“Coincidência, decerto.”
“Mais ainda, este ossário com o nome Mariamne foi
encontrado ao lado do ossário com o nome Jesus, filho
de José, como se faz quando se põe marido e mulher lado
a lado num cemitério.”
“Outra coincidência.”
Arkan sorriu, o olhar carregado de ironia.
“Já estamos a contabilizar demasiadas coincidências”,
observou, folheando o dossiê em busca da fotografia
seguinte.
“A próxima coincidência é a do ossário 80/501,
pertencente a Yehuda bar Yehoshua. Pode traduzir-me
esse nome, por favor?”
Tomás verificou a inscrição que constava na imagem.
“Judas, filho de Jesus.”
“Curioso, não é?”
“Nenhum dos evangelhos canónicos refere que Jesus tenha
tido um filho”, lembrou Tomás.
“Nem um.”
“Os Evangelhos são peças de teologia, como muito bem
sabe”, contrapôs o presidente da fundação.
“Não dizem tudo. Dizem apenas o que interessava aos
seus autores para convencer os seguidores de Jesus a
manterem a fé.”
“É verdade”, concordou o historiador. “O facto de não
haver referências nos Evangelhos a um filho de Jesus
não significa que ele não existisse. Mas também não
significa que existisse. A verdade é que sobre isso
nada sabemos.”
“Assim é”, concordou Arkan. “Finalmente, o ossário
80/502 está referenciado com o nome Matya, ou Mateus.”
Exibiu a imagem que constava do dossiê.
“Está a insinuar que se trata do ossário do apóstolo?”
“Não estou a insinuar nada”, sublinhou o anfitrião.
“Este nome aparece no sepulcro de Talpiot. Haveria
algum Mateus na família de Jesus? Tal como no caso de
um eventual filho, os Evangelhos são omissos em relação
a isso.
Sugiro portanto que descontemos estes dois nomes, Judas
e Mateus.
Onde é que isso nos deixa?”
“Deixa-nos num sepulcro repleto de nomes comuns naquela
época”, constatou Tomás, desvalorizando o achado.
“Se tirarmos o Judas e o Mateus, ficamos com quatro os-
sários, dois referentes a duas Marias, uma delas na
versão helenizada de Mariamne, um José e um Jesus,
filho de José. Acontece que a Palestina do século I
está cheia de pessoas chamadas Jesus, José e Maria.”
“É verdade”, reconheceu o anfitrião. “Mas há um outro
nome a acrescentar a esses.”
“Qual?”
“Lembra-se de eu ter dito que foram encontrados dez
ossários em Talpiot, mas um deles desapareceu?
Uns anos mais tarde surgiu um ossário que fez sensação
devido a uma inscrição em aramaico a registar Ya’akov
bar Yehosef akhui di Yeshua.” Arqueou as sobrancelhas
lanzudas.
“Sabe traduzir isto, não sabe?”
“Jacob, filho de José, irmão de Jesus.”
“Jacob era o nome original. Com o tempo, latinizou-se
no Ocidente e transformou-se em Tiago.”
Tomás fez um esforço de memória.
“Tenho ideia disso”, disse.
“Mas esse achado não foi considerado uma fraude?”
“Essa foi a acusação feita pela Autoridade das
Antiguidades de Israel, mas não teve acolhimento em
tribunal”, disse Arkan.
“Ao contrário dos ossários de Talpiot, de autenticidade
inquestionável, o ossário de Tiago não possuía origem
arqueológica certificada. O seu dono dizia que o
ossário havia sido encontrado em Silwan, um subúrbio de
Jerusalém, mas não apresentou provas.
A Autoridade das Antiguidades de Israel nomeou uma
equipa de quinze peritos para analisar a descoberta.
Os peritos concluíram que o ossário era genuíno e que
parte da inscrição, a que diz Tiago, filho de José, era
igualmente genuína, mas a outra parte, irmão de Jesus,
era provavelmente uma falsificação, uma vez que
suspeitavam que a pátina tinha sido implantada
fraudulentamente
nessa
parte
da
inscrição.
O
proprietário foi detido por fraude.”
“Ah! Isso invalida o ossário!...”
“Calma”, pediu o anfitrião, indicando que a história
não tinha chegado ao fim. “Acontece que mais tarde,
durante o julgamento, o proprietário confessou ter
roubado o ossário do lote encontrado em Talpiot. De
resto, as análises aos vestígios de terra rossa do
ossário de Tiago eram iguais às da terra rossa dos
ossários de Talpiot e a assinatura das pátinas também
apresentava semelhanças perturbadoras. Já comparações
semelhantes com ossários oriundos de outros locais
fracassaram. Além disso, as dimensões do ossário de
Tiago correspondiam grosso modo às medições feitas
pelos arqueólogos ao décimo ossário de Talpiot, antes
de ele ter desaparecido, embora ninguém se lembre de
ver lá qualquer inscrição.
O julgamento durou cinco anos.
Após mais de cem sessões e de se escutarem umas cento e
trinta testemunhas, um perito da Universidade de
Telavive admitiu que a pátina sobre o nome de Jesus não
tinha sido falsificada e o veredicto do caso ficou
selado.
A sentença, lida em Outubro de 2010, ilibou o dono do
ossário de ter forjado a inscrição.”
Tomás cruzou os braços e assobiou de modo apreciativo.
“E esta?”, admirou-se.
“Isso significa então que o décimo ossário de Talpiot
era mesmo o de Tiago, filho de um José e irmão de um
Jesus. Qual a popularidade do nome Ya’akov entre os
judeus do século I?”
“Baixa”, indicou Arkan com um brilho nos olhos.
“Na casa de um por cento.”
Fechou o dossiê e arrumou-o na gaveta.
“Contactámos peritos em estatística e eles disseram-
-nos que, ao contrário do que possa parecer à primeira
vista, a conjugação de todos estes nomes num único
sepulcro é extremamente rara.”
O português esboçou uma expressão de surpresa.
“Rara como? Pois se a maior parte são nomes comuns!...”
“A raridade está em reunir estes nomes todos num único
sepulcro e em eles terem relação com figuras centrais
do Novo Testamento.
Repare que temos aqui Jesus, José, Maria, Mariamne e
Tiago.
Mais ainda, Jesus e Tiago aparecem ambos explicitamente
referenciados com a expressão filho de José, e Tiago
aparece ainda identificado como irmão de Jesus, o que
coincide com a informação de diversas fontes diferentes
do século I, como os Evangelhos, as epístolas de Paulo
e os textos de Josefo a estabelecer que Jesus de Nazaré
teve um pai chamado José, uma mãe chamada Maria e um
irmão chamado Tiago.
Mais ainda, é muito raro um ossário referenciar alguém
como irmão de alguém.
Só se conhece mais um caso desses.
O facto de o ossário de Tiago o identificar como irmão
de Jesus só é possível se esse irmão, Jesus, for alguém
de grande notoriedade. Assim sendo, pedimos aos
matemáticos especializados em análise estatística que
fizessem um cálculo profissional da possibilidade de,
no caso do sepulcro de Talpiot, estarmos perante os
restos mortais de Jesus de Nazaré e da sua família.
Tendo por base toda a população masculina de Jerusalém
ao longo do século I e a taxa de incidência de cada um
destes nomes no universo total de ossários, mais a
relação entre eles, os matemáticos chegaram a um número
a que chamaram P factor, ou factor de probabilidade. Um
em trinta mil.”