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Eva esboçou um sorriso malicioso e reflectiu que resultaria divertido encontrar-se com um homem tão tímido.

- De modo algum. Quando?

- Pode ser amanhã?

- Combinado.

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Eva apreciou Devidamente o almoço. O dr. Keith Webster comportava-se como um colegial apaixonado. Deixou cair o guardanapo, verteu o vinho do copo e derrubou as flores no centro da mesa. Ao observá -lo, cogitava: “Ninguém diria que se trata de um brilhante cirurgião.”

Quando acabaram de comer, ele aventurou receosamente:

- Podemos repetir isto, um dia?

- É melhor não - replicou Eva, com uma expressão grave. - Receio vir a apaixonarme por si - e vendo-o corar, sem saber o que dizer, acrescentou: - Nunca o esquecerei.

Webster voltou a derrubar as flores.

John Harley almoçava no refeitório do hospital, quando Keith Webster se lhe reuniu.

- Prometi guardar segredo, mas dormia mais descansado se me explicasse o que aconteceu a Eva Blackwell.

Harley hesitou por um momento e acabou por encolher os ombros.

- Muito bem. Foi o cunhado, George Mellis.

E o cirurgião. sentiu que passava a compartilhar de uma faceta do mundo secreto da rapariga.

George Mellis principiava a impacientar-se.

- O testamento foi alterado. De que diabo estamos à espera? Eva se ntava-se no sofá, as longas pernas dobradas sob o corpo, enquanto ele passeava pela sala.

“Começa a perder a coragem…” Lembrava -lhe uma serpente venenosa, prestes a lançar-se sobre a vítima de entre o matagal. Ela cometera uma imprudência com ele, uma ve z, ao provocá-lo demasiado, o que estivera prestes a custar-lhe a vida.

O erro não se repetiria.

- Concordo - declarou finalmente. - Penso que chegou o momento.

- Quando? - inquiriu Mellis, estacando.

- Na próxima semana.

A sessão achava-se quase no termo e George Mellis não mencionara a esposa uma única vez. De súbito, porém, disse:

- Estou preocupado com Alexandra, doutor Templeton. As depressões parecem agravar-se. A noite passada, falou em afogamento. Confesso que não sei o que fazer.

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- Falei com o doutor Harley. Receitou-lhe determinado medicamento que a deve aliviar.

- Oxalá que sim - e Mellis exalou um suspiro. - Se lhe acontecesse alguma coisa, não resistia..

E o psiquiatra, o ouvido sintonizado para as palavras não proferidas, teve a estranha sensação de que presenciava uma charada. Havia uma violência mortal naquele homem.

- Como descreveria as suas relações com as mulheres?

- Normais.

- Nunca se irritou com nenhuma?

- Não - asseverou Mellis, consciente do rumo visado. “Não me levas com essa, rapaz”. - Como lhe referi, detesto a violência.

“Foi uma autêntica carnificina. Esmagou-lhe um dos malares, fracturou-lhe o nariz e três costelas e sulcou o corpo de queimaduras de cigarro.” - Às vezes, para certas pessoas, a violência proporciona uma válvula de escape necessária - observou Templeton. - Uma evasão emocional.

- Compreendo ao que se refere. Tenho um amigo que gosta de espancar prostitutas.

“Tenho um amigo”. Um sinal alarmante.

- Fale-me dele.

- Odeia-as. Por conseguinte, após o… serviço, aplica-Lhes uns tabefes, só para lhes dar uma lição - não detectando qualquer sinal de reprovação no semblante do psiquiatra, Mellis prosseguiu: - Recordo-me de uma ocasião em que visitámos a Jamaica juntos. Uma prostituta levou-o a um hotel e, depois de se despir, disse que queria mais dinheiro - exibiu um sorriso divertido. - O meu amigo arreou-lhe a valer. Aposto que ela não se mete noutra tão cedo.

“É psicopata!”, decidiu Templeton. Não existia amigo algum, evidentemente.

Vangloriava-se de actos praticados por ele próprio e ocultava-se atrás de um alter ego. Tratava-se, sem margem para dúvidas, de um megalomaníaco, e dos perigosos.

Por fim, decidiu que se impunha nova conversa com John Harley, o mais depressa possível.

Os dois médicos encontraram-se para almoçar no Clube Harvard. Peter Templeton achava-se numa situação difícil.

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precisava de obter toda a informação que pudesse sobre George Mellis, sem infringir o código de sigilo médico-paciente.

- Que me pode dizer da mulher de Mellis? - principiou.

- Alexandra? É encantadora. Cuido dela e da irmã, Eva, desde garotas - e soltou uma risada seca. - São as minhas únicas clientes gémeas.

- Idênticas?

- Ninguém consegue distingui-las. Quando miúdas, divertiam-se a pregar toda a espécie de partidas. Lembro-me de que, numa ocasião em que Eva precisava de uma injecção, quem a levou foi Alexandra. Agora que cresceram, continuo a não as diferenciar.

O psiquiatra reflectiu por uns instante e observou:

- Disse que Alexandra o procurou, porque notava tendências suicidas.

- Exacto.

- Como sabe que era ela?

- Eva conserva uma pequena cicatriz na fronte, recordação da tareia que o cunhado lhe aplicou - Harley fez uma pausa. - Como vão as sessões com ele?

- Ainda não estabeleci contacto com o seu íntimo. Oculta-se por detrás de uma fachada que tento derrubar.

- Tenha cautela, Peter - evocou a cena que se lhe deparara: Eva imersa num charco de sangue. - O homem é perigoso.

- As duas irmãs são herdeiras de uma fortuna avultada, salvo erro.

Hesitou por um momento, antes de declarar:

- Trata-se de um assunto de família, mas não é como pensa. A avó deserdou Eva.

Alexandra receberá tudo.

“Estou preocupado com Alexandra, doutor Templeton. As depressões parecem agravar-se. A noite passada falou em afogamento… Se lhe acontecesse alguma coisa, não resistia.”

Tudo aquilo soara ao psiquiatra como os preparativos clássicos de um homicídio… com a diferença de que George Mellis era herdeiro de uma fortuna apreciável da sua própria família. Por conseguinte, não o podiam animar motivos para matar alguém por dinheiro. “Estás a deixar-te arrastar pela imaginação”, terminou por decidir.

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Uma mulher afogava-se no mar glacial e ele tentava aproximar-se, mas as vagas eram demasiado alterosas. Procurou nadar mais depressa, mas os braços e as pernas pareciam de chumbo. Quando chegou ao local em que a vira debater-se, avistou um tubarão enorme que se preparava para o atacar. Nesse momento, Peter Templeton acordou, acendeu a luz e sentou-se na cama, para analisar o pesadelo.

De manhã, telefonou ao tenente -detective Nick Pappas.

Nick Pappas era um homem quase gigantesco, que não pesava menos de cento e vinte quilos, mas, como numerosos criminosos podiam testemunhar, não havia um grama de gordura supérflua no seu corpo. Pertencia à brigada de choque do Departamento de Homicídios do bairro das “meias de seda” de Manhattan.

Templeton conhecera-o, vários anos antes, quando tivera de colaborar nas investigações relacionadas com um assassino psicopata, e os dois homens haviam ficado amigos. A paixão de Pappas era o xadrez e encontravam-se uma vez por mês para disputarem uma partida.

- Homicídio. Tenente Pappas - anunciou este pelo telefone.

- É Peter, Nick.

- Viva! Como vão os mistérios da mente?

- Continuo empenhado em deslindá-los. Tina está bem?

- Fantástica. Em que o posso servir?

- Precisava de informações. Ainda mantém ligações com a Grécia?

- E de que maneira! Tenho lá uma centena de parentes, todos necessitados de dinheiro. Para vergonha da minha inteligência, costumo satisfazer-lhes os pedidos regulares. Talvez precise de uma sessão no sofá do seu consultório.

- Já não adiantava nada - afirmou Templeton. - O seu caso é incurável.

- Tina afirma a mesma coisa, por outras palavras. Que pretende saber?

- Ouviu falar de George Mellis?

- Da família dos produtos alimentares?

- Esse mesmo.