- Não posso declarar que se trata de um caso de atropelamento, com fuga do condutor. As senhoras não costumam percorrer as ruas sem a mínima peça de vestuário.
- Por favor!
- Bem… - o cirurgião contemplou-a, tomado de profunda compaixão. - Pode ter escorregado e caído na escada de sua casa.
- Foi exactamente o que aconteceu - murmurou ela, com um pálido sorriso.
- Bem me parecia… - suspirou ele, encolhendo os ombros, resignado.
O dr. Webster passou a visitá-la diariamente, levando-lhe flores e pequenos presentes da loja existente no hospital, e Eva protestava com insistência:
- Passo os dias aqui deitada, sem me mexer. Como se explica que ninguém faça nada por mim?
- Tenho a minha colega a trabalhar em si.
- Qual colega?
- A Natureza. Debaixo dessas ligaduras assustadoras, está a recuperar admiravelmente.
' Camião.
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O médico era a sua única companhia e ela passou a ansiar pelas suas visitas.
Apercebia-se do acanhamento que o invadia na sua presença, o que a divertia.
- Nunca casou? - perguntou, um dia.
- Não.
- Porquê?
- Não sei. Talvez porque não daria um marido famoso. Chamam -me para emergências com regularidade.
- Mas deve ter uma amiguinha…
- Bem, a verdade… - desta vez, o doutor Webster deixou transparecer embaraço.
- Conte lá - insistiu ela, com uma ponta de malícia.
- Não, não tenho.
- Aposto que as enfermeiras estão loucas por si.
- Engana-se. Aliás, não sou uma pessoa muito romântica.
“Isso é modéstia”, pensou. Não obstante, sempre que aludia ao cirurgião diante das enfermeiras e internos, referiam-se-lhe como se fosse pouco menos que um deus.
- É um obreiro de milagres - afirmou um deles. - Não há nada que não consiga fazer num rosto humano.
Mencionou a sua obra junto das crianças e de criminosos deformados, mas quando Eva solicitou informações mais pormenorizadas a Webster, este limitou-se a observar:
- Infelizmente, o mundo avalia as pessoas pelo seu aspecto. Tento valer àquelas que nasceram com deficiências físicas. Isso pode provocar alterações radicais nas suas vidas.
Ela sentia-se profundamente intrigada. Era óbvio que ele não agia assim com os olhos postos no dinheiro ou glória. Podia considerar-se um altruísta absoluto.
Nunca conhecera um homem assim, e perguntava a si própria o que o motivaria.
Todavia, tratava-se de uma curiosidade ociosa, pois não acalentava o menor interesse por Keith Webster, além daquilo que podia fazer por ela.
Quinze dias depois de dar entrada no hospital, Eva foi transferida para uma clínica particular nos arredores de Nova Iorque.
- Estará mais confortável - assegurou-lhe o cirurgião.
Ela sabia que o local ficava muito afastado do percurso habitual dele, apesar do que a visitava todos os dias.
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- Não tem outros pacientes?
- Como você, não. acabou por perguntar.
Cinco semanas após o ingresso na clínica, o dr. Webster retirou as ligaduras e, depois de mover a cabeça de Eva para ambos os lados, inquiriu:
- Sente alguma dor?
- Não.
- E tensão?
- Tão-pouco.
- Traga um espelho - indicou à enfermeira.
Eva foi assolada por um pavor irresistível. Ao longo de semanas aparentemente intermináveis, desejara ver-se ao espelho e agora, que chegara o momento, hesitava.
- Tenho medo - confessou, quando o cirurgião lho estendeu.
- Encha-se de coragem - foi a recomendação ambígua. Ela respirou fundo e ergueu o espelho à altura do rosto.
Dera-se um milagre! O semblante não sofrera a mínima alteração. Era exactamente o mesmo. Procurou, em vão, sinais de cicatrizes. Por fim, sentiu os olhos humedecerem-se-lhe.
- Obrigada - sussurrou.
Inclinou a cabeça para dar um beijo no dr. Webster, mas notou os lábios famintos pousados nos seus.
No entanto, ele endireitou-se com prontidão, mais embaraçado do que nunca.
- Alegra-me que esteja satisfeita.
- Satisfeita! O seu pessoal tem razão. É um obreiro de milagres.
- Não esqueça que o material era excelente.
Capítulo trigésimo primeiro George Mellis ficara profundamente abalado com o sucedido. Na verdade, estivera prestes a destruir tudo o que ambicionava. Até então não se apercebera do que significava para ele assumir o comando da Kruger-Brent, Ltd. Contentara -se em viver de ofertas de damas solitárias, mas agora casara com
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uma Blackwell e achava-se na iminência de possuir uma empresa muito mais importante e poderosa do que o pai jamais concebera. Tudo se convertera subitamente numa aspiração irreversível, pela qual não hesitaria em matar.
Entretanto, empenhava -se em criar a imagem do marido perfeito, passando todo o tempo possível ao lado de Alexandra. Tomavam o pequeno-almoço juntos, levava - a a almoçar fora e esforçava-se por chegar cedo a casa, todas as noites. Nos fins - de-semana, dirigiam-se à casa de praia que Kate Blackwell possuía em Long Island ou seguiam para Dark Harbor no Cessna 620 da companhia. Na realidade, Cedar Hill era o lugar favorito dele e, enquanto percorria as amplas salas e admirava as antiguidades e as telas valiosas, reflectia que em breve tudo aquilo lhe pertenceria.
Também se revelava respeitador e admirador da avó de Alexandra, que completara oitenta e um anos, era presidente da administração de Kruger-Brent, Ltd., e continuava possuidora de notável vitalidade. Mellis providenciava para que ambas almoçassem com ele uma vez por semana, e telefonava à anciã com frequência, para trocarem impressões sobre temas banais. Criava assim uma imagem que esperava vir-lhe a ser extremamente útil.
Ninguém suspeitaria de que tencionava assassinar duas pessoas que lhe eram tão queridas.
A satisfação que o assolava nas últimas semanas foi abalada abruptamente por um telefonema do dr. John Harley:
- Está tudo preparado para a sua visita ao psiquiatra, o doutor Peter Templeton.
- Já não é necessário, doutor - Mellis procurou incutir à voz um tom amável e insinuante. - Penso…
- Estou-me nas tintas para o que você pensa. Estabelecemos um acordo: não o denuncio à Polícia, se consultar um psiquiatra. Se pretende faltar ao prometido…
- De modo algum - apressou-se a afirmar. - Se insiste, não me oponho.
- O número do telefone do doutor Templeton é cinco-cin-co-cinco-três-um-seis-um.
Ele espera a sua chamada. Hoje - e o dr. Harley cortou a ligação bruscamente.
“O maldito intrometido”, reflectiu Mellis, enfurecido. A última coisa que lhe interessava e convinha no mundo era
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perder tempo com um psiquiatra, mas não se podia arriscar a que Harley falasse.
Telefonaria a Templeton, procurá-lo-ia uma ou duas vezes e não voltaria a aparecer-lhe.
Eva telefonou a Mellis para o escritório.
- Estou em casa.
- Ficaste… bem? - perguntou ele, receosamente.
- Vem ver. Esta noite.
- Vai ser difícil ausentar-me. Eu e Alex…
- Às oito.
Mellis encontrava dificuldade em acreditar no que se lhe deparava. Eva achava -se na sua frente, tão bonita e atraente como sempre. Por mais que lhe examinasse o rosto, não descobria o mínimo vestígio dos maus tratos que lhe infligira.
- É incrível! - acabou por exclamar. - Estás exactamente na mesma.
- Sim, continuo bela, hem?
Ela exibia um sorriso malicioso, provocado pela evocação do que lhe preparava.
Era um animal doente, que não merecia viver. Pagaria com juros o que lhe fizera, mas não por enquanto. Ainda necessitava dele.
- Não tenho palavras para exprimir o pesar…
- Deixemos isso. São coisas do passado. Nada se modificou.
Nesse momento, Mellis recordou-se de que algo se modificara e anunciou:
- Recebi um telefonema de Harley. Tomou providências para que eu procurasse um psiquiatra qualquer.