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- Não frequentamos os mesmos círculos, mas sei de quem se trata. Porquê?

- Interessa-me conhecer a sua situação financeira.

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- Deixe-se de brincadeiras, a família é…

- Refiro-me a fortuna própria.

- Posso indagar, mas receio que seja pura perda de tempo. Os Mellis são ultraricos.

- Se mandar alguém contactar com o pai dele, recomende-lhe cuidados especiais, pois sofreu vários ataques cardíacos.

- Entendido. Mencionarei o facto no telegrama.

De súbito, Templeton recordou-se do sonho e solicitou:

- Não podia antes telefonar? Hoje mesmo.

- Há alguma coisa que não me revelasse, Peter? - a voz de Pappas mudou repentinamente de tom.

- Não, nada. Quero apenas satisfazer a curiosidade. Debite -me o telefonema.

- Disso, pode estar certo. Prepare -se também para pagar a conta do jantar, quando nos reunirmos para me explicar de que se trata.

- Combinado.

O psiquiatra pousou o auscultador, um pouco mais aliviado.

Kate Blackwell não se sentia bem. Encontrava -se ao telefone, sentada à secretária, quando se apercebeu do ataque súbito. Os móveis começaram a oscilar à sua volta e ela pousou as mãos no tampo com firmeza, até que tudo regressou à normalidade.

Brad Rogers entrou no gabinete pouco depois e enrugou a fronte ao ver-lhe as faces lívidas.

- Não se sente bem?

- Foi apenas uma tontura. Nada de especial.

- Quando fez o último checkup?

- Não tenho tempo para esses disparates.

- Arranje-o. Vou dizer a Annette que lhe marque consulta com John Harley.

- Nem pensar nisso! Deixe-se de pieguices, sim?

- Vai à consulta?

- Só irei para que você me não seringue a paciência.

Na manhã seguinte, a recepcionista de Peter Templeton informou:

- Está o detective Pappas na linha um.

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O psiquiatra apressou-se a levantar o auscultador.

- Olá, Nick.

- Acho conveniente termos uma conversa.

- Contactou alguém acerca de Mellis? - perguntou, dominado por repentina ansiedade.

- Com o pai. Para já, nunca teve ataques cardíacos e declarou que, para ele, o filho morreu. Deserdou-o há anos. Quando pretendi averiguar o motivo, desligoume o telefone na cara. A seguir, conversei com um dos meus colegas de Atenas e apurei que o seu George Mellis é uma delícia de rapaz. A Polícia conhece-o bem.

Manifesta um prazer especial em espancar jovens de ambos os sexos. A sua última vítima, antes de abandonar a Grécia, foi um prostituto de quinze anos.

Encontraram o seu corpo num hotel de má nota e houve quem os tivesse visto juntos antes. O velho untou as mãos das autoridades e o filho foi expulso do país.

Para sempre. Estes elementos satisfazem-no?

Reflectiu que não só o satisfaziam como o aterrorizavam.

- Obrigado, Nick. Fico em dívida para consigo.

- Se o nosso homem volta a fazer das suas, deve informar-me.

- Sem dúvida, assim que tiver a certeza.

Cortou a ligação e embrenhou-se em reflexões. Necessitava tomar uma resolução sem demora, pois George Mellis tinha consulta marcada para o meio-dia.

O dr. John Harley examinava umas radiografias, quando a recepcionista anunciou:

- Mistress Mellis pede para lhe falar, doutor. Não marcou consulta e expliquei-lhe que estava muito atarefado..

- Mande-a entrar para a sala ao lado.

Quando se lhe reuniu, o médico verificou que apresentava maior palidez que na visita anterior e os círculos violáceos em torno dos olhos mais carregados.

- Desculpe aparecer sem prevenir…

- Não tem importância, Alexandra. De que se trata?

- Sinto -me… horrivelmente.

- Tem tomado o Wellbutrin com regularidade?

- Sim.

- E continua deprimida?

- É pior do que depressão - ela torcia as mãos com

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nervosismo. - Sinto-me desesperada. Tenho a impressão de que perdi o domínio dos meus actos. Receio cometer uma loucura.

- Fisicamente, não tem nada - asseverou ele, em tom tranquilizador. - É tudo emocional. Vou receitar-lhe outro medicamento, em vez desse, Nomifensina, muito mais eficiente. Deve notar melhoras dentro de poucos dias - preencheu uma receita e estendeu-lha. - Se tal não acontecer até sextafeira, telefone-me. Talvez haja conveniência em consultar um psiquiatra.

Meia hora mais tarde, de regresso ao apartamento, Eva removeu a camada de creme que lhe empalidecia as faces e fez desaparecer os círculos violáceos de junto dos olhos.

O ritmo da operação começava a acelerar-se.

George Mellis sentava-se diante de Peter Templeton, sorridente e confiante.

- Como se sente hoje?

- Muito melhor, doutor. As sessões que tivemos, embora poucas, beneficiaram-me mais do que possa imaginar.

- Sim? Em que sentido?

- Só pela possibilidade de conversar com alguém. É o princípio em que se fundamenta a Igreja Católica: a confissão.

- Congratulo-me com isso. E sua mulher?

- Receio que não apresente melhoras - admitiu Mellis, enrugando a fronte. - Tornou a visitar o doutor Harley, mas cada vez fala mais no s uicídio. Talvez a leve para fora da cidade ou mesmo do país. Precisa de uma mudança de ambiente.

O psiquiatra julgou detectar um presságio ominoso nestas palavras e desejou ardentemente que não passasse de um produto da sua imaginação.

- A Grécia é um país tranquilo - observou com naturalidade. - Levou-a lá para conhecer a sua família?

- Ainda não, embora todos anseiem por esse momento - Mellis voltou a sorrir. - O único problema consiste em que, sempre que eu e meu pai nos encontramos, ele insiste em me convencer a assumir a direcção dos negócios.

Nesse instante, Templeton ficou sem a mínima dúvida de que Alexandra corria perigo de vida.

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Longos minutos depois de Mellis se retirar, o psiquiatra continuava sentado à secretária, debruçado sobre os seus apontamentos. Por último, levantou o auscultador e marcou] um número.

- Queria que me fizesse um favor, John. Pode averiguar onde George Mellis levou a mulher na lua -de-mel?

- Posso dizer-lhe já. Tive de os vacinar antes da partida. Estiveram na Jamaica.

“Tenho um amigo que gosta de espancar prostitutas… Recordo-me de uma ocasião em que visitámos a Jamaica juntos. Uma prostituta levou-o a um hotel de má nota e, depois de se despir, disse que queria mais dinheiro… O meu amigo arreou-lhe a valer. Aposto q ue ela não se mete noutra tão cedo…”

No entanto, continuava a não haver provas de que George Mellis planeava matar a esposa. Por outro lado, John Harley confirmara que Alexandra revelava inclinações suicidas. “O problema não me diz respeito”, tentou Templeton convencer-se. Não obstante, no fundo, sabia que tinha de o aprofundar.

Peter Templeton tivera de trabalhar para custear os estudos. O pai fora vigilante de uma escola de uma pequena povoação no Nebrasca e, mesmo com uma bolsa, ele não pudera frequentar um dos estabelecimentos de primeiro plano.

Assim, formara-se na Universidade de Nebrasca com classificação elevada e especializara-se depois em psiquiatria, carreira em que triunfara desde o início. O seu segredo consistia em que gostava sinceramente dos seres humanos e sentia preocupação pelo que lhes acontecia. Alexandra Mellis, apesar de não figurar entre os seus pacientes, inspirava-lhe interesse. Constituía a peça do puzzle que faltava e uns minutos frente a frente poderiam contribuir para que o completasse.

Pegou na ficha de George Mellis, procurou o número do telefone de casa e marcou-o. Quando se achou em contacto com Alexandra, explicou:

- Chamo-me Peter Templeton e sou..

- Sei perfeitamente quem é, doutor. George falou-me de si.

Ficou surpreendido, pois supunha que Mellis não mencionara o assunto à mulher.

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- Gostava de trocar impressões consigo, Mistress Mellis. Durante o almoço, se não vir inconveniente.