Estou preocupadíssima, doutor. Como não posso avistar-me com a avó, pelas razões que conhece, vim ter consigo. Precisa de fazer alguma coisa - e os olhos enevoaram-se-lhe. - Perdi minha avó e não queria ficar também sem minha irmã.
- Há quanto tempo dura isso?
- Não sei ao certo. Começou por recusar, quando sugeri que o procurasse, mas finalmente convenci-a. Tem de a ajudar, doutor.
- Sem dúvida. Diga-lhe que venha amanhã. E não se apoquente, Eva. Há medicamentos novos que produzem milagres.
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Harley acompanhou a rapariga à porta, reflectindo que Kate não perderia nada em se mostrar um pouco menos irredutível, pois Eva necessitava de carinho.
Quando regressou ao apartamento, Eva dissimulou meticulosamente a cicatriz na fronte com um creme especial.
Às dez horas da manhã seguinte, a recepcionista do dr. Harley anunciou:
- Está aqui Mistress Mellis, doutor.
- Mande-a entrar.
Ela surgiu em passos lentos e incertos, como se não estivesse totalmente decidida a sujeitar-se ao que se seguiria. Além disso, apresentava palidez intensa e círculos violáceos em torno dos olhos.
- Tenho muito gosto em vê-la, Alexandra - e o médico estendeu-lhe a mão. - Que história é essa de problemas que a afligem?
- Sinto -me embaraçada por o incomodar, doutor - a voz dela era quase inaudível. - Estou certa de que não tenho nada, e se Eva não insistisse, não vinha. Estou óptima, do ponto de vista físico.
- E emocionalmente?
- Bem… - hesitou. - Não durmo muito bem.
- Que mais?
- Vai julgar-me hipocondríaca…
- Conheço-a o suficiente para não pensar isso.
- Sinto -me constantemente deprimida. Uma espécie de ansiedade e… cansaço.
George excede-se nos seus esforços para me fazer feliz, mas não me apetece nada do que sugere. Parece-me tudo tão… desesperado.
- Mais alguma coisa? - perguntou ele, que a escutava com a máxima atenção e observava pensativamente.
- Chego a admitir a hipótese de… pôr termo à vida. Estarei a enlouquecer?
- Não. Alguma vez ouviu falar em anedonia? - fez uma pausa, enquanto ela abanava a cabeça. - É uma perturbação biológica que apresenta os sintomas que acaba de descrever. Declara -se com frequência, mas existem drogas novas que facilitam o tratamento. Não têm e feitos secundários e são eficientes.
Vou examiná-la, para descargo de
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consciência, pois estou certo de que não lhe encontrarei nada de anormal.
No final do exame, declarou:
- Vou receitar-lhe Wellbuírin. Pertence à nova geração de antidepressivos, uma das novas drogas miraculosas que mencionei - tornou a sentar-se à secretária e começou a escrever, enquanto ela se vestia. - Volte cá dentro de uma semana.
Entretanto, se surgir algum problema, telefone -me, dia ou noite - advertiu, entregando-lhe a receita.
- Obrigada, doutor. Oxalá que isto produza efeito para terminar com o sonho.
- Qual sonho?
- Ah, é verdade, não cheguei a dizer-lhe. Sonho a mesma coisa, todas as noites.
Estou num navio, faz muito vento e oiço o mar chamar-me. Aproximo-me da amurada, olho para baixo e vejo -me na água, a afogar…
Ela abandonou o consultório e, uma vez na rua, encostou-se à parede, aliviada, respirando fundo. “Consegui”, reflectiu, exultante. “Safei-me, como esperava.
Tomou-me por Alexandra.” E rasgou a receita.
Capítulo trigésimo segundo Kate Blackwell sentia-se cansada. A reunião prolongara-se demasiado. Com um suspiro, volveu o olhar para os três homens e as três mulheres em torno da mesa de conferências da sala da administração, os quais pareciam descontraídos. “Não foi a reunião que se prolongou demasiado. Eu é que duro demasiado. Vou fazer oitenta e dois anos. Estou a ficar velha.” A ideia deprimia-a, não porque receasse a morte, mas em virtude de considerar que ainda não chegara o momento conveniente. Recusava-se a morrer até que a Kruger-Brent tivesse um membro da família Blackwell à testa dos seus destinos. Após o desapontamento amargo com Eva, esforçara -se por construir os projectos para o futuro em volta de Alexandra.
“- Sabes que faria tudo por ti, avó, mas não estou
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interessada em me envolver na companhia. George será um óptimo dirigente…” - Concorda, Rate? - perguntou Brad Rogers.
- O quê? - ela emergiu dos devaneios. - Desculpe.
Importa-se de repetir?
- Discutíamos a fusão com a Deleco - explicou ele, pacientemente.
Na realidade, sentia-se preocupado com Kate Blackwell, que, nos últimos meses, se alheava do que a rodeava nas reuniões da administração. No entanto, quando Brad principiava a admitir que se tratava de sintomas de senilidade, ela surgia repentinamente com uma sugestão que deixava todos boquiabertos por não lhes haver ocorrido. Sim, era uma mulher surpreendente. Ele evocou por momentos a breve ligação do passado e perguntou a si próprio porque teria terminado tão abruptamente.
Na segunda visita de George Mellis a Peter Templeton, este inquiriu:
- Houve muita violência no seu passado?
- Não - e o interpelado sacudiu a cabeça com veemência. - Detesto-a.
“Toma nota disto, filho da mãe, pois o médico legista há-de interrogar-te nesse sentido.” - Disse que seus pais nunca o castigavam fisicamente.
- É exacto.
- Pensa que foi um filho obediente? “Cuidado. A pergunta encerra ratoeira.” - Como a média, suponho.
- A criança média costuma ser castigada, numa ou noutra ocasião, por infringir regras do mundo dos adultos.
- Creio que não infringi nenhuma - articulou Mellis, com um sorriso.
“Mente”, ponderou o psiquiatra. “Resta saber porquê. Que encobrirá?” Ao mesmo tempo, recordava-se da conversa que tivera com o dr. Harley, após a primeira sessão com Mellis.
“- Confessou que tinha batido na cunhada e…
“- Batido! - a voz de Harley achava-se dominada pela indignação. - Foi uma autêntica carnificina. Esmagou-lhe um dos malares, fracturou-lhe o nariz e três costelas e sulcou o corpo de queimaduras de cigarro.
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“- Não me referiu isso - murmurou Templeton, assolado por uma onda de repugnância.
“- Acredito. Adverti-o de que, se não o procurasse, o denunciava à Polícia.”
Recordou as palavras de Mellis: “Confesso que me sinto embaraçado. Foi por isso que insisti em consultá-lo.”
“- Disse que a mulher sofre de depressão e fala em se suicidar.
“- Sim, posso confirmá-lo. Alexandra apareceu no consultório, há dias, e receitei lhe Wellbutrin. Fiquei muito preocupado com ela. Qual é a sua impressão acerca de George Mellis? “- Ainda não sei ao certo, mas pressinto que é perigoso.”
O dr. Keith Webster não conseguia afastar Eva Blackwell do pensamento. Era como uma deusa de beleza deslumbrante, irreal e intangível. Ele não casara porque nunca encontrara uma mulher que lhe parecesse suficientemente desinteressante para unir o destino a um sensaborão. Criara-se sob a influência de uma mãe dominadora e de um pai sem personalidade. Os seus impulsos sexuais podiam considerar-se modestos e os que existiam eram sublimados pelo seu trabalho. Agora, porém, começava a sonhar com Eva Blackwell, e quando, de manhã, recordava as fantasias que o haviam invadido durante o sono, sentia-se embaraçado. Embora ela estivesse completamente curada e não se justificasse que a visse, necessitava de a procurar.
Por fim, vencendo longas hesitações, ligou para o apartamento dela.
- Eva? Fala Keith Webster. Desculpe incomodá-la, mas o outro dia lembrei-me de si e resolvi indagar como se encontrava.
- Bem, obrigada. E você? - havia uma ponta de pro vocação na pergunta.
- Bem, bem - seguiu-se um silêncio, durante o qual ele tentou reunir coragem. - Provavelmente está muito ocupada para almoçar comigo.