- Diz que não tens tempo.
- Foi o que fiz, mas ameaçou-me com a Polícia.
- Gaita! - Eva fez uma pausa, imersa em reflexões. - Quem é ele?
- O psiquiatra? Chama-se Peter Templeton, salvo erro.
- Conheço-o de nome. Goza de boa reputação.
- Não te preocupes. Posso deitar-me no sofá durante quinze minutos sem revelar coisa alguma.
Todavia, ela não o escutava, pois acabava de lhe acudir uma ideia.
- Talvez seja o melhor que nos podia acontecer - articulou pausadamente.
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Peter Templeton, de trinta e cinco anos, media mais de um metro e oitenta de altura, com ombros largos, fisionomia granítica e olhos azuis perscrutadores que o faziam parecer mais um avançado-centro do tipo aríete do que um médico.
Naquele momento, enrugava a fronte para a anotação na agenda: “George Mellis.
Marido da neta de Kate Blackwell.”
Os problemas dos ricos não lhe suscitavam o menor interesse, embora a maioria dos seus colegas ficassem encantados com os pacientes socialmente proeminentes. Quando iniciara a carreira, Templeton enfrentara uma percentagem apreciável daquela fauna, mas em breve descobrira que não conseguia simpatizar com os temas que lhe apresentavam. Tivera no seu consultório viúvas abastadas desvairadas porque não as haviam convidado para determinado evento social, financeiros empenhados em pôr termo à vida porque tinham perdido dinheiro da Bolsa, etc. O mundo estava cheio de problemas, e ele decidira há muito que não eram esses que lhe interessavam.
George Mellis. Templeton acedera em o receber apenas em virtude do respeito que o dr. John Harley lhe merecia.
- Preferia que o mandasse a outro, John - objectara. - Tenho uma agenda sobrecarregada.
- É um favor que me faz, Peter.
- Qual é o problema?
- Espero que você o determine. Não passo de um médico de aldeia.
- Está bem. Vejamos quando há -de ser…
E agora encontrava-se na sala de espera. Com um suspiro de resignação, premiu o botão do intercomunicador e indicou:
- Diga a Mister Mellis que entre.
O psiquiatra vira fotografias do paciente em jornais e revistas, mas apesar disso não se achava preparado para a vitalidade esmagadora que irradiava e conferia um aspecto novo ao termo “carisma”.
- Queira sentar-se, Mister Mellis - convidou, depois de apertarem a mão.
- Ali? - perguntou o recém-chegado, apontando para o sofá.
- Onde se sentir mais confortável.
Mellis optou pela cadeira diante da secretá ria e exibiu um sorriso. Pensava que ficaria perturbado com a situação, mas
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Eva preparara-o devidamente. Na realidade, o dr. Templeton seria o seu aliado, a sua testemunha.
Entretanto, este último observava-o com curiosidade. Os pacientes que o procuravam pela primeira vez costumavam deixar transparecer nervosismo, que uns tentavam encobrir com bravatas e outros com uma atitude defensiva ou um mutismo persistente. Ora, não detectava qualquer indício de semelhante natureza no homem sentado na sua frente. Ao invés, parecia satisfeito consigo próprio.
- O doutor Harley falou-me num problema.
- Receio que sejam dois - articulou Mellis, com um suspiro.
- Importa-se de mós descrever?
- Confesso que me sinto embaraçado. Foi por isso que insisti em consultá-lo - inclinou-se para a frente e acrescentou com uma expressão grave: - Fiz uma coisa que nunca tinha feito na minha vida. Bati numa mulher - e calou-se por um momento, mas o psiquiatra conservou-se silencioso, na expectativa. - No meio de uma discussão, foi como se mergulhasse num poço escuro. Quando voltei à realidade, descobri que a tinha agredido - meneou a cabeça, acabrunhado: - Bati numa mulher!
Templeton julgou ter descoberto em que consistia o problema de George Mellis.
Sentia prazer em espancar mulhe res.
- Foi em sua esposa que bateu?
- Não, na minha cunhada.
Recordava-se de ler alusões às gémeas Blackwell nos ecos da sociedade dos jornais, por vezes acompanhadas de fotografias. Na verdade, eram idênticas e particularmente atraentes. Com que então, aquele homem agredira a cunhada! O facto afigurava -se-lhe razoavelmente interessante. Também considerava digna de interesse a circunstância de ele falar como se se tivesse limitado a aplicar-lhe um ou dois tabefes. Se fosse esse o caso, John Harley não insistiria em que o recebesse.
- Magoou-a?
- Sim, muito. Como referi, doutor, pareceu-me que mergulhava num poço escuro.
Quando voltei a mim, não acreditei no que via.
“Quando voltei a mim. A defesa clássica. Foi o meu subconsciente o responsável e não eu.” - Faz alguma ideia do que provocou essa reacção?
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- Ultimamente, tenho estado sob uma tensão horrível. Meu pai sofreu vários ataques cardíacos consecutivos, que me abalaram. Somos uma família muito unida.
- Seu pai encontra -se nos Estados Unidos?
- Não, na Grécia. ›‹Ah, é esse Mellis!” - Falou em dois problemas.
- Pois. O outro é Alexandra, minha mulher…
- Têm dificuldades maritais?
- Não no sentido que pensa. Amamo-nos profundamente, mas… - Mellis hesitou. - Ela não tem passado bem nos últimos tempos.
- Fisicamente?
- Emocionalmente. Está deprimida quase sempre e fala em se suicidar.
- Consultou um psiquiatra?
- Não quer - murmurou, com um sorriso amargurado. “É pena”, pensou Templeton.
“Impede um médico de clientes ricos de ganhar uma fortuna.” - Discutiu o assunto com o doutor Harley?
- Não.
- Como é o médico assistente da família, sugiro que o faça. Se lhe parecer necessário, ele recomendará um psiquiatra.
- Não quero que Alexandra fique com a impressão de que falo dela nas suas costas.
- Isso é o menos. Eu próprio telefonarei ao meu colega.
- Estamos tramados, Eva! - bradou Mellis.
- Que aconteceu?
- Fiz exactamente o que me indicaste. Disse que me preocupava com a possibilidade de Alexandra manifestar propensão para o suicídio.
- E então?
- O filho da mãe vai contactar com Harley, para discutirem o assunto!
- Diabo! Não podemos permitir que isso aconteça - ela começou a mover-se em excitado vaivém, até que se imobilizou repentinamente. Harley fica por minha conta. Tens de voltar ao cons ultório de Templeton?
- Sim.
- Nesse caso, não faltes.
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Na manhã seguinte, Eva procurou o dr. Harley. Este manifestava simpatia especial pela família Blackwell. Assistira ao crescimento das crianças, à tragédia da morte de Marianne, à| tentativa de homicídio perpetrada sobre Kate e ao internamento; de Tony numa clínica de alienados. Na realidade, Kate atravessara numerosas atribulações, a menor das quais decerto não fora a que culminara com a expulsão de Eva. Não fazia a mínima ideia do que a motivara, mas não era de sua conta. A sua missão consistia em manter a família fisicamente saudável.
Quando a rapariga entrou no consultório, Harley contemplou-a com admiração e declarou:
- Keith Webster executou um trabalho fantástico.
Com efeito, o único vestígio limitava-se a uma minúscula cicatriz na fronte, quase invisível.
- Ele prometeu fazer desaparecer esta marca dentro de cerca de um mês - explicou ela.
- Serve para a tornar mais bonita - o médico indicou uma cadeira. - Em que lhe posso ser útil?
- Não venho por minha causa. Trata-se de Alex.
- Tem algum problema? - estranhou, arqueando as sobrancelhas. - Relaciona-se com o marido?
- De modo algum! - apressou-se Eva a replicar. - Ele comporta-se sem margem para reparos. Na realidade, é o contrário. George preocupa-se com ela. Minha irmã procede de forma estranha, ultimamente. Está muito deprimida. Até revela tendências suicidas.
- Custa-me a crer. Isso não parece próprio de Alexandra.
- Pois não. Também não acreditei e fui vê -la. Confesso que fiquei chocada com o que se me deparou. Encontra-se de facto num estado de profunda depressão.