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No entanto, mau grado as dores excruciantes, ela lutava pela vida.

- Por favor… Avó nunca… perdoaria… Polícia, não… Acidente… Atropelamento e fuga… condutor…

Não havia tempo para discutir, pelo que o dr. Harley se dirigiu ao telefone e discou um número. Quando atenderam, identificou-se, comunicou o endereço de Eva e acrescentou:

- Preciso de uma ambulância imediatamente. Localizem o doutor Keith Webster e peçam-lhe que me espere no hospital. Trata-se de uma emergência. Preparem a sala de operações para utilização imediata - escutou por uns instantes e concluiu:

- Atropelamento, com fuga do condutor - e pousou o auscultador.

- Obrigado, doutor - articulou Mellis.

Harley encarou-o com uma expressão de desdém. Apesar de se ter vestido apressadamente, o marido de Alexandra apresentava os nós dos dedos esfolados e as mãos e rosto com manchas de sangue.

- Não me agradeça. Faço-o pelos Blackwell. Mas com uma condição. Que você prometa consultar um psiquiatra.

- Não necessito de…

- Nesse caso, vou telefonar à Polícia - e o médico estendeu a mão para o aparelho. - Não pode andar à solta.

- Um momento! - Mellis hesitou, imerso em reflexões. Deitara tudo a perder, mas agora, miraculosamente, proporcionavam-lhe uma saída possível. - Está bem.

Procurarei um psiquiatra.

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O som de uma sereia de ambulância começou a ouvir-se ao longe.

Impeliam-na ao longo de um túnel e luzes coloridas brilhavam com intermitências.

Sentia o corpo leve e pensava: “Posso voar, se quiser.” Tentou mover os braços, mas uma força invisível opunha-se. Abriu os olhos e verificou que se encontrava numa maca, transportada por dois homens ao longo de um corredor branco. “Faço parte de uma peça da televisão, mas não me recordo do texto. Onde está o guião?” Quando tornou a descerrar as pálpebras, achava-se numa sala espaçosa, rodeada por vultos de bata branca e máscara.

- Chamo-me Keith Webster - informou um deles, inclinando-se para ela. - Vou operá-la.

- Não quero ficar feia - murmurou Eva, em tom quase inaudível. - Não me deixe ficar… feia.

- Nem por sombras - prometeu o cirurgião. - Agora, prepare -se para dormir.

Descontraia-se.

E fez sinal ao anestesista.

Mellis conseguiu lavar o sangue que o cobria, na casa de banho de Eva, mas soltou uma imprecação quando cons ultou o relógio e viu que eram três da madrugada. Acalentava a esperança de que Alexandra estivesse a dormir, mas descobriu que o aguardava na sala.

- Estava tão preocupada, querido! Houve algum contratempo?

- Não.

- Um pouco mais e telefonava à Polícia - e ela abraçou-o com ternura. - Receava que te tivesse acontecido alguma coisa horrível.

“E não te enganaste”, pensou ele.

- Levaste-lhe os documentos?

- Documentos? - perguntou, mas, de súbito, compreendeu ao que Alexandra se referia. - Levei, mas foi por um triz.

- Porque tardaste tanto?

- A partida do avião foi atrasada e ele reteve-me para trocarmos impressões.

Lastimo profundamente, querida.

- O essencial é não te ter acontecido nada.

Pensou em Eva, conduzida ao hospital, com várias fracturas,

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e ponderou no que sucederia se ela morresse. Prendiam-no por homicídio, sem dúvida. Por outro lado, todavia, se vivesse, tudo regressaria à situação anterior, e perdoar-Lhe-ia, porque necessitava dele.

Conservou-se acordado o resto da noite, evocando os grito s de Eva, quando lhe suplicara misericórdia. Voltou a sentir-lhe os ossos esmagando-se sob os seus punhos e a notar o odor de carne queimada, e nesse momento quase a amou.

Constituiu um facto afortunado o dr. Harley ter conseguido obter os serviços de Keith Webster, pois tratava-se de um dos maiores cirurgiões plásticos do mundo.

As pessoas que acudiam à sua clínica, em Manhattan, pagavam apenas aquilo de que podiam dispor, conscientes de que recebiam uma assistência igual à de qualquer milionário. Apesar de habituado a enfrentar vítimas de acidentes, ao observar o rosto desfigurado de Eva Blackwell não pôde evitar um estremecimento de horror.

- Quem é o responsável disto, John?

- Foi um caso de atropelamento, com fuga do condutor.

- E, antes de fugir, o homem deteve-se a decorar-lhe o corpo com queimaduras de cigarro? - redarguiu Webster com uma expressão de incredulidade.

- Preferia não discutir os pormenores. Pode restituir-lhe a forma primitiva?

- É essa a minha missão. Restituir a forma primitiva.

Era quase meio-dia quando o cirurgião anunciou finalmente aos seus assistentes:

- Chegámos ao fim. Levem-na para os cuidados intensivos. À mínima anormalidade, chamem-me.

A operação prolongara-se por nove horas.

Eva foi retirada dos cuidados intensivos quarenta e oito horas depois. Mellis não tardou a comparecer no hospital. Precisava de a ver, conversar com ela, para se certificar de que não planeava qualquer vingança terrível contra ele.

- Sou o advogado de Miss Blackwell - explicou à enfermeira de serviço. - Ela pediu-me que viesse. É só um momento.

- Não está autorizada a receber visitas - declarou a mulher.

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Mas observou aquele rapaz tão atraente e acrescentou: - Em todo o caso, não vejo inconveniente, desde que seja rápido.

Eva encontrava-se deitada de costas, envolta em ligaduras, com tubos presos ao corpo como excrescências obscenas. As únicas áreas visíveis eram os olhos e lábios.

- Olá, Eva…

- George… - a sua voz não passava de um vago murmúrio, obrigando-o a aproximar-se para ouvir. - Disseste… alguma coisa… a Alex?

- Claro que não - e Mellis sentou-se na borda da cama. - Vim porque…

- Eu sei… Continua tudo… como dantes.

- Lamento o que aconteceu - e experimentou um alívio indescritível. - Palavra de honra que…

- Manda algué m telefonar a Alex… Que lhe diga que me… ausentei por umas semanas.

- Está bem.

- Faz-me um favor… - volveu ela, olhando -o fixamente.

- Os que quiseres.

- Morre dolorosamente.

Pouco depois adormeceu. Quando acordou, o dr. Keith Webster encontrava-se à cabeceira da cama.

- Como se sente? - perguntou com brandura.

- Muito cansada… Que me encontraram?

Hesitou antes de responder. As radiografias haviam revelado numerosas fracturas, não só do rosto como por todo o corpo. Por fim, enumerou com simulado desprendimento:

- Fractura de um malar e do nariz e queixo deslocado, além de queimaduras de cigarro. Mas não se preocupe, porque compusemos tudo.

- Queria um espelho.

- Lamento, mas não há nenhum disponível.

Eva só formulou a interrogação seguinte graças a um prodigioso esforço de vontade.

- Que aspecto terei, quando me tirarem as ligaduras?

- O mesmo de antes do acidente.

- Não acredito.

- Verá. Agora, gostava que me descrevesse o que aconteceu. Tenho de enviar um relatório à Polícia.

- Fui atropelada por um camião - declarou, após um silêncio prolongado.

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O dr. Webster perguntava a si próprio como pudera alguém tentar destruir aquela frágil beldade, mas há muito que renun-' ciara a ponderar as aberrações da raça humana e a sua capacidade para a crueldade.

- Preciso de um nome - esclareceu. - Quem foi o autor?

- Mack.

- E o apelido.

- Truck.1 Ao mesmo tempo, sentia-se perplexo com a conspiração de silêncio. Primeiro John Harley, agora Eva Blackwell.

- Nos casos de assalto criminoso, a lei obriga-me a apresentar um relatório às autoridades.

Ela pegou-lhe na mão e apertou-a, antes de replicar:

- Se minha avó ou a minha irmã soubessem, morriam de desgosto. Se informar a polícia, os jornais publicarão a notícia.