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todas as condições para avançar, embora sempre com

cautela, emboscar-se na melhor posição e surpreender o

alvo.

Lançou um derradeiro olhar para trás, certificando-se

de que deixara as coisas no seu respectivo lugar e nada

esquecera. No tecto, a câmara de vigilância permanecia

com a lente coberta de tinta negra e na parede

encontrava-se a caixa que comandava o sistema de

segurança

do

santo

dos

santos,

devidamente

neutralizado.

A porta de acesso à antecâmara estava trancada e com

uma cadeira a bloquear a fechadura. No chão jazia o

corpo inerte do guarda, a garganta rasgada pela adaga

sagrada, a mancha de sangue vermelho-escuro a começar a

secar sobre o piso. Ou seja, Sicarius deixava tudo como

devia ser.

Cheio de confiança, deu dois passos e deixou a porta

blindada encerrar-se automaticamente atrás dele.

A armadilha fechara-se.

LXVIII

O produto dentro do tubo de ensaio parecia líquido e

exibia uma cor amarelo-esbranquiçada. Manejando o tubo

quase com reverência, Tomás ergueu-o contra a luz de

uma lâmpada e inclinou-o devagar para ver como a

substância no seu interior se comportava. Manteve a

mesma forma, indício de que tinha solidificado no

congelador.

“Diz o senhor que aqui dentro está material genético?”,

perguntou Tomás num murmúrio fascinado.

“E é o ADN de... de Jesus?”

Os olhos subjugados de todos os presentes fixavam o

tubo de ensaio e a estranha substância no seu interior.

“Exacto.”

As luzes da lâmpada atravessavam o produto congelado,

cintilando numa miríade de estrelas minúsculas, como se

o tubo contivesse de facto a centelha divina.

“É incrível!”

Os dois polícias estenderam as mãos, também queriam

pegar no tubo de ensaio, mas Arpad Arkan antecipou-se e

arrancou-o das mãos do historiador.

“Cuidado!”, disse. “O ADN é delicado.”

Ninguém conseguia descolar os olhos da substância

congelada no interior do tubo; parecia que ela os

dominava a todos como o pêndulo de um hipnotizador.

“Como foi possível?”, interrogou-se Tomás.

“Como conseguiram vocês extrair ADN do ossário?”

O anfitrião levantou pela primeira vez o olhar do tubo

e sorriu; aquela história era das que gostava de

contar.

“Lembram-se de vos ter dito que foi detectada pátina

nos ossários?”

“Claro”, anuiu o historiador. “A pátina é um composto

químico com que os arqueólogos lidam frequentemente.

Chamam-lhe verdete e parece que protege os metais da

corrosão. E então?”

“A pátina cresce em camadas e funciona de facto como

uma concha protectora.

Acontece que, se se tornar suficientemente grossa, pode

preservar traços de ossos e de sangue seco.”

“Foi aí que encontraram o ADN?!”

O olhar de Arkan irradiava luz.

“Nem mais!”, exclamou.

“Os primeiros investigadores detectaram restos de

tecido de mortalha nas pátinas situadas no fundo dos

ossários referenciados com os nomes Yehoshua bar

Yehosef e Mariamn-u eta Mara. A mortalha continha

vestígios de fluidos corporais internos e lascas de

ossos, as maiores das quais não excediam o tamanho de

unhas. Este material foi enviado para um laboratório no

Canadá especializado em ADN antigo, sem que se

explicasse a sua origem para não condicionar os

resultados. Os técnicos do laboratório estudaram os

vestígios e acharam-nos muito secos e pequenos.

Processaram as amostras numa câmara semelhante a esta,

onde só se pode trabalhar com escafandros, e concluíram

que o ADN estava muito danificado.

Não se conseguiu extrair material genético do núcleo

das células, pelo que os peritos se concentraram antes

no ADN mitocondrial, que passa da mãe para os filhos.

O laboratório canadiano teve sucesso na extracção deste

tipo

de ADN,

embora

o

tenha

encontrado muito

fragmentado.

Comparando vários marcadores, os técnicos detectaram

diferenças significativas entre as duas amostras nas

sequências A-T e G-C, ou adenina-timina e guanina-

citosina, indício seguro de poliformismo.”

“O que é isso?”, quis saber Tomás com impaciência.

“Traduza numa linguagem acessível, por favor.”

“Variação genética”, esclareceu Arkan.

“As parelhas A-T e G-C eram diferentes.”

“E então?”

“Os dois indivíduos sujeitos a análise genética não

partilhavam a mesma mãe. Ou seja, não tinham relação de

sangue, pelo menos por via materna. Por isso, se

ocupavam o mesmo sepulcro e os seus ossários foram

encontrados lado a lado, provavelmente seriam marido e

mulher.”

A testa do português contraiu-se num esgar de

incredulidade.

“Como?”, admirou-se.

“O ADN mitocondrial provou que eram marido e mulher?”

“Não, a análise genética apenas provou que não tinham a

mesma origem materna”, esclareceu o anfitrião.

“Que seriam marido e mulher é mera dedução, resultante

da disposição dos ossários no sepulcro de Talpiot.”

“Estou a ver. Mais alguma coisa?”

“Ficou determinado que o ADN mitocondrial de Jesus era

coincidente com o das populações do Médio Oriente.”

Os três visitantes acompanhavam embasbacados a

explicação, a atenção a dançar entre o tubo de ensaio e

Arkan.

“Dio mio!”, exclamou Valentina, quebrando um longo

silêncio.

“Miguel Angelo e todos os pintores enganaram-se!

Jesus não era loiro de olhos azuis!”

“Longe disso.”

“E... e essas análises de ADN? Foram mesmo feitas?”

O presidente da fundação riu-se.

“Acha que estou a inventar?”, perguntou com uma

gargalhada.

“Foram executadas em 2005 no laboratório de Paleo-ADN

da Universidade Lakehead, no Ontário.”

Os olhos de Tomás mantinham-se presos ao tubo de ensaio

que se encontrava nas mãos do seu interlocutor.

“Foi lá que lhe arranjaram essa amostra?”

Arkan fitou o tubo de ensaio.

“Isto?” Girou o tubo de ensaio na mão enluvada.

“Não, esta é outra história.”

“Então onde arranjou essa amostra?”

O anfitrião respirou fundo, exalando uma leve nuvem de

vapor que por momentos lhe embaciou a máscara do

escafandro.

“Depois das primeiras análises feitas no Canadá, a

Autoridade das Antiguidades de Israel manteve os

ossários encerrados no seu armazém em Bet Shemesh”,

explicou.

“Enquanto tudo isto se passava, eu andava ocupado com

projectos relacionados com a paz no Médio Oriente.