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Sicarius não esperou. Voltou a espalmar a mão

ensanguentada contra o chão e pousou a lâmina sobre o

polegar. A vítima recomeçou a gemer e a espernear em

desespero, sabendo demasiado bem o que aí vinha, e o

agressor fitou-o de novo nos olhos.

“Vais-me dar a senha ou vou ter de te cortar todos os

dedos desta mão, depois os da outra, e depois os dos

pés? Como é que preferes?”

O guarda pôs-se a fazer que sim com a cabeça, como se

tivesse decidido falar. Sicarius pegou na borda da fita

e arrancou-a com um movimento brusco.

“Agh!”, gemeu o homem. “Preciso de... ajuda médica.”

Arfou.

“Por favor!...”

“A senha?”

O homem suspirou e, sabendo que não tinha alternativas,

o coto ensanguentando do dedo a menear-se no ar e o

rosto a contorcer-se de dor, revelou o segredo que

permitiria ao intruso abrir a porta blindada e violar a

santidade do Kodesh Hakodashim.

LXVI

As expressões alteradas do rosto dos três visitantes

que se encontravam no interior do Kodesh Hakodashim

espelhavam com o rigor de um espelho a estupefacção que

deles se apoderara quando Arpad Arkan lhes fez a

revelação.

“Havia material genético nos ossários de Talpiot?”

O presidente da fundação assentiu com entusiasmo, um

brilho de excitação infantil a cintilar-lhe nos olhos.

“Extraordinário, não é?”

Tomás encarou os seus companheiros, quase atordoado.

Tudo aquilo lhe parecia demasiado incrível para ser

verdadeiro, e os dois polícias mostravam-se igualmente

surpreendidos.

“Mas... mas... é possível?”

O sorriso de Arkan transformou-se numa risada alegre.

“Então não é? Se conseguimos extrair ADN dos espécimes

de mamutes e de homens de Neandertal com trinta mil

anos, por que razão não haveremos de obter material

genético de pessoas que morreram há apenas dois mil

anos? Não se esqueça do que nos disse o professor

Hammans há pouco. Nas temperaturas mais quentes, o ADN

sobrevive uns cinco mil anos. Ora os ossários de

Talpiot são bem mais recentes do que isso!...”

O historiador experimentou a estranha sensação de

sonhar acordado. Aquilo parecia-lhe uma coisa surreal.

Respirou fundo e fez um esforço para reordenar a mente

e pensar com clareza.

“Está bem, vocês detectaram ADN no ossário 80/503”,

registou, discorrendo em voz alta para benefício dos

companheiros mas também para facilitar o seu próprio

raciocínio. “E então? O que interessa isso se ninguém

tem certeza alguma sobre a identidade da pessoa cujos

ossos foram aí depositados?”

Mas Arkan não parecia alimentar a menor dúvida a esse

respeito.

“É Jesus de Nazaré.”

“Como pode afirmar tal coisa com essa certeza?”,

contestou o historiador.

“Como acabámos de ver, a hipótese de o Yebosbua bar

Yebosef referenciado no ossário ser o nosso Jesus,

filho de José, é de uma em mil! Parece-me uma taxa de

probabilidade baixíssima!”

O seu interlocutor levantou a mão.

“Seria, se não se desse o caso de haver outros ossários

na mesma câmara”, sublinhou. “E esses ossários têm

nomes de figuras que os Evangelhos associam a Jesus de

Nazaré. E é aí que o cálculo de probabilidades se

altera significativamente.”

“Figuras associadas a Jesus? Do que está o senhor a

falar?”

O anfitrião folheou o dossiê que havia pousado na mesa

diante dele e imobilizou-se na segunda folha. Tal como

a anterior, esta página continha um número de

referência e uma fotografia com o pormenor de uma

inscrição num ossário.

“Comecemos pelo 80/505”, sugeriu Arkan. “Este ossário

regista o nome Marya em caracteres hebraicos. Parece-

lhe familiar?”

“Não tem de ser necessariamente a mãe de Jesus”,

argumentou o historiador, analisando a inscrição.

“Creio que Maria era também um nome muito comum na

época...”

“Na verdade, tratava-se do nome feminino mais usado

naquele tempo. Em trezentas e vinte e oito referências

foram registadas setenta Maryam, nome hebraico que, na

sua versão latina, se pronunciava Maria ou Marya.”

Tomás fez a conta de cabeça.

“Isso dá... deixe cá calcular a percentagem... cerca de

vinte por cento de mulheres chamadas Maria. Está a ver?

É muita Maria!”

“É verdade que sim. Vinte por cento das mulheres judias

eram Maryam. Mas o Novo Testamento refere-se à mãe de

Jesus sempre como Maria, não Maryam. E qual o nome que

aparece neste ossário? Marya. É no mínimo perturbador,

há-de reconhecer.”

Arkan virou para a terceira folha, também com um número

de referência e a fotografia de uma outra inscrição.

“Vejamos agora o ossário 80/504”, sugeriu. “Tem

inscrito o nome Yose. Como sabe, trata-se de um

diminutivo de Yebosef. Yose está para Yehosef como Zé

está para José.”

“De facto...”

O historiador fez um gesto enfaticamente negativo com a

mão.

“Não pode ser o pai de Jesus!”, sentenciou com grande

convicção. “Os Evangelhos apenas mencionam José na

infância de Jesus, o que nos leva a presumir que ele

morreu cedo.”

“E então?”, questionou o presidente da fundação.

“Não se esqueça de que Talpiot é um sepulcro secundário

para ossos. O que impedia os familiares de transferirem

os ossos de José para o mausoléu privado da família com

vista para o Templo? Aliás, é até natural que o

fizessem, se acreditassem realmente que o dia do juízo

final estava iminente! Ou acha impossível?”

O português ponderou a possibilidade.

“Tem razão”, admitiu, vergado pela força do argumento.

“Se a família de Jesus mandou construir um sepulcro

secundário, o mais natural é que trasladasse os ossos

do patriarca para lá, sobretudo se pensasse que isso

ajudaria a manter todos os familiares unidos quando

ressuscitassem para o juízo final.”

“Outra hipótese é tratar-se de outra pessoa ligada a

Jesus”, considerou Arkan. “Leia-me aí, por favor, o

versículo 6:3 de Marcos.”

Tomás abriu o exemplar da Bíblia que tinha nas mãos e

localizou o trecho.

‘“Não é Ele o carpinteiro filho de Maria e irmão de

Tiago, de José, de Judas e Simão?”’

Levantou os olhos.

“Está a insinuar que o Yose de Talpiot poderá ser José,

irmão de Jesus?”

“Porque não? Embora Yehosef, ou José, seja um dos nomes