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- Acerca de meu marido? Há alguma novidade?

- Não. Pensei simplesmente que convinha que conversássemos um pouco a esse respeito.

- De acordo, doutor Templeton.

E combinaram encontrar-se no dia seguinte.

Ocuparam uma mesa a um canto discreto de La Grenouille. Templeton não conseguia desviar os olhos de A lexandra desde o momento em que esta entrara.

Procurou atentamente vestígios da fadiga e da depressão a que o dr. Harley se referira, mas não os encontrou.

- Suponho que não há nada de especial sobre o estado de meu marido? - principiou ela.

- Decerto que não.

A entrevista desenrolar-se-ia com maior dificuldade do que ele previra. Ao mesmo tempo, reconhecia que pisava terreno escorregadio. Não lhe assistia o mínimo direito de violar o sigilo da relação médico-paciente, mas, por outro lado, pensava que Alexa ndra devia ser advertida.

Depois de escolherem o que queriam comer, perguntou:

- Ele explicou-lhe porque me procurou?

- Sem dúvida. Atravessa um período de tensão invulgar. Os chefes da firma de corretagem onde trabalha colocam a maior responsabilidade sobre os seus ombros. É uma pessoa muito consciente dos seus deveres, como deve ter notado.

Era incrível. Desconhecia por completo o ataque de que a irmã fora vítima.

“Porque não a terão informado?” - George mostra-se muito mais aliviado por poder discutir os seus problemas com alguém - prosseguiu ela, com um sorriso de gratidão. - Alegra-me que lhe preste assistência, doutor.

“Que inocente!” Era óbvio que idolatrava o marido, e o que Templeton tinha para lhe dizer poderia destruí-la. Como lhe revelaria que casara com um psicopata que assassinara um jovem prostituto, fora banido da família e espancara brutalmente Eva? Não obstante, deveria assumir a responsabilidade de guardar silêncio?

- A profissão de psiquiatra deve ser compensadora -

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volveu Alexandra. - Tem oportunidade de ajudar muita gente.

- Bem, há ocasiões em que o fazemos - admitiu ele. Noutras, é impossível.

O almoço começou a ser servido e abordaram assuntos banais enquanto comiam.

Templeton descobriu-se encantado! com a companhia e assolou-o certo desconforto quando chegou à conclusão de que invejava George Mellis.

- Tenho muito prazer em almoçar consigo - acabou Alexandra por dizer -, mas creio que me convidou por algum] motivo.

- Na realidade… - ele hesitou, reconhecendo que chegara o momento da verdade.

As palavras que proferiria a seguir poderiam desmoronar toda a existência dela.

Convidara-a para almoçar, disposto a revelar as suas suspeitas e a sugerir que o marido fosse internado numa clínica de enfermos mentais. Todavia, agora que a conhecia, a missão afigurava -se-lhe difícil. Evocou de novo palavras de George Mellis: “Estou preocupado com Alexandra, doutor. A noite passada falou em afogamento”. Ora, a mulher que se achava na sua frente parecia disposta a tudo menos a pôr termo à vida. Resultaria do medicamento que tomava? Podia, pelo menos, interrogá-la a esse respeito.

- John Harley diz que está a tomar…

Foi interrompido pela voz grave de George Mellis:

- Ah, estás aqui, querida! Liguei para casa e comunicaram-me que vinhas a este restaurante - virou-se para o psiquiatra. - Tenho muito prazer em vê-lo, doutor Templeton. Posso fazer-lhes companhia?

E a oportunidade perdeu-se.

- Porque queria ele falar com Alex? - murmurou Eva, com uma expressão pensativa.

- Não faço a mínima ideia - replicou Mellis. - Por sorte, ela deixou dito onde estava, para o caso de eu telefonar. Segui para lá como se tivesse asas nos pés!

- Confesso que me cheira a esturro.

- Não houve novidade. Ela garantiu-me que não tinham discutido nada em particular.

- Temos de acelerar as coisas.

- Para quando? - e ele sentiu uma excitação quase sexual

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ao formular a pergunta, pois aguardava o momento com impaciência cada vez mais difícil de conter.

- Imediatamente.

Capítulo trigésimo terceiro As tonturas agravavam-se e os assuntos começavam a enevoar-se na mente de Kate. Por vezes, ponderava as conveniências e as desvantagens de concretizar determinada fusão e, de súbito, descobria que se efectuara vários anos antes.

Começava a sentir-se preocupada e, por último, resolveu aceitar o conselho de Brad Rogers e visitou John Harley.

Havia muito tempo que o médico não lograva persuadi-la a sujeitar-se a um checkup, pelo que decidiu tirar o máximo partido da sua presença no consultório.

Examinou-a minuciosamente e, no final, pediu-lhe que aguardasse uns momentos.

Na realidade, sentia-se apreensivo. Kate Blackwell mostrava-se invulgarmente lúcida para a idade, mas havia alguns indícios menos tranquilizantes. Registavase um endurecimento nítido das artérias, o que poderia explicar as tonturas ocasionais e o enfraquecimento da memória. Conquanto devesse ter abandonado os negócios há anos, persistia empenhada em não ceder as rédeas a ninguém.

“Quem sou eu para a criticar? Já ultrapassei a idade da aposentação.”

Mais tarde, com os resultados dos testes na sua frente, Harley admitiu:

- Quem me dera ter a sua condição, Kate.

- Dispenso a graxa! Limite-se a explicar em que consiste o meu problema.

- Na idade, quase totalmente. Há um pequeno endurecimento das artérias e…

- Arteriosclerose?

- É assim que os médicos lhe chamam? - ironizou. - Seja como for, padece disso.

- É grave?

- Para a sua idade, considero normal. Estas coisas são todas relativas.

- Pode receitar-me uma mistela qualquer para acabar com

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o raio das tonturas? Desagradava-me desmaiar numa cheia de homens. Era deprimente para o meu sexo.

- Não creio que isso venha a acontecer. Quando tenciona abandonar a actividade?

- Quando tiver um bisneto que ocupe o meu lugar.

Os dois velhos amigos, que se conheciam de longa data, olharam-se em silêncio por cima da secretária. Embora nem sempre concordasse com ela, Harley admirava-lhe a coragem.

Como se lhe adivinhasse o pensamento, Kate suspirou e acrescentou:

- Sabe qual foi uma das maiores desilusões da minha vida? Eva. Gostava dela a valer. Quis entregar-lhe o mundo mas nunca se preocupou com nada, além dela própria.

- Engana-se. Tem profundo afecto por si.

- Deixe-se de lérias!

- Estou em condições de o poder afirmar - o médico fez uma pausa para escolher as palavras cautelosamente - Há pouco, sofreu um acidente horrível que quase lhe provocou a morte.

- Porque?… - balbuciou ela, sentindo as palpitações do coração acelerarem-se. - Porque não me informou?

- Ela não consentiu. Apoquentava-se tanto com a possibilidade de vir a saber, que me obrigou a prometer que guardaria silêncio.

- Valha-me Deus! Como está agora?

- Recompôs-se por completo.

- Obrigado por me ter dito, John - murmurou, com o olhar perdido no espaço. - Obrigado.

- Vou receitar-lhe uns comprimidos.

Quando ergueu os olhos do papel, Harley descobriu que ela desaparecera.

Eva abriu a porta e arregalou os olhos de incredulidade. A avó encontrava-se na sua frente, empertigada e altiva como sempre, sem deixar transpare cer o mínimo indício de fragilidade.

- Posso entrar?

- Com certeza - e a rapariga desviou-se, incapaz de compreender o que sucedia.

Kate deu alguns passos, olhou em volta sem proferir qualquer comentário, e perguntou:

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- Posso sentar-me?

- Desculpa. Sem dúvida. Estou tão… Tomas alguma coisa? Chá, café?

- Não, obrigada. Estás bem?

- Sim, obrigada. Sinto-me óptima.

- Venho do consultório do doutor Harley. Disse-me que sofreste um acidente grave.

- É verdade - Eva observava a avó com desconfiança, sem saber com exactidão o que se seguiria.