de
ser
equacionadas”,
acrescentou.
“Designadamente a presença de nomes diferentes.”
“O que têm eles de especial?”
“Esses nomes têm muito que se lhes diga”, notou o
anfitrião. “E, claro, há ainda a questão do ADN.”
Tomás pareceu ainda mais admirado.
“ADN? Qual ADN?”
O presidente da fundação sorriu, sabendo muito bem que
se aprestava a largar o seu mais forte trunfo.
“Não sabia?”, exclamou com fingida surpresa. “Foi
detectado material genético no ossário 80/503.”
“O quê?”
O pasmo estampado no rosto do académico português, e
também na face dos dois polícias que acompanhavam a
conversa, era absoluto, o que encheu Arkan de um imenso
sentimento de satisfação. Acabara de jogar o jackpot
dos jackpots.
“Nós recolhemos o ADN de Jesus.”
LXV
O vulto negro do “electricista” irrompeu pela
antecâmara do santo dos santos. Apanhado de surpresa, o
homem que guardava a porta blindada ergueu a Uzi e
apontou-a para a entrada, pronto a abrir fogo. Ao
reconhecer o intruso, baixou o cano da arma automática
e suspirou de alívio.
“Ufa!”, bufou. “Você pregou-me um susto! O que está
aqui a fazer? Não me diga que se perdeu outra vez!...”
Sicarius trazia na mão um pequeno invólucro cilíndrico
amarelo, semelhante ao dos insecticidas. Esticou o
braço e, de um ângulo que a lente não captava, apontou-
o para a câmara de vigilância fixada no tecto.
“A avaria é aqui”, disse num registo tranquilo, como se
fizesse aquilo todos os dias.
“É para resolver agora.”
Sem perceber muito bem o que se passava, o guarda viu-
-o premir o botão do pequeno cilindro e observou o
spray cobrir de tinta negra a câmara de vigilância,
obscurecendo por completo a lente.
“Que é isto?”, quis saber, de olhos fixos na câmara, a
tentar compreender o procedimento. “Que fez à lente?”
Sem que se apercebesse do que lhe acontecia, sentiu-se
rodopiar, viu tudo a andar à roda e, quando deu por
ela, estava estendido no chão e tinha o intruso em cima
dele. Tentou virar a arma para o atacante, mas a Uzi
foi-lhe de imediato arrancada, o mesmo acontecendo com
o intercomunicador.
“Que está a fazer?!”, exclamou, atarantado.
“Enlouqueceu?”
Tentou rebolar pelo chão, num primeiro esforço para se
libertar.
“Largue-me!”
O segurança deu consigo totalmente encarcerado pelos
braços de Sicarius e, por mais que se contorcesse, não
se conseguia livrar daquele aperto férreo. Percebeu que
o seu agressor devia ter um treino avançado de judo ou
de luta greco-romana, porque parecia conhecer todas as
maneiras de imobilizar um adversário.
“Quieto!”, soprou-lhe Sicarius ao ouvido. “Não te
mexas!”
Paralisado já o guarda se encontrava, e decerto que não
por vontade própria. Pensou que a qualquer momento
deveria receber ajuda da central de segurança, mas de
imediato se lembrou de que o atacante havia regado de
tinta negra a câmara de vigilância e percebeu então
aquele primeiro movimento com o spray. A lente fora
tapada e a central ia pensar que se tratava de uma mera
avaria. Ou seja, estava entregue a ele mesmo; ninguém
viria a correr para o ajudar.
“O que quer?”, perguntou, alarmado por se encontrar
inteiramente à mercê daquele intruso possante. “Porque
está a fazer isso?”
Sicarius mantinha os lábios colados ao ouvido direito
do guarda.
“Dá-me a senha”, sussurrou num registo assustadoramente
sereno. “Preciso de entrar lá dentro.”
“Você está louco? Quer entrar no Kodesh Hakodashim?”
“A senha.”
O guarda abanou a cabeça furiosamente.
“Não sei!”, exclamou.
“Só o presidente é que a tem. Eu limito-me a fazer a
guarda à porta.”
Sentiu o agressor mexer um braço e, instantes depois,
viu a ponta de uma enorme lâmina dançar-lhe à frente
dos olhos.
“A senha.”
“Já lhe disse que não sei!”, berrou de volta. “Sou
apenas o guarda!”
Com um movimento brusco, Sicarius pegou na sua vítima e
endireitou-a à bruta, obrigando-a a sentar-se. Puxou a
corda que trazia à cintura e amarrou o tronco do homem,
imobilizando-lhe também os braços.
Uma vez o guarda fora de acção, ergueu-se e foi até à
porta. Verificou que havia uma chave na fechadura e
rodou-a, trancando o acesso à antecâmara. Depois foi
buscar uma cadeira e fixou-a contra o puxador,
reforçando assim o bloqueio da entrada. Recuou dois
passos e contemplou o trabalho. A porta não ficara
blindada e poderia ser arrombada por alguém que
estivesse mesmo determinado a entrar ali. Todavia, para
as considerações práticas que tinha em mente, aquele
dispositivo
garantia-lhe
a
tranquilidade
de
que
precisava.
Voltou para junto do seu prisioneiro e olhou-o de cima
para baixo, a sica a dançar-lhe nas mãos.
“Não te volto a perguntar mais nenhuma vez”, informou-
o, apontando para a porta blindada que dava acesso ao
Kodesh Hakodashim.
“Qual é a senha para entrar ali dentro?”
“Já lhe disse que não sei”, devolveu o guarda num tom
de desafio. “Eu limito-me a fazer a segurança.”
Sicarius tirou um rolo branco do bolso das calças e
esticou um pedaço, que cortou com a adaga. Era uma fita
adesiva. Aproximou a fita do rosto do prisioneiro e
colou-a à boca, amordaçando-o. O guarda deixou de poder
falar. A seguir empurrou-o com o pé, forçando-o a
deitar-se de novo, e inclinou-se para lhe agarrar no
pulso, que espreitava por baixo das cordas.
Puxou o pulso com força e obrigou-o a assentar a mão no
chão, a palma para baixo. Depois aproximou a sica do
dedo mindinho e premiu com força. O guarda começou a
gemer e a espernear, mas não tinha modo de se libertar
nem de gritar. Sicarius fez movimentos rápidos para
serrar e o sangue jorrou pelo chão com esguichos
sucessivos.
“Hmm!”, vagiu o segurança, os olhos esbugalhados na
loucura da dor. “Hmmm!”
Em alguns segundos o dedo estava amputado. A vítima
arrulhava em desespero, os olhos injectados, a
respiração ofegante e gotas de transpiração a banharem-
-lhe a face, mas os sons que emitia eram abafados pela
fita adesiva que lhe selava a boca. O agressor aguardou
uns instantes, deixando o homem acalmar-se e recuperar
o fôlego, até que o encarou com um olhar gelado.
“A senha?”
O homem fitou-o nos olhos e hesitou em dar a resposta.