mais comuns da época, o facto é que a inscrição Yose é
anormal. Trata-se do único caso em que um ossário da
época apresenta este diminutivo de Yehosef.”
Exibiu dois dedos.
“O que nos dá dois familiares de Jesus chamados José. O
pai e o irmão. O ossário 80/504 podia perfeitamente
pertencer a qualquer deles.”
“Hmm”, anuiu o historiador.
“E os outros ossários?”
Os dedos de Arkan procuraram a quarta folha do dossiê.
Mais uma referência, mais uma fotografia com uma
inscrição.
“Temos o ossário 80/500”, indicou o anfitrião. “A
inscrição regista Mariamnu eta Mara.”
Cravou os olhos no seu interlocutor.
“Sabe o que isso quer dizer?”
Tomás acenou afirmativamente com a cabeça e contraiu as
pálpebras enquanto perscrutava a imagem, ponderando as
implicações suscitadas por aquela inscrição.
“Essa dá que pensar”, reconheceu. “Mariamnu é uma
espécie de declinação de Mariamne, versão grega de
Miriam,
ou
Maria.
Mariamnu
eta
Mara
significa
literalmente de Maria, conhecida por Senhora. Senhora,
no sentido de dona ou patroa.”
O anfitrião mirou-o com a sombra de um sorriso
desenhada nos lábios, sempre como alguém que sabia de
antemão a resposta às perguntas que fazia.
“Conhece alguém nas Escrituras que seja referido por
esse nome, Mariamne?”
O historiador folheou pensativamente a Bíblia que lhe
pesava nas mãos. Aquele grosso exemplar continha o
Antigo Testamento, o Novo Testamento, os escritos
apócrifos e centenas de páginas de anotações e
comentários. Procurou o índice e passou os olhos pelos
títulos dos diversos textos.
“Por acaso, sim”, acabou por dizer.
“Mas não nos manuscritos canónicos.”
Apontou para um dos títulos assinalados no índice.
“O nome Mariamne aparece aqui nos Actos de Filipe, um
texto apócrifo sobre a vida do apóstolo Filipe.”
Indicou outro título.
“E também em fragmentos gregos do Evangelho segundo
Maria Madalena. Isto para não falar em textos antigos
de Orígenes e Hipólito, que se referiram a Mariamne.”
“Nesses textos todos, quem era essa Mariamne?”
Evitando responder directamente à pergunta, Tomás
sacudiu a cabeça em negação.
“Não, não pode ser!”, exclamou. “Isso já me parece uma
fantasia desenfreada! Não é possível!”
“Diga lá”, insistiu Arkan. “Quem é a Mariamne que
aparece nos apócrifos e nos textos de Orígenes e de
Hipólito?”
O académico deixou descair os ombros e rendeu-se. Se
lhe faziam uma pergunta directa e pertinente, com que
direito podia evitar a resposta, por fantástica que
parecesse?
“Maria de Magdala”, disse com uma certa relutância.
“Também conhecida por Maria Madalena.”
Um brilho de triunfo perpassou pelo rosto do presidente
da fundação.
“É curioso, não é?”
“Não quer dizer nada!”, cortou Tomás. “Os manuscritos
apócrifos não foram escritos por pessoas que conheceram
Jesus. A esmagadora maioria desses textos é do século
II ou do século III. Com excepção talvez do Evangelho
segundo Tomé, a informação que consta nos apócrifos não
é fidedigna.”
“É verdade”, aceitou Arkan.
“Mas também é um facto que esses escritos usavam por
vezes tradições que lhes chegavam. O uso do nome
Mariamne em referência a Maria Madalena podia ser uma
dessas tradições.”
“Admissivelmente. E então?”
Em resposta, os olhos do anfitrião pousaram na Bíblia
que dançava nervosamente nas mãos do seu interlocutor.
“Esse exemplar contém os textos apócrifos, não é
verdade? Leia-me aí o Evangelho segundo Filipe,
versículo 32.”
Tomás dedilhou as páginas e localizou o trecho.
“‘Havia três que caminharam com o Senhor: Mafia, sua
mãe e sua irmã e Madalena, a quem chamavam sua amante.
Uma Maria era sua irmã e sua mãe e sua amante.’”
“E agora o versículo 55.”
“‘A consorte de Cristo é Maria Madalena. O Senhor
amava-a mais do que a todos os discípulos e beijava-
a.’”
“Finalmente, o Evangelho segundo Maria Madalena”, pediu
Arkan. “Leia o versículo 5:5, que cita palavras de
Pedro a Maria Madalena.”
O historiador saltou algumas páginas até encontrar o
texto apócrifo que lhe era indicado.
“‘Sabemos que o Senhor te amava mais do que às outras
mulheres.’”
As sobrancelhas felpudas de Arkan movimentaram-se para
cima e para baixo, como se elas próprias falassem.
“Curioso, hem?”
Tomás encolheu os ombros.
“A única coisa que isto prova é que havia muita boata-
ria a propósito da relação entre Jesus e Maria
Madalena”, sentenciou.
“Mas não há nada de historicamente fiável. É verdade
que Marcos e Lucas referem que Jesus era acompanhado
por mulheres nas suas viagens. Algumas delas pareciam
abastadas e ajudavam-no, como era o caso da Maria
oriunda de Magdala, uma aldeia piscatória junto ao Mar
da Galileia, por isso designada Maria Magdalena, ou
Maria Madalena.
Lucas diz em 8:3 que ela servia Jesus ‘com os seus
bens’.
Em parte alguma é ela aliás referida como prostituta,
reputação que só ganhou no século VI pela boca
maledicente do papa Gregório.
Os quatro evangelhos canónicos referem que as mulheres
foram
os
únicos
seguidores
que
assistiram
à
crucificação e que se mantiveram fiéis a Jesus até ao
fim, tendo sido elas quem deu pela falta do corpo. No
entanto, nenhum dos textos mais antigos menciona que
Jesus fosse casado ou tivesse qualquer amante.”
“Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo disse que os
irmãos de Jesus e os apóstolos eram casados”,
argumentou Arkan. “Além disso, ao recomendar que os
fiéis mantivessem o celibato, Paulo deu o seu próprio
exemplo, mas não o de Jesus. Se Jesus fosse solteiro,
decerto daria o exemplo do Messias, que tinha ainda
maior autoridade do que o seu. Porque não o fez?
Saberia que não era solteiro?”
“Isso é pura especulação”, sublinhou o historiador.
“O facto é que em parte alguma está escrito que Jesus
casou.”
“No entanto, o sepulcro de Talpiot inclui o ossário de
Mariamne, identificada nos Actos de Filipe, no
Evangelho segundo Maria Madalena e nos textos de
Orígenes e Hipólito como Maria Madalena.”
O historiador fez uma careta.