matemáticos especializados em análise estatística que
fizessem um cálculo profissional da possibilidade de,
no caso do sepulcro de Talpiot, estarmos perante os
restos mortais de Jesus de Nazaré e da sua família.
Tendo por base toda a população masculina de Jerusalém
ao longo do século I e a taxa de incidência de cada um
destes nomes no universo total de ossários, mais a
relação entre eles, os matemáticos chegaram a um número
a que chamaram P factor, ou factor de probabilidade. Um
em trinta mil.”
O valor não deixou Tomás impressionado.
“Uma hipótese em trinta mil de se tratar de Jesus de
Nazaré? Não me parece grande coisa...”
Arkan soltou uma gargalhada e abanou a cabeça.
“Não”, corrigiu-o ainda a rir. “Uma hipótese em trinta
mil de não se tratar de Jesus de Nazaré. Ou, se
preferir, vinte e nove mil novecentas e noventa e nove
hipóteses em trinta mil de ser o nosso Jesus!”
O historiador arregalou os olhos.
“O quê?”
“O sepulcro de Talpiot é o sepulcro de Jesus.”
O presidente da fundação falava com absoluta convicção.
Sem saber que argumentos invocar para contrariar essa
conclusão, Tomás cruzou o olhar com os dois polícias,
que acompanhavam toda a conversa em silêncio, e
percebeu que dali não viria ajuda; aquela não era
decididamente a especialidade deles.
Em boa verdade, interrogou-se, precisava de ajuda para
quê? O sepulcro de Talpiot havia sido vistoriado por
arqueólogos profissionais poucas horas depois da sua
descoberta, em 1980. Nove dos seus dez ossários foram
remetidos directamente para os armazéns da Autoridade
das Antiguidades de Israel e nunca de lá saíram. Isto
garantia que o sepulcro não era nenhuma fraude, coisa
que de resto ninguém alguma vez sequer insinuara.
A única questão em debate era determinar se o ossário
com o nome de Jesus, filho de José e os ossários com os
nomes de José e de Tiago, filho de José, irmão de Jesus
e os dois a referenciar Maria pertenciam ou não a Jesus
de Nazaré e à sua família.
Os matemáticos fizeram as contas aos diversos factores
envolvidos e, com elevadíssimo grau de probabilidade,
haviam concluído que sim.
O que percebia ele de estatística? Com que direito
questionava essa conclusão dos matemáticos?
De facto, se Jesus não ressuscitou fisicamente, o seu
corpo teria por força de ser enterrado nas redondezas.
Que a família ou os seus seguidores tivessem pago por
um sepulcro com vista para o Templo, onde acreditavam
que Deus estava prestes a instalar-se para estabelecer
o Seu reino, era uma coisa que se lhe afigurava
absolutamente natural. Provável até. Assim sendo, qual
era a dúvida?
“O ADN”, disse de repente para o seu anfitrião. “Ainda
não nos explicou essa história do ADN.”
“O que quer saber?”
“Tudo!”, pediu.
“A começar pelo essencial, claro. Onde estão essas
amostras?”
“Aqui.”
“Aqui, onde? Em Israel?”
Arpad Arkan indicou com as mãos o espaço em redor.
“Aqui mesmo”, insistiu. “Nesta câmara.”
Os três visitantes voltaram a cabeça em todas as
direcções, surpreendidos com a revelação.
“Como?”
O espanto dos convidados arrancou um sorriso luminoso
ao presidente da fundação, invadido por um sentimento
de alegria genuína.
Arkan voltou-se para o grande congelador protegido pelo
emaranhado de luzes vermelhas e digitou um código no
teclado assente num pequeno pilar ao lado da porta. Os
fios de luz desligaram-se de imediato, desfazendo o
dispositivo exterior de segurança.
O anfitrião meteu a mão na porta do congelador e abriu-
-a. Do interior foi exalada uma nuvem de vapor gelado
que, ao desfazer-se, revelou uma pequena caixa de vidro
com um tubo de ensaio lá dentro. A fechadura da caixa
continha um teclado miniatura com dez algarismos.
“Estamos no santo dos santos”, lembrou.
“Eu não vos tinha dito que Deus se encontrava
fisicamente neste lugar?
Quem é Jesus, na teologia cristã, senão Deus em carne?
Se Jesus é Deus, e se temos aqui guardado o ADN de
Jesus, isso significa que Deus se encontra fisicamente
nesta câmara.”
O presidente da fundação digitou o número de código e,
acto contínuo, a caixa de vidro emitiu o característico
som digital de uma fechadura electrónica a destrancar.
Bip.
LXVII
Bip.
A mensagem apareceu de repente no ecrã do pager. Era
esperada havia já algum tempo. Sicarius deteve o olhar
nela durante
dois
longos
segundos,
de
modo
a
certificar-se de que tinha visto bem. Não havia
dúvidas. O mestre acabara realmente de lhe dar a ordem
final.
Atacar.
O assaltante inseriu no teclado a senha que o guarda
lhe havia fornecido após o interrogatório sangrento.
Com um suave bip electrónico, a fechadura destrancou-se
e a porta blindada que dava acesso ao Kodesh Hakodashim
abriu-se enfim. O ar glacial do interior da câmara
embateu no rosto de Sicarius e envolveu-lhe o corpo,
colhendo-o de surpresa.
“Brrr!”, tiritou. “Que gelo!”
Virou a cabeça para trás e observou, para lá da porta
entreaberta do armário, os escafandros pendurados em
cabides. Deveria vestir um deles? Sentiu-se tentado,
pensou até que seria a atitude mais avisada, dado o
frio que vinha do santo dos santos, mas acabou por
abanar a cabeça negativamente.
Não, decidiu. Iria despender uns dois minutos a meter-
se no escafandro e o mestre dera-lhe a ordem para
atacar já.
Não tinha tempo a perder. Havia que entrar, localizar o
alvo e actuar. Nada mais interessava. Tinha uma missão
para levar a cabo e executá-la-ia.
A hora chegara.
Retirou a sica do cinto e deu um passo, uma mão a
empurrar a superfície glacial da porta blindada.
Em pose felina, espreitou para o interior da câmara e
estudou o espaço imediatamente à sua frente. Apesar de
todo o equipamento sofisticado e dos armários visíveis
à entrada do santo dos santos, não vislumbrou por ali
vivalma. Tudo parecia silencioso e aquele sector da
câmara apresentava-se deserto, o que o tranquilizou.
“Perfeito!”, murmurou.
“Ele é de facto um génio! Pensou em tudo!”
A actuação do mestre parecia-lhe engenhosa. Decerto
arrastara toda a gente para outra área de câmara, de
modo a deixar-lhe a via aberta para entrar e montar a
cilada.
Com o espaço imediatamente depois da entrada no Kodesh
Hakodashim assim deserto, Sicarius poderia penetrar na
câmara sem obstáculos. Estavam desse modo reunidas