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Dois médicos eminentes confirmarão que se deve tratar de suicídio…”

A lancha encontrava-se em Philbrook, conforme o plano exigia. Mellis cruzou a baía sem acender qualquer luz, orientando-se apenas com o auxílio do luar, passou nas proximidades de várias embarcações ancoradas sem ser detectado e atingiu a doca da propriedade Blackwell, onde desligou o motor e prendeu a amarra à popa do Corsair.

Ela falava ao telefone na sala, quando ele entrou. Ao vê-lo, acenou-lhe, cobriu o bocal com a mão e articulou a meia voz que era a irmã. Escutou por um momento e replicou:

- Tenho de desligar, Eva. Almoçamos juntas para a semana.

Pousou o auscultador e estendeu os braços para o recém-chegado.

- Vieste cedo. Ainda bem.

- Tinha tantas saudades tuas que larguei tudo o que estava a fazer.

- Amo-te - murmurou e beijou-a.

- E eu adoro-te, matia mou. Livraste-te do pessoal?

- Estamos só nós. Sabes uma coisa? Fiz moussaka para ti.

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- Tive uma ideia pelo caminho. Porque não vamos dar uma volta no iate?

- Pois sim, mas a moussaka…

- O jantar pode esperar - proferiu Mellis, pousando-lhe a mão num dos seios. - Eu não.

- Muito bem - e ela soltou uma risada. - Vou mudar de roupa. Não demoro nada.

- Vejamos quem o faz primeiro.

Ele subiu ao primeiro piso e enfiou rapidamente uma camisola de lã, calça de ganga e botas de borracha. Agora que o momento se acercava, dominava-o uma excitação pres tes a explodir.

- Ganhei!

Voltou-se e viu-a à entrada do quarto, envergando uma camisola de gola alta, calça de belbutina e sapatos de lona, os longos cabelos louros presos sobre a nuca por uma fita azul. “Como é bonita! Quase faz pena desperdiçar tanta be leza!” - Também estou pronto - declarou, dando-lhe a mão e puxando-a para o corredor.

- Para que é aquilo, querido? - quis saber ela, quando viu a lancha presa à popa do iate.

- Há uma ilhota na extremidade da baía que sempre desejei explorar. Com uma embarcação mais pequena, não temos de nos preocupar com possíveis rochas à flor da água.

Içou a vela, e o vento não tardou a impelir o Corsair suavemente em direcção ao largo. Quando ultrapassaram a rebentação, a velocidade aumentou, assim como as oscilações do iate.

- É estupendo! - exclamou ela. - Sinto-me muito feliz, querido.

- Eu também.

Por razões que não conseguia definir com clareza, Mellis experimentava prazer com a felicidade de Alexandra, com a circunstância de morrer feliz. Esquadrinhou o horizonte para se certificar de que não havia embarcações nas proximidades e verificou a existência de pontos luminosos a uma distância confortável. Chegara o momento.

Fixou o leme para evitar que uma súbita rajada de vento voltasse o Corsair e aproximou-se da amurada.

- Anda cá ver uma coisa, Alex.

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Ela obedeceu e abraçou-a por um momento, antes de a beijar com intensidade.

- Ah, era isso que querias! - articulou Alexandra, quando finalmente descolaram os lábios.

Todavia ele continuou a segurá-la e principiou a erguer-lhe o corpo para a amurada, enquanto ela, passados os instantes iniciais de estupefacção, se debatia desesperadamente.

De repente, Mellis sentiu uma dor excruciante no peito e pensou: “É um ataque cardíaco!” Abriu a boca para dizer algo, mas uma golfada de sangue abafou-lhe a voz. Soltou a presa e baixou os olhos para o peito, com uma expressão de incredulidade. Tinha um largo rasgão que sangrava abundantemente. Ergueu o olhar e viu que ela empunhava uma faca, com um sorriso de triunfo.

O seu derradeiro pensamento antes de expirar foi: “Eva…”

Capítulo trigésimo quarto Eram dez horas da noite, quando Alexandra chegou à mansão de Dark Harbor.

Tentara telefonar ao marido por diversas vezes, mas não obtivera resposta. Agora, acalentava a esperança de que não estivesse zangado com a sua demora. Na realidade, houvera uma confusão estúpida. Ao princípio da tarde, quando se preparava para sair de casa, o telefone tocara e ela não fizera caso, a fim de não perder mais tempo. No entanto, a empregada fora chamá-la ao carro, que se preparava para pôr em movimento.

- É sua irmã, Mistress Mellis. Diz que precisa de lhe falar com urgência.

Quando Alexandra pegou no auscultador, Eva explicou:

- Estou em Washington a contas com um problema horrível. Temos de nos encontrar.

- Muito bem. Agora, sigo para Dark Harbor, onde George me espera, mas regressamos segunda-feira e…

- Isto não pode esperar - Eva parecia desesperada. - Queres ir esperar-me ao Aeroporto La Guardiã? Chego no avião das cinco.

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- Mas prometi a George…

- Trata-se de uma emergência, Alex. No entanto, se não pode ser…

- Espera! Está bem. Espero lá por ti.

- Obrigada, querida. Sabia que podia contar contigo. Alexandra reconheceu que a irmã lhe pedia um favor tão raramente que não reuniu coragem para recusar. Seguiria noutro avião para a ilha.

Tentou contactar o marido, mas do escritório informaram que já saíra, pelo que deixou um recado à secretária dele. Uma hora mais tarde, apeava-se de um táxi no Aeroporto La Guardiã, onde verificou que Eva não viajara no avião das cinco.

Aguardou mais duas horas, e como a irmã continuasse a não aparecer, seguiu finalmente para a ilha. Agora, ao aproximar-se de Cedar Hill, observou que não havia uma única luz acesa. Todavia, o marido já devia ter chegado. Percorreu todos os aposentos, ao mesmo tempo que o chamava, sem resultado. Por último, ligou para a residência em Manhattan, e perguntou à empregada:

- Mister Mellis está aí?

- Não, Mistress Mellis. Disse que se ausentavam ambos durante o fim-de-semana.

- Obrigada, Marie. Deve ter ficado retido algures.

Tinha de haver uma razão lógica para a sua ausência. Decerto surgira alguma coisa inesperada relacionada com o trabalho e, como sempre, os chefes tinhamno encarregado de lhe dar andamento. De qualquer modo, apareceria a todo o momento. Em seguida, Alexandra marcou o número da irmã, que atendeu com prontidão.

- Eva! Que te aconteceu?

- Isso pergunto eu! Fartei-me de esperar no Aeroporto Kennedy e acabei…

- Kennedy? Disseste que era no La Guardiã.

- Não, querida. Kennedy.

- Mas… - Alexandra interrompeu-se, reconhecendo que o pormenor deixara de se revestir de importância. - Devo ter sido eu que fiz confusão. Estás bem?

- Agora, estou, mas passei um mau bocado. Envolvi-me com um fulano, uma figura grada da polícia em Washington, e… - Eva soltou uma risada seca. - Prefiro não falar no assunto pelo telefone. Segunda-feira explico-te tudo.

- Pois sim - assentiu Alexandra, profundamente aliviada.

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- Bom fim-de-semana. Como está George?

- Ainda não chegou - esforçou-se por dominar a preocupação que começava a assolá-la. - Suponho que surgiu algum assunto de última hora no emprego e não teve oportunidade de me prevenir.

Enquanto pousava o auscultador, pensava: “Era óptimo que ela encontrasse alguém realmente maravilhoso. Um homem como George, por exemplo.”

Consultou o relógio, que indicava quase onze horas, e ponderou que ele já devia ter dito alguma coisa. Por fim, discou o número da Hanson and Han-son, mas não obteve resposta. A seguir, ligou para o clube que o marido costumava frequentar e obteve a informação de que ninguém o vira lá nesse dia. À meia-noite, achava-se alarmada e, transcorrida mais uma hora, o pânico dominava-a por completo. Não sabia o que devia fazer. Subsistia a possibilidade de ele se ver obrigado a acompanhar um cliente algures. Se telefonasse à Polícia e George aparecesse, faria uma figura ridícula.