- Somos cúmplices até ao fim.
- Com certeza.
- Com que então estás casado com a minha irmãzinha!
- Pois estou, e tenho de regressar -: anunciou, consultando o relógio.
- Ainda não.
- Porquê?
- Porque primeiro vais fazer amor comigo. Quero fornicar com o meu cunhado.
Capítulo trigésimo Eva planeara a lua -de-mel minuciosamente e comentara:
- É dispendiosa, mas deves armar em mãos largas.
Para o efeito, vendeu três jóias oferecidas por um admirador ardente e entregou o dinheiro a Mellis, que se mostrou reconhecido.
- Agradeço-te a atenção.
- Hei-de recuperar tudo isso com largos juros.
A lua-de-mel atingiu quase a perfeição. Instalaram-se num hotel sobranceiro à baía Montego, na parte norte da Jamaica, de onde partiam para numerosas excursões. Alexandra fazia tudo o que lhe ocorria para agradar ao marido e congratulava-se profundamente quando o ouvia soltar gemidos de prazer no clímax das suas relações entre os lençóis.
No quinto dia, Mellis informou:
- Tenho de me deslocar a Kingston, para tratar de um assunto de serviço. A firma possui lá uma delegação, e pediram-me que fosse recolher uns documentos.
- Muito bem. Vou contigo.
- Era óptimo, querida, mas espero uma chamada da sede. Tens de ficar para tomar nota da mensagem.
- A telefonista não se pode encarregar disso? - argumentou ela, desapontada.
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- É um assunto importante e podia cometer algum erro.
- Nesse caso, que remédio - capitulou, com um suspiro..- Fico.
Mellis alugou um carro e seguiu para Kingston, onde chegou ao fim da tarde.
Assolava-o um desejo excruciante, acumulado ao longo de semanas, que necessitava de satisfazer com urgência. Assim, entrou no primeiro bar que avistou e trocou algumas palavras com o empregado atrás do balcão. Transcorridos cinco minutos, acompanhava uma prostituta negra de quinze anos a um hotel de má nota. Duas horas mais tarde, retirou-se só, subiu para o carro, e regressou à baía Montego, onde Alexandra lhe comunicou que ninguém telefonara.
Na manhã seguinte, os jornais de Kingston informavam que um turista espancara e mutilara uma prostituta, a qual se encontrava entre a vida e a morte.
Na Hanson and Hanson, os membros da direcção trocavam impressões sobre George Mellis, pois haviam-se registado queixas de vários clientes relacionadas com o modo como se ocupava dos seus títulos confiados à firma. Fora decidido despedi-lo, mas alguém levantou uma objecção importante:
- É casado com uma das netas de Kate Blackwell.
- Isso confere um aspecto novo à situação. Se conseguíssemos que ela nos confiasse parte das suas acções…
A avidez que pairava na atmosfera podia considerar-se quase palpá vel e acabou por ficar assente que George Mellis merecia que lhe concedessem uma segunda oportunidade.
Quando Alexandra e Mellis regressaram da lua-de-mel, Kate declarou:
- Gostava que passassem a viver comigo. A casa é enorme e não tropeçaríamos uns nos o utros.
- É uma grande gentileza de sua parte, Mistress Blackwell - redarguiu ele -, mas julgo preferível que nos instalemos num apartamento só nosso.
Ao mesmo tempo, reflectia que não fazia a mínima tenção de permanecer sob o mesmo tecto que a velha, a qua l, decerto, não perderia o ensejo de lhes vigiar todos os movimentos.
- Compreendo - aquiesceu Kate. - Nesse caso, deixem-me comprar-lhes uma casa. Será a minha prenda de casamento.
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- A sua generosidade não tem limites - asseverou Mellis, abraçando-a. - Aceitamos com gratidão.
- Obrigada, avó - interpôs Alexandra. - Procuraremos uma perto daqui.
- Exacto - volveu ele. - Queremos estar nas proximidades, para não a perder de vista. É uma mulher muito atraente, sabe!
Dias depois, descobriram uma casa de três pisos a meia dúzia de quarteirões da mansão Blackwell, e Mellis preveniu Alexandra:
- A decoração fica a teu cargo, porque estarei muito ocupado com clientes.
A verdade era que raramente comparecia no escritório e consagrava pouco tempo à clientela, pois preenchia os dias com assuntos mais interessantes. A Polícia recebia uma série de relatórios de assaltos a prostitutas, homossexuais e mulheres solitárias que frequentavam bares. As vítimas descreviam o misterioso indivíduo como sendo atraente e culto, de origem estrangeira, possivelmente latina. No entanto, aquelas que se achavam em condições de consultar as fotografias de cadastrados em poder das autoridades não conseguiam proporcionar uma identificação.
Eva e Mellis almoçavam num pequeno restaurante do centro da cidade, onde não corriam o risco de ser reconhecidos.
- Tens de convencer Alex a redigir um novo testamento, sem o conhecimento de Kate - indicou ela.
- Como diabo queres que consiga isso?
- Vou-te explicar, querido…
Na noite imediata, ele e ncontrou-se com Alexandra em Lê Plaisir, um dos locais mais requintados de Nova Iorque, onde apareceu com meia hora de atraso.
- Desculpa, anjo. Estive no escritório do meu advogado, e sabes como eles complicam as coisas mais simples.
- Que foste lá fazer?
- Decidi alterar o testamento. Se me acontecer alguma fatalidade, tudo o que possuo será teu.
- Não quero que…
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- É pouco, comparado com a fortuna Blackwell, mas chega para que vivas confortavelmente.
- Não fales nisso, por favor.
- Às vezes, o Destino prega-nos partidas inesperadas. Embora não seja agradável admiti-lo, convém estarmos preparados para semelhantes emergências.
Ela conservou-se silenciosa por um momento, imersa em reflexões, e perguntou:
- Não te parece que também devia alterar o meu?
- Para quê? - redarguiu Mellis, mostrando-se surpreendido.
- És o meu marido. Tudo o que tenho pertence-te.
- O teu dinheiro não me interessa, Alex.
- Acredito, querido, mas tens razão. Convém estarmos preparados - e os olhos de Alexandra marejaram-se. - Sinto-me tão feliz que não suporto a possibilidade de acontecer alguma coisa a qualquer de nós. Amanhã mesmo falarei com Brad Rogers.
- Se preferes assim - e ele encolheu os ombros num gesto de aparente indiferença. - No entanto, julgo conveniente que seja o meu advogado a tratar disso. Está familiarizado com a natureza dos meus bens e pode coordenar tudo.
- Pois sim. A avó pensa…
- Não a envolvamos nisto - propôs com ternura. - Adoro-a, mas penso que devemos manter os nossos assuntos pessoais só para nós.
- Tens razão, como sempre. Não lhe direi nada. Entendes-te com o advogado, para que me receba amanhã?
- Lembra-me para lhe telefonar. E, agora, vamos comer. Que dizes a uns mariscos, como começo?…
Uma semana mais tarde, Mellis procurou Eva no seu apartamento.
- Alex já assinou o novo testamento? - perguntou ela, com ansiedade.
- Esta manhã. Herda a sua parte da companhia dentro de oito dias, no aniversário.
Transcorrida mais uma semana, quarenta e nove por cento das acções da Kruger- Brent, Ltd., eram transferidos para Alexandra. Mellis telefonou a Eva para lhe comunicar a excelente notícia e ela exclamou:
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- Estupendo! Passa por cá logo, para celebrarmos.
- Não posso. Kate promove uma festa em honra de Alex. Seguiram-se uns segundos de silêncio, antes da pergunta de Eva:
- Que servem?
- Como diabo queres que saiba?
- Trata de averiguar - e cortou a ligação.
Quarenta e cinco minutos depois, Mellis voltou a contactá-la pelo telefone.
- Não percebo porque te interessa a ementa, uma vez que não foste convidada, mas compõe-se de Coquille Saint-Jac-ques, Chateaubriand, saladas de alface e mista, Brie, cap-puccino e um bolo de aniversário, com o gelado favorito de Alex.
Ficaste satisfeita?
- Muito. Até logo à noite.