O lema da minha fundação, como sabem, é um poema de
Goethe sobre a paz. Só que as coisas nesse campo não
estavam a correr nada bem.
O processo israelo-palestiniano era constantemente
torpedeado de diversas formas e a guerra alastrava pelo
planeta, com os fundamentalistas islâmicos a espalharem
o terror por toda a parte e os Americanos a responderem
às cegas.
Percebi que só um grande golpe de asa permitiria
desbloquear esta situação horrível. Mas o quê? Nada
parecia resultar e a esperança estava perdida.
Até que um dia, encontrava-me eu em casa a ver
televisão, vi um documentário sobre os ossários de
Talpiot.”
“Foi aí que teve a ideia?”
“Não de imediato. Achei as descobertas intrigantes,
claro, e na manhã seguinte, já no final de uma reunião
com os meus colaboradores na fundação, a conversa
derivou para o documentário. Foi então que um dos meus
colaboradores, um cristão, fez uma observação que gerou
um clique na minha cabeça.
E porque não?, pensei eu. De modo que foi assim que
nasceu a ideia.”
“Que ideia?”
“Já lhe explico. O nosso primeiro passo foi tentar
perceber o que se poderia fazer com os ossários.
Pelo que eu tinha visto no documentário, o método de
recolha das amostras para extracção do ADN deixava
muito a desejar.
Nós já tínhamos a funcionar aqui em Nazaré este Centro
de Pesquisa Molecular Avançada.
Na altura o único edifício que existia era o Éden,
montado para pesquisas na área transgénica.
Queríamos desenvolver milho, trigo e outras plantas
geneticamente modificadas de modo a crescerem sem
precisarem de muita água. Sempre me pareceu que uma das
razões para a violência no nosso mundo está relacionada
com a pobreza e a fome, e a produção destes cereais
transgénicos seria um contributo valioso da minha
fundação para alimentar as populações do terceiro mundo
e assim contribuir para a paz entre os homens.”
Arnie Grossman impacientou-se.
“Desculpe, mas o que tem essa história da carochinha a
ver com a descoberta de Talpiot?”
“Tudo”, disse Arkan.
“À frente do Departamento de Biotecnologia do centro já
contávamos com o professor Peter Hammans, o cientista
alemão que vocês conheceram há pouco. Perguntei-lhe se
o novo projecto da fundação era viável. Ele enumerou-me
as dificuldades, mas também me apontou caminhos para
chegar às soluções.
Graças aos meus contactos com o governo israelita,
consegui autorização para visitar o armazém da
Autoridade das Antiguidades de Israel em Bet Shemesh.
Contactei
o
professor
Alexander
Schwarz,
da
Universidade de Amesterdão, que me foi indicado como um
dos melhores arqueólogos do planeta e perito em
arqueologia bíblica, e fui com ele e com o professor
Hammans visitar o armazém.
Chegámos lá e ficámos de boca aberta. Era um depósito
gigantesco, cheio de prateleiras e com mais de mil
ossários, todos eles numerados, datados e empilhados do
chão até ao tecto. Impressionante!”
Tomás ardia de curiosidade.
“Encontraram os ossários de Talpiot?”
“Demos com eles num canto longínquo do armazém,
arrumados em três prateleiras.
As condições de preservação não eram, infelizmente, as
ideais, mas o professor Hammans percebeu que havia mais
fragmentos de ossos conservados no interior das pátinas
e isso constituiu uma excelente notícia, porque
implicava que essas amostras estavam protegidas. O ADN
que flutua naturalmente no ar não as contaminara.
Pegámos no ossário 80/503 e trouxemo-lo aqui para
Nazaré, prometendo devolvê-lo no prazo de uma semana.”
“O 80/503 é o ossário assinalado Jesus, filho de
José...!”
“Correcto.
Levámo-lo para um laboratório esterilizado no Éden e
começámos a extrair os fragmentos protegidos pela
pátina.
Estavam muito secos e, tal como tinha acontecido no
laboratório canadiano, a extracção do ADN do núcleo das
células revelou-se muito difícil.
Andámos meses à volta do problema, até que tivemos um
incrível golpe de sorte. Uma lasca de osso envolvida em
camadas particularmente densas de pátina encerrava duas
células intactas. Era um verdadeiro milagre.
Com grande cuidado, conseguiu-se extrair o ADN dos
núcleos dessas células. Estava quebradiço e apresentava
algumas lacunas, o que constituiu uma grande decepção.”
“Não era possível reconstituir o ADN completo.”
“Esse era de facto o problema. Acontece que o professor
Hammans comparou os marcadores dos dois núcleos e
percebeu que as rupturas e lacunas se encontravam em
pontos diferentes. O que faltava num núcleo, o outro
tinha. A esperança renasceu.
O professor Hammans disse-me que precisávamos de
tecnologia de ponta para, combinando os dois núcleos,
reconstituir todo o ADN ali encerrado. Era difícil e
levaria tempo, mas não era impossível.
Reuni o conselho de sábios da fundação e expliquei-lhes
o projecto. Ele foi aprovado e decidimos usar todos os
recursos ao nosso dispor para alargar a investigação no
nosso Centro de Pesquisa Molecular Avançada à área
animal.
Construímos a Arca em tempo recorde e dotámo-la do
equipamento mais sofisticado que existia, com
laboratórios ultramodernos.
Começámos a fazer clonagem de animais simples, como
salamandras e lagartos. Depois passámos aos mamíferos e
a seguir aos primatas, fase em que nos encontramos
neste momento.”
Valentina franziu o sobrolho.
“Para quê essas pesquisas?”
“Como já lhe expliquei, pretendemos clonar seres
humanos”, disse.
“Será esse o passo seguinte e foi para nos ajudar a
resolver algumas dificuldades técnicas que contratámos
o professor Vartolomeev.”
A italiana fez um gesto largo, a indicar todo o
equipamento em redor.
“Nesse
caso,
este
complexo
serve
para
clonar
pessoas...” O presidente da fundação abanou a cabeça.
“Não. Esse é apenas o passo seguinte.”
“Então o que estão vocês a tentar fazer? Qual é o
objectivo final de todo este exercício?”
A pergunta deixou Arpad Arkan momentaneamente calado.
Por detrás do visor, os seus olhos pequenos, como
pontos negros entre a penugem das sobrancelhas densas,
saltitavam por cada um dos seus interlocutores,
avaliando como iriam reagir à revelação. O anfitrião
ergueu por fim o tubo de ensaio que segurava na mão,
exibindo-o como se fosse um troféu desportivo, e rompeu
a curta pausa.
“Vamos clonar Jesus.”
LXIX
Um zumbido.