requeria a lei.”
Agora que pensava nisso, o historiador pôs-se a ligar
pontos que até esse momento apenas considerara em
separado.
“Sabem, o recurso aos ossários era uma prática
sobretudo dos judeus apocalípticos, que achavam que o
mundo estava prestes a acabar. Acreditavam que em breve
Deus desceria à Terra para impor o Seu reino e que,
quando isso acontecesse, todos ressuscitariam para o
dia do juízo final. Ao depositarem os seus mortos em
ossários, os judeus apocalípticos pensavam que assim
era facilitado o processo de ressurreição. É, aliás,
curioso que estes ossários tivessem sido construídos
junto ao monte Moriah, o monte onde se encontrava o
Templo. É que eles achavam que Deus reinaria justamente
a partir do Templo, pelo que depunham os mortos naquele
sítio de modo a ficarem mais perto do local onde tudo
iria acontecer.”
“Diria que Jesus e os seus seguidores eram judeus
apocalípticos?”
A pergunta foi certeira.
“Claro que sim”, reconheceu Tomás, percebendo
perfeitamente para onde o seu anfitrião o estava a
conduzir.
“É muito provável que recorressem a este tipo de
enterro.” Hesitou. “Aliás, há até fortes indicações de
que o fizeram justamente com o cadáver de Jesus.”
Olhou em redor, como se procurasse alguma coisa. “Tem
aí alguma Bíblia?”
O presidente da fundação abriu uma gaveta e tirou de lá
um livro volumoso, que depositou sobre a mesa.
“Meu caro, estamos no santo dos santos”, gracejou.
“Claro que aqui temos sempre uma Bíblia.”
O historiador folheou o volume.
“Ora repare o que escreveu Marcos em 15:43, referindo-
-se ao enterro de Jesus”, disse, pondo-se a ler o
trecho. ‘“José de Arimateia, respeitável membro do
Conselho, que também esperava o Reino de Deus, foi
corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de
Jesus.’” Levantou a cabeça. “Ou seja, ao indicar que
este José ‘esperava o Reino de Deus’, Marcos está a
dizer que ele era igualmente um judeu apocalíptico.
Como é natural, José de Arimateia decidiu enterrar
Jesus à maneira dos judeus apocalípticos, processo que
Marcos relata em 15:46.” Retomou a leitura. “‘Depois de
comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o
nele. Em seguida, depositou-O num sepulcro cavado na
rocha e rolou uma pedra contra a porta do sepulcro.’”
Bateu com a ponta do dedo no texto. “O que Marcos está
a descrever aqui é o enterro primário. Jesus não foi
propriamente enterrado, mas colocado numa câmara cavada
na rocha. Isto só se fazia quando se planeava ir mais
tarde buscar os ossos e transferi-los para a sua morada
definitiva, o ossário, onde ficariam até a pessoa
ressuscitar para o dia do juízo final.”
“No caso de Jesus, terá havido enterro secundário? Os
seus ossos terão depois sido transferidos para um
ossário?”
Tomás fez uma careta.
“Bem...
a
acreditar
nos
Evangelhos,
não.
Ele
ressuscitou antes de isso poder ser feito.”
Arkan manteve os olhos presos fixamente no seu
interlocutor.
“De certeza?”, perguntou. “Ora leia aí o que escreveu
Mateus em 28:13.”
O historiador procurou a passagem no exemplar da
Bíblia.
“‘Os Seus discípulos vieram de noite e roubaram-n’0
enquanto dormíamos’”, leu. Fitou o anfitrião.
“Mateus diz que isto era um boato que os judeus puseram
a circular para explicar o desaparecimento do cadáver
de Jesus.”
“É interessante que houvesse esse boato, não lhe
parece?”, questionou Arkan.
“Tão interessante que Mateus se viu forçado a dizer que
os Romanos puseram um guarda a noite inteira a vigiar o
sepulcro, pormenor que Marcos não relatou e que
constituiu evidentemente uma forma de tentar desmentir
o boato, tão forte ele se mostrava.”
Tomás releu em silêncio os versículos de Mateus
referentes ao que sucedeu depois da crucificação.
“Tenho de concordar consigo”, acabou por admitir.
“A ressurreição de Jesus não é uma questão histórica,
mas de fé. Pertence ao domínio do sobrenatural. Se ela
não passar de uma fantasia de mentes supersticiosas,
como me parece aliás natural, é evidente que o corpo de
Jesus foi transferido para outro local. Assim sendo,
estamos
de
facto
perante
um
caso
de
enterro
secundário.”
“E para que local terá ele sido transferido?”
“Estando nós a lidar com judeus apocalípticos, parece-
-me evidente que só poderá ser um ossário perto do
monte Moriah, de modo que o corpo estivesse o mais
perto possível do Templo para ressuscitar no dia do
juízo final.”
Com os olhos sempre fixos no seu interlocutor, Arkan
tamborilou os dedos na superfície da mesa, como se
esperasse que Tomás tirasse as devidas conclusões do
que acabara de dizer.
“Os ossários eram usados no século I pelos judeus
apocalípticos em enterros secundários”, relembrou o
presidente da fundação.
“Jesus e os seus seguidores eram judeus apocalípticos
do século I e a descrição que os Evangelhos fazem do
que sucedeu depois da sua morte coincide com a primeira
fase de um enterro secundário. Ou seja, é altamente
provável que os ossos de Jesus tenham sido depositados
num ossário junto ao monte Moriah.”
Arqueou as sobrancelhas peludas.
“O que inevitavelmente nos remete para a descoberta de
Talpiot, não é verdade?”
Tomás acariciou o queixo com os dedos, numa pose
pensativa.
“É possível”, reconheceu. “Não digo que não.” Ponderou
a hipótese mais um instante.
“Há, porém, alguns problemas que é preciso resolver
para aceitar que estejamos perante o túmulo de Jesus de
Nazaré. O primeiro resulta de estes ossários estarem
reservados a famílias endinheiradas. Ora Jesus era um
zé-ninguém. Que se saiba, a família não tinha posses.”
Arkan olhou-o de um modo estranho, como se soubesse
qualquer coisa.
“Ai não? Qual era a profissão de José, o pai de Jesus?”
“Carpinteiro”, devolveu o historiador quase
automaticamente. “Toda a gente sabe.”
“Onde está isso escrito?”
Tomás consultou de novo a Bíblia.
“No Evangelho segundo Mateus, em 13:55”, indicou, lendo
o versículo. ‘“Não é Ele o filho do carpinteiro?’”
“Essa é a tradução tradicional”, notou Arkan. “Qual a
palavra grega usada originalmente pelo autor de