha causa. Nunca te esqueças disto Mellis olhou-a pensativamente por um momento e assentiu - Não te preocupes.