Mateus?”
“Tekton.”
“O que significa tekton exactamente?”
O historiador abriu e fechou a boca. Tinha acabado de
perceber a objecção do seu interlocutor.
“Em
bom
rigor
significa
construtor.
A
palavra
carpinteiro não é, de facto, a tradução correcta.
Tekton é um homem qualificado, senhor do seu negócio e
que trabalha na construção.”
“Ou seja, um empresário na área da construção”,
simplificou o anfitrião. “Se fosse hoje, dir-se-ia que
José era um construtor civil. Parece-lhe uma profissão
de gente pobre?”
Tomás passou a mão pelo cabelo. Como era possível que
nunca tivesse pensado nisso?
“Bem... não necessariamente”, reconheceu. “Tekton é
alguém que trabalha com as mãos. É certo que podia ser
um construtor civil, mas numa terriola como Nazaré não
deveria ser abastado. Poderia ser de classe baixa.”
“Lembre-se que o filho, Jesus, era educado. Conhecia as
Escrituras de uma ponta à outra e sabia pelo menos ler,
o que na época era relativamente raro. Esses indícios
não apontam para uma família indigente e a viver na
miséria, pois não?”
“Está bem”, concedeu o português.
“Aceitemos que possuíam dinheiro, embora a este
respeito não tenhamos a certeza de nada. Mesmo que
fossem remediados, teriam o suficiente para um ossário?
Não se esqueça de que tudo indica que José terá morrido
cedo e portanto deixou de poder providenciar às
necessidades da família...”
“A
eventual
morte
prematura
de
José
é
pura
especulação”, sublinhou Arkan.
“Nada nos Evangelhos estabelece explicitamente tal
coisa. O facto é que estamos a falar de uma família
educada que trabalhava na área da construção civil. É
muito natural que, se acreditassem na ressurreição dos
mortos no dia do juízo final, as pessoas desta família
tivessem meios para investir num ossário como o de
Talpiot. Mas, mesmo que não dispusessem de dinheiro,
alguns dos seus seguidores podiam arranjá-lo. Esse José
de Arimateia, por exemplo. Não é Marcos que diz que ele
pertencia ao conselho de sábios que governava o Templo,
o sinédrio? Se assim era, teria forçosamente de ser
abastado. Aliás, os Evangelhos tornam claro que foi ele
quem tratou do enterro de Jesus.” Encostou a palma da
mão ao peito.
“Ponhamo-nos no lugar dos nazarenos. Se eu acreditasse
que a chegada do reino de Deus estava iminente e que
Jesus era de facto o mashia previsto pelas Escrituras,
não acham que consideraria a construção de um ossário
para Jesus um bom investimento? Decerto Jesus, quando
ressuscitasse para o dia do juízo final, daria ao seu
Pai, Deus, uma palavra a meu favor. Não seria isso útil
para eu ter entrada directa no reino de Deus?”
Tomás acenou afirmativamente.
“Sim, tem razão”, reconheceu. “Mesmo que Jesus não
tivesse dinheiro, os seus seguidores arranjá-lo-iam
para lhe construir o ossário. Todos queriam cair nas
boas graças do Messias, sobretudo agora que aí vinha o
grande julgamento.”
“Então diga lá”, pediu Arkan em jeito de conclusão, “é
ou não provável que, não tendo ocorrido ressurreição
física do corpo de Jesus, os seus ossos tenham sido
depositados num ossário junto ao monte Moriah, com
vista privilegiada para o Templo?”
“Sim, isso é provável”, aceitou Tomás. “O problema é
ter a certeza de que a descoberta de Talpiot
corresponde ao ossário certo.”
“E porque não há-de corresponder? Quer que lhe faça a
demonstração?”
“Não estou cá para outra coisa...”
Em resposta, Arkan puxou uma gaveta da mesa e retirou
do interior uma pasta de dossiê com vários documentos
arquivados. Abriu-a e mostrou-lhe a primeira folha com
uma referência no topo e a fotografia de letras
esculpidas na superfície branca de um ossário.
“Esta é a inscrição que está no ossário 80/503”, disse.
“Encontra-se redigida em estilo cursivo e é de difícil
leitura. Contudo, a maioria dos caligrafistas concorda
que a inscrição diz Yehoshua bar Yebosef, ou Joshua
filho de José. Como observou há pouco, Jesus, aliás
Yeshu, é um diminutivo de Yehoshua, uma das formas do
nome Joshua.”
Os três visitantes inclinaram-se sobre a página e
estudaram a inscrição cravada no ossário.
“Sim, mas quantos Joshua não existiriam naquele tempo?”
Arkan soergueu a sobrancelha.
“Está a referir-se a Joshuas que fossem judeus
apocalípticos e tivessem meios, provenientes da sua
família ou dos seus seguidores, para terem os ossos
depositados numa câmara com vista para o Templo?”
Fungou. “Havia alguns.”
O historiador voltou a acariciar o queixo com a ponta
dos dedos, avaliando os méritos de avançar para uma
análise estatística. Pareceu-lhe um terreno promissor.
“Tenho ideia de que Yebosbua era um nome relativamente
comum”, observou. “Verificou a frequência com que ele
surge nos ossários judaicos do século I?”
O anfitrião pigarreou.
“Nos mais de duzentos ossários catalogados pela
Autoridade das Antiguidades de Israel, o nome Yebosbua
aparece nove por cento das vezes e o nome Yebosef surge
catorze por cento. Extrapolando para os oitenta mil
homens que viveram em Jerusalém durante todo o período
em que se usaram ossários, isto significa que sete mil
chamar-se-iam Yebosbua e onze mil seriam Yebosef.”
“Tem de concordar que estamos perante dois nomes muito
comuns”, verificou Tomás. “Demasiado comuns para que
possamos estar confiantes de que o Yebosbua bar Yebosef
do ossário de Talpiot corresponda a Jesus de Nazaré.”
“Sim, mas é preciso avaliar quantos dos sete mil
Yebosbua de Jerusalém poderiam ter um pai chamado
Yebosef’, lembrou Arkan.
“Ora se multiplicarmos as percentagens, 0,9 de Yehoshua
vezes 1,4 de Yehosef vezes oitenta mil pessoas
correspondentes à população masculina de Jerusalém,
ficamos com... com... mil. Ou seja, em todo este
período só houve em Jerusalém uns mil Yehoshua que eram
filhos de alguém chamado Yebosef.”
“E um valor bem mais restrito”, observou o historiador.
“Mesmo assim, mil homens chamados Jesus com um pai
chamado José são ainda um número demasiado elevado para
que se possa reivindicar o que quer que seja com os
achados de Talpiot.”
Arkan esboçou uma expressão meditativa.
“Há ainda outras importantes considerações estatísticas
que
têm