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- Nem pensar. Não posso ausentar-me a meio da…

- Há-de ocorrer-te um pretexto - foi a advertência ameaçadora.

“Raios partam a cadela!” Ele pousou o auscultador e consultou o relógio. Tinha uma entrevista com um cliente importante, ao qual não comparecera por duas vezes num lapso de poucos dias, e atrasara-se de novo. Sabia que a direcção da Hanson and Hanson não o despedia unicamente em virtude do seu ingresso na família Blackwell, mas impunha-se que não agravasse demasiado a sua posição.

Criara uma imagem para impressionar Alexandra e Kate e impunha-se que nada a destruísse. Aliás, em breve deixaria de necessitar delas.

Enviara um convite ao pai, mas o velho nem se dera ao incómodo de responder ou enviar uma palavra de felicitações. “Não quero tornar a ver-te!”, afirmara no seu último encontro. “Para mim, morreste, ouviste? Morreste!” Pois, aguardava -o uma surpresa. O filho pródigo voltaria a dar sinais de vida.

A festa do vigésimo segundo aniversário de Alexandra constituiu um êxito extraordinário. Havia quarenta convidados, e enfrentara uma negativa quando sugerira ao marido que chamasse alguns dos seus amigos.

- A homenageada és tu, querida. Portanto, devem comparecer apenas as pessoas das tuas relações.

A realidade era que ele não tinha amigos, na sua qualidade

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de solitário, como gostava de se intitular. Aqueles que dependiam de outros não passavam de fracos. Quando viu Alexandra apagar as velas do bolo, compreendeu que formulava um desejo íntimo que o envolvia, e reflectiu: “Devias desejar antes uma vida mais longa, minha menina.” No fundo, era forçado a admitir que ela apresentava um aspecto deslumbrante. Usava um vestido de chiffon comprido, com sandálias prateadas e um colar de brilhantes, oferta da avó.

As pedras longas, em forma de pêra, achavam-se unidas por meio de um cordão de platina e refulgiam à luz das velas.

Kate contemplava-as e cismava: “Recordo-me do nosso primeiro aniversário, quando David mo colocou ao pescoço e murmurou como me amava.”

Mellis, por seu turno, pensava: “Aquele colar não deve valer menos de cento e cinquenta mil dólares!”

Entretanto, apercebia-se de que muitas das convidadas lhe sorriam convidativamente e, noutras circunstâncias, não hesitaria em tirar partido do facto.

Tratava-se, contudo, de amigas de Alexandra, que, conquanto talvez não se lhe fossem queixar, decerto recorreriam à Polícia. Não, as coisas desenrolavam-se com demasiada suavidade para que se expusesse a riscos desnecessários.

Quando faltava um minuto para a uma da madrugada, postou-se nas proximidades do telefone e, no momento que tocou, apressou-se a levantar o auscultador.

- Estou…

- Mister Mellis?

- O próprio.

- Fala do seu serviço informativo. Pediu que lhe telefonasse à uma.

Como Alexandra se achava perto, ele olhou-a, enrugando a fronte numa atitude de apreensão.

- A que horas ligou ele?

- É Mister Mellis?

- Sim.

- Pediu que…

- Está bem - assentiu, com resignação. - Diga-lhe que sigo já para o clube Pan Am Clipper - e cortou a ligação com um gesto de enfado.

- Que se passa, querido? - perguntou Alexandra.

- Um dos sócios da firma segue para Singapura e

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esqueceu-se de uns documentos importantes em cima da secretária. Tenho de os ir buscar e entregar-lhos, antes da partida do avião.

- Agora? Não podem mandar outro?

- Sou o único em quem confiam plenamente - e ele suspirou. - Até parece que todos os meus colegas são uma corja de incompetentes - e pousando-lhe as mãos nos ombros: - Lamento imenso, querida. Não estragues a festa por minha causa.

Prometo voltar o mais depressa possível.

Eva abriu a porta a Mellis e proferiu em tom de aprovação:

- Sempre conseguiste. Arranjas solução para tudo.

- Não me posso demorar. Alex…

- Tenho uma surpresa para ti.

Conduziu-o à pequena sala de jantar, cuja mesa se achava posta para dois, com velas no centro.

- A que propósito vem isto?

- É o meu aniversário.

- Claro - ele sentiu-se embaraçado. - Não me lembrei de te trazer uma prenda.

- Mas trouxeste, querido. Vais entregar-ma, mais tarde. Senta-te.

- Obrigado, mas não sou capaz de comer nada. Acabo de encher o estômago lá em casa.

- Senta-te - insistiu Eva, em inflexão átona.

Mellis olhou-a em silêncio, por um momento, e obedeceu. A refeição consistia exactamente nas mesmas iguarias das do aniversário de Alexandra, e ela sentouse diante do cúmplice, observando-o enquanto impelia a comida, estoicamente, para a garganta.

- Partilhámos sempre tudo - explicou Eva. - Esta noite, celebramos a mesma data, mas para o ano só uma de nós o fará. Chegou a altura de minha irmã sofrer um acidente. Depois, a avozinha morrerá de desgosto. Será tudo nosso, Geor-ge. E, agora, se saciaste o apetite, passemos ao quarto, para me dares a prenda de aniversário.

Ele receara aquele momento. Apesar de forte e vigoroso, ela dominava-o e fazia-o sentir-se impotente. Obrigou-o a despi-la com lentidão e depois retribuiu-lhe a gentileza, antes de o excitar com perícia, até provocar a erecção.

- Pronto - e encavalitando-se-lhe em cima, começou a

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mover os quadris com lentidão. - Que bom… Não podes ter um orgasmo, hem?

Sabes porquê? Porque és um anormal. Não gostas de mulheres. Só te apetece torturá -las. Adoravas maltratar-me, aposto. Dize que adoravas maltratar-me. - Adorava matar-te.

- Mas não podes, porque te interessa ficar com a Kruger-Brent tanto como a mim.

Nunca me farás mal, porque, se me acontecer alguma coisa, uma pessoa amiga entregará à Polícia uma carta que lhe confiei.

- Isso é bluff.

- Há uma maneira de te certificares.

De súbito, Mellis compreendeu que ela falava verdade. Nunca conseguiria fazê -la desaparecer da sua existência! Estaria sempre presente para o atormentar, escravizar. Não podia suportar a ideia de permanecer à mercê daquela cadela até ao fim dos seus dias. Inesperadamente, algo explodiu no seu íntimo. Uma película vermelha ofuscou-lhe a visão e a partir desse momento deixou de ter consciência do que fazia. Tudo se desenrolou como que ao retardador. Mais tarde, recordouse apenas de afastar Eva de cima dele, abrir-lhe as pernas e obrigá-la a soltar gritos de dor. Por fim, a película atenuou-se gradualmente e verificou que ela jazia na cama, coberta de sangue. Tinha o nariz esmagado, o corpo sulcado de escoriações e queimaduras de cigarro e as pálpebras inchadas.

Mellis sacudiu a cabeça para desanuviar o espírito e, no momento em que a realidade da situação se lhe apresentou com clareza, foi assolado por pânico intenso. Não existia explicação possível para o que acabava de fazer.

Comprometera tudo. Tudo!

- Eva? - proferi u receosamente, inclinando-se para ela.

- Médico… - balbuciou a rapariga, entreabrindo uma das pálpebras com dificuldade. - Chama… um… médico - cada palavra constituía uma gota de dor adicional. - John… Harley…

George Mellis limitou-se a pronunciar para o bocaclass="underline"

- Pode vir imediatamente? Eva Blackwell sofreu um acidente.

Quando entrou no quarto, o dr. Harley lançou uma olhadela a Eva, à cama e às paredes manchadas de sangue e balbuciou:

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- Meu Deus! - tomou-lhe o pulso e virou-se para Mellis. - Telefone à Polícia. Diga que precisamos de uma ambulância.

- Doutor… - sussurrou ela, por entre a névoa de dor.

- Vai ficar boa, não se preocupe - asseverou o médico, | debruçando-se sobre a cama. - Assim que der entrada no hospital…

- Polícia… não…

- Tenho de comunicar a ocorrência às autoridades.

- Polícia… não… - repetiu Eva, pegando-lhe na mão e segurando-a com firmeza.

- Não tente falar - recomendou ele, examinando o malar e o queixo fracturados e as queimaduras de cigarro dispersas pelo corpo.