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para avaliar a viabilidade técnica da ideia. A seguir

fomos buscar o professor Schwarz, recrutado também com

grande confidencialidade. Só depois de termos ido a Bet

Shemesh levantar o ossário 80/503 para análise

laboratorial e de termos isolado dois núcleos com os

cromossomas de Jesus é que reuni o conselho de sábios e

expus a ideia. A primeira reacção foi de choque, como

devem calcular, mas os conselheiros acabaram por me

apoiar sem reservas. Nasceu assim o Projecto Yehoshua.”

“Mas porque o mantiveram secreto?”, quis saber o

historiador. “Porque não partilharam essa descoberta

com o mundo?”

“E atraíamos assim a atenção de todos os fanáticos que

por aí andam? E sujeitávamo-nos a actos de sabotagem da

parte dos mais variados extremistas? Como reagiriam os

fundamentalistas islâmicos e os judeus ortodoxos e os

cristãos radicais e mais não sei quem?”

Abanou vigorosamente a cabeça.

“Não! Se queríamos levar o projecto a bom porto,

tínhamos de o manter em segredo. Isso era essencial. E

foi o que fizemos. Todo o trabalho decorreu na mais

estrita das confidencialidades, o que nos garantiu a

tranquilidade necessária para alcançar progressos.”

“Contrataram o professor Schwarz por ser um perito em

arqueologia bíblica e o professor Vartolomeev devido às

suas pesquisas na área genética”, disse Tomás.

“E a professora Patricia Escalona? Ela era paleógrafa.

Para que precisavam dela?”

“Vocês têm de perceber que o Projecto Yehoshua era

tremendamente complexo e teve de ser desenvolvido em

várias vertentes”, explicou Arkan.

“Havia uma fortíssima componente científica. Foi para

isso que se construiu a Arca e se começou a trabalhar

na clonagem animal.

Mas o professor Schwarz chamou-me a atenção para um

pormenor que não podia ser descurado.

Vamos imaginar que conseguíamos resolver o problema dos

telómeros curtos, responsáveis pelo envelhecimento

prematuro dos animais clonados, e o problema das

proteínas coladas aos cromossomas, que impedia a

clonagem de primatas. Vamos imaginar que éramos bem

sucedidos na clonagem de seres humanos saudáveis. Vamos

imaginar que, uma vez ultrapassadas essas etapas todas,

estávamos finalmente em condições de clonar Jesus.”

Fez uma pausa, deixando este cenário instalar-se na

mente dos três visitantes.

“E se Jesus não fosse nenhum deus? E se a a sua

mensagem não fosse aquela que nós pensávamos que era?”

Fitou Tomás com intensidade, depois Valentina e por fim

Grossman.

“Quem era realmente Jesus?”

O historiador assentiu enfaticamente.

“Agora é tudo claro”, afirmou.

“Precisavam da professora Escalona para responder a

essa pergunta.”

“O nome dela foi-me sugerido pelo professor Schwarz,

que a tinha em elevada consideração.

A Universidade Hebraica de Jerusalém estava nessa

altura a organizar uma conferência sobre os manuscritos

do Mar Morto e convenci os organizadores a convidarem-

-na. O professor Schwarz marcou de propósito para os

mesmos dias uma visita destinada a inspeccionar outros

ossários na Autoridade das Antiguidades de Israel,

supostamente para um artigo da Biblical Arcbaeology

Review, e arranjámos maneira de o Instituto Weizmann de

Ciência convidar o professor Vartolomeev para uma

palestra na mesma data.

Aproveitando a presença simultânea dos três em Israel,

chamei-os à Fundação Arkan e tivemos uma longa

conversa. Os professores Schwarz e Vartolomeev já

sabiam ao que iam, claro, mas para a professora

Escalona foi tudo novidade.

Explicámos-lhe algumas partes do projecto e ela aceitou

juntar-se a nós, prometendo confidencialidade absoluta.

No entanto, quando começámos a discutir quem era

realmente Jesus, ela soltou uma gargalhada e disse uma

coisa que... enfim, disse algo que não vou esquecer.”

“O quê? Que disse ela?”

“A professora Escalona explicou-me que o grupo que

originalmente seguia Jesus, os nazarenos, não era mais

do que uma das várias seitas do judaísmo. O que pelos

vistos os distinguiu das restantes seitas judaicas foi

um dos seus líderes, Paulo, ter decidido estender a

mensagem aos gentios. Ao contrário da maior parte dos

judeus, os gentios aceitaram que Jesus era o mashia das

Escrituras e mostraram-se dispostos a aderir ao

movimento, desde que não tivessem de respeitar um

conjunto de preceitos judaicos, como não trabalharem ao

sábado, não ingerirem alimentos considerados impuros e,

sobretudo, ser circuncidados.

A professora Escalona sublinhou que estas práticas eram

respeitadas e pregadas pelo próprio Jesus. Mas ele

tinha morrido e os nazarenos não estavam a conseguir

convencer os restantes judeus de que o seu líder

crucificado pelos Romanos era o masbia.

O que fazer?

Paulo veio a Jerusalém por volta do ano 50 e convenceu

Pedro e Tiago, o irmão de Jesus, a serem flexíveis.

Depois de muito debaterem o problema, ficou acordado

que os gentios que aderissem ao movimento estavam

isentos das obrigações referentes ao sábado, à comida

impura e à circuncisão. Removidos estes obstáculos, a

mensagem dos nazarenos espalhou-se pelo Império,

Romano.

Foi tão bem sucedida que, em algumas décadas, havia

mais gentios a seguirem Jesus do que judeus.

Os nazarenos judeus tornaram-se assim minoritários e,

sobretudo após a destruição do segundo Templo, no ano

70, perderam poder e passaram a constituir uma mera

seita dentro do movimento cristão.”

“Eram os ebionitas”, disse Tomás, que conhecia bem

aquela história.

“O seu nome vem de ebionim, palavra hebraica que

significa pobres.”

“Precisamente! A professora Escalona explicou-me que os

cristãos de origem e costumes judaicos passaram a ser

designados ebionitas. Parece que defendiam que Jesus

era um homem de carne e osso, nascido de uma relação

sexual normal e que Deus o escolhera por ser muito pio

e conhecedor da lei. Além de Jesus, os ebionitas

reverenciavam o irmão dele, Tiago, e consideravam que

Paulo não passava de um apóstata que adulterara os

ensinamentos originais.

Por fim, aconteceu aos ebionitas uma coisa incrível.

Embora fossem herdeiros dos fundadores do movimento e

aparentemente portadores da verdadeira mensagem de

Jesus, viram-se declarados hereges e marginalizados,

acabando por desaparecer dos anais da história!”

“Sim, mas o que lhe disse a professora Escalona de

especial? Que comentário foi esse que o senhor nunca

mais esqueceu?”

Arkan sorriu.

“Disse-me que, se Jesus voltasse à Terra, a Igreja o