Выбрать главу

Tudo o que se ouvia no interior do Kodesh Hakodashim

era

o

zumbido

monocórdico

e

ininterrupto

dos

congeladores e do ar condicionado a funcionar. Sicarius

movia-se com mil cautelas, os sentidos despertos e

atentos ao menor dos sinais, mas aquela zoada monótona

dificultava-lhe a tarefa de localizar o alvo.

“Maldição!”, rosnou entre dentes.

“Onde estão eles?”

O som constituía uma contrariedade que o deixava

enervado, mas não havia nada a fazer e o treino

ensinara-lhe que tinha sempre de se adaptar às

circunstâncias. Esforçando-se por dominar a irritação,

Sicarius internou-se devagar na câmara, o corpo

inclinado para a frente em posição de ataque, os olhos

a varrerem o espaço em busca de ameaças, a sica em

punho, pronta a ser usada.

Fazia um frio incrível, o termómetro na parede

registava um grau Celsius e as narinas do intruso

expulsavam grossas nuvens do vapor; parecia um dragão a

exalar fumo de fúria pelo nariz.

Definitivamente, não viera preparado para aquelas

condições polares e se calhar fizera muito mal em não

ter vestido o escafandro. Nesse momento já era tarde,

sabia; não tinha de se preocupar com nada daquilo. Só a

missão interessava.

Vozes.

Ouviu vozes à distância e quase suspirou de alívio e

satisfação. Aqueles sons constituíam indício seguro de

que a sua presença não havia sido detectada. Além

disso, identificara por fim a posição do alvo.

Assim sendo, dispunha de ampla oportunidade para

escolher o local da emboscada e o momento mais adequado

para atacar. Poderia pedir melhor?

Seguiu a direcção do som da conversa e avançou por um

corredor em passo lento, o olhar a disparar para a

esquerda e para a direita, preocupado com manter-se

invisível.

À medida que progredia ia ouvindo as vozes a crescerem,

cada vez mais próximas, até que vislumbrou o primeiro

vulto.

Imobilizou-se, procurando fundir-se com a penumbra. Deu

um passo cauteloso para o lado e encostou-se a um

armário cheio de ampolas e mergulhado na sombra.

Sentindo-se dissimulado na escuridão, estudou o vulto

com cuidado. Era um escafandro branco, cuja máscara

ocultava

o

rosto,

dificultando

a

identificação.

Decorria por ali uma conversa e, quando o vulto virou a

cabeça para dizer alguma coisa, conseguiu identificá-

lo.

Era o mestre.

Reconfortado por confirmar visualmente a presença do

seu aliado, Sicarius deu uns passos em frente e

procurou uma outra posição igualmente abrigada, mas com

um ângulo mais favorável para observar o que se passava

ali adiante.

Do seu novo abrigo o campo de visão alargou-se.

Detectou outro vulto e percebeu que se tratava do

historiador português. E reconheceu as outras duas

figuras.

Os alvos estavam enfim todos confirmados e encontravam-

-se juntos, o que lhe facilitava a tarefa. Dialogavam

animadamente uns seis metros adiante, junto a uma mesa

e a um frigorífico enorme com a porta aberta, e

pareciam discutir alguma coisa relacionada com uma

ampola congelada que bailava entre os dedos de um

deles.

Era aquilo.

Sicarius pôs-se em posição e preparou-se para lançar o

ataque.

LXX

Não que a revelação fosse totalmente surpreendente para

Tomás.

O historiador já havia juntado as peças do puzzle e

desde que tinha ouvido o professor Hammans explicar as

experiências efectuadas no Centro de Pesquisa Molecular

Avançada que intuía os contornos do verdadeiro projecto

que alimentava aquele complexo científico.

Mesmo assim vacilou, chocado, quando confrontado com a

formulação crua daquela ideia extraordinária.

“Clonar Jesus?”, interrogou-se, atordoado sob o efeito

da revelação.

“Isso é uma loucura!”

Os dois polícias ao lado mal se conseguiam manter

quietos, também eles abalados pela dimensão do que

haviam escutado, mas Arpad Arkan mantinha o seu sorriso

inocente, como se fruísse de toda a perturbação que ele

próprio tinha acabado de suscitar.

“Não vejo porquê.”

O historiador voltou-se para Valentina e Grossman, em

busca de apoio.

“É uma coisa... sei lá, incrível!”

Esboçou uma careta de perplexidade, como se essa fosse

a única maneira de expressar a estupefacção que lhe

tolhia as palavras.

“Jesus clonado? Onde diabo querem vocês chegar com

isso?”

Uma serenidade beatífica enchia a face do anfitrião.

“Lembram-se de eu ter falado num encontro que houve na

fundação depois de ver o documentário sobremos ossários

de Talpiot?

Na altura estávamos muito desanimados com a forma

agreste

como

se

desenrolavam

as

relações

internacionais. O processo de paz israelo-árabe não

atava nem desatava, a Al-Qaeda matava gente por todo o

lado, havia guerras no Iraque, no Afeganistão... eu sei

lá!

Foi nesse quadro depressivo que um dos meus assessores

fez a tal observação que desencadeou um clique na minha

mente.”

“O senhor já falou nisso”, observou Tomás, “mas não

contou o que ele disse.”

“Lembro-me como se fosse hoje. O homem afirmou que, a

julgar pela forma como as coisas se encaminhavam, só

Jesus seria capaz de restabelecer a concórdia no

planeta. Ele estava a gracejar, claro, mas...”

Deixou a frase em suspenso.

“Foi aí que teve a ideia.”

“Foi mesmo aí! Ouvi aquela observação e imediatamente

pensei na descoberta de Talpiot e no ADN que havia sido

encontrado no ossário de Jesus!”

Deu uma palmada na cabeça, como se reproduzisse assim o

que havia sucedido naquele instante.

“Pimba! As peças encaixaram-se na minha mente! E se

fosse possível recuperar o ADN completo de Jesus? E se

fosse viável cloná-lo? E se Jesus voltasse a caminhar

na Terra? O que mudaria? Seria possível a humanidade

permanecer indiferente ao regresso do homem cujo

pensamento mudara o mundo? Seria Jesus capaz de nos

fazer viver em paz? Era uma ideia... como direi? Única.

Explosiva. Grandiosa. Tratava-se de uma daquelas

epifanias tão extraordinárias e inspiradoras que

encerrava o potencial de, por si só, alterar o curso da

história. Se Jesus nos mudara ao longo de apenas trinta

anos de vida, seria possível que nos mudasse outra vez?

Porque não tentar? O que tínhamos a perder?”

O raciocínio de Arkan tornava-se transparente, e toda a

actividade da sua fundação também.

“Estou a perceber”, murmurou Tomás.

“Foi aí que convenceu o conselho de sábios a avançar

com o projecto.”

“Primeiro consultei o professor Hammans em segredo,