declarava herege!”
“Madonna, protestou de imediato Valentina.
“Como pode afirmar uma coisa dessas? Jesus, herege? Por
amor de Deus!”
“Estou apenas a citar as palavras da professora
Escalona”, lembrou o presidente da fundação.
“Se Jesus voltasse à Terra, a Igreja declarava-o
herege. Foram exactamente essas as suas palavras. Ela
defendia que a actual mensagem cristã era muito
diferente da mensagem original de Jesus. O tom
apocalíptico perdeu-se e o contexto judaico também.
Mas isso não era necessariamente mau, argumentou ela
nessa ocasião.
A professora Escalona chamou por exemplo a atenção para
o facto de Jesus ser até um judeu ultra-ortodoxo que
nem sequer aceitava o divórcio e dizia que uma mulher
divorciada que casasse outra vez estaria a cometer
adultério. Ora a lei judaica previa a lapidação dos
adúlteros, punição que Jesus jamais reprovou. Claro que
lhe lembrei logo o episódio da adúltera, em que Jesus
disse que atirasse a primeira pedra quem nunca tivesse
pecado.”
“O problema é que esse episódio é uma fraude”, recordou
Tomás. “Não consta dos textos originais do Novo
Testamento. É um acrescento posterior.”
“Foi justamente o que ela me revelou. Ou seja, a
mensagem de Jesus era estritamente judaica, para o bem
e para o mal. Claro que a lapidação para punir o
adultério foi considerada pelos gentios incrivelmente
bárbara. Como era possível que Jesus não a tivesse
invalidado? Daí que um escriba tenha inventado esse
episódio da adúltera, pondo o Messias a anular a
lapidação.
A professora Escalona disse também que a mensagem
universalista não era de Jesus, um judeu que se dirigia
especificamente a judeus, mas da Igreja.
E mesmo o amor, que está agora no centro do ensinamento
cristão, só é referido uma vez no primeiro evangelho.
Ou seja, o cristianismo tornou-se em certos aspectos
mais brando que a religião pregada pelo próprio Jesus,
o que ela considerava positivo.”
Suspirou.
“Contudo, para os efeitos do nosso projecto, o
importante é que ficámos com um problema complicado
entre mãos, não é verdade?”
O historiador soltou uma gargalhada.
“Estou mesmo a ver a vossa dificuldade”, observou.
“E se o Jesus clonado saísse um radical ortodoxo?”
A risada deixou Arkan escandalizado.
“Está a rir-se?”, questionou.
“Oiça, o problema era muito sério! Nós queríamos clonar
Jesus para trazer a paz ao mundo. A intenção era a
melhor possível.
E o que tínhamos nós ali? Uma historiadora a dizer-nos
que o tiro nos podia sair pela culatra! O homem que
pretendíamos clonar raciocinava de uma maneira
diferente daquela que julgávamos!
Jesus era um profeta apocalíptico que achava que o
mundo ia acabar a qualquer instante! Jesus tinha uma
visão ultra-ortodoxa do judaísmo, afirmando até que não
viera para anular as Escrituras, mas para as aplicar
com ainda maior rigor do que os próprios fariseus!
Jesus chegava a discriminar os gentios!”
“Estou a ver a vossa cara!”, disse Tomás.
“Como é que reagiram a tudo isso que a Patrícia vos
revelou?”
“Ficámos em estado de choque, como deve calcular!
Imagine a nossa surpresa! Nem queríamos acreditar no
que estávamos a ouvir!”
Abriu as mãos, imitando a sua própria reacção.
“E agora? O que vamos nós fazer? Como resolvemos este
problema?”
Retomou a postura normal.
“Foi então que o professor Schwarz nos chamou a atenção
para o facto de Jesus ser um produto da cultura judaica
que impregnava a sociedade onde nasceu e cresceu.
Se o homem que nós queríamos clonar fosse educado num
ambiente diferente, isso iria decerto moldá-lo de outra
maneira. No fim de contas, somos quem somos devido aos
nossos genes, mas também às circunstâncias que nos
rodeiam.”
“Muito verdadeiro.”
“Portanto, o Projecto Yehoshua mantinha-se válido.
Tínhamos, no entanto, de ser cautelosos com a forma
como
iríamos
educar
o
clone.
Precisávamos
de
estabelecer uma estratégia educativa que se adequasse à
sua personalidade.
Mas que personalidade era essa? Será que podíamos
determiná-la previamente com um mínimo de rigor?
A professora Escalona, que era uma das paleógrafas mais
qualificadas do mundo, disse-nos que talvez isso fosse
possível.
Segundo ela, o Novo Testamento contém informação
relevante e credível sobre o Jesus histórico, desde que
os textos sejam submetidos a um crivo crítico
impiedoso.
O que tínhamos a fazer era identificar os manuscritos
mais antigos para extrair deles a informação mais
próxima dos acontecimentos, de modo a obter um retrato
fiel de Jesus.”
Calou-se momentaneamente para fitar os seus três
interlocutores.
“Estão a perceber?”
Tomás balançou afirmativamente a cabeça, os olhos
desfocados no momento em que tudo compreendeu.
“Vocês decidiram proceder a um levantamento de todos
esses manuscritos e da informação mais autêntica que
era possível extrair deles”, concluiu.
“E era justamente isso o que a Patrícia estava a fazer
na Biblioteca Vaticana e o professor Schwarz na Chester
Beatty Library.”
Arpad Arkan respirou fundo, como se enunciar aquela
missão bastasse para lhe tirar de cima um fardo.
“É isso mesmo!”, exclamou.
“Mas as coisas começaram a correr terrivelmente mal.
A professora Escalona foi assassinada em Roma e o
professor Schwarz em Dublin.
Quando me deram a notícia, logo pela manhã, devo ter
envelhecido dez anos em apenas um minuto. E no dia
seguinte veio a informação relativa à morte do
professor Vartolomeev em Plovdiv.
Foi como se o céu me desabasse em cima da cabeça! O que
se estava a passar?
Os elementos da equipa do Projecto Yehoshua andavam a
ser degolados!? Mas por quem? E porquê?
Entrámos em pânico na fundação.
O projecto estava sob violentíssimo ataque e nós não
tínhamos maneira de saber quem o conduzia e quais as
suas motivações. Era evidente que a informação sobre o
que estávamos a fazer já transpirara cá para fora e
caíra nas piores mãos possíveis. Mas nunca nos passou
pela cabeça que as coisas chegassem a esse ponto.
Estávamos a mergulhar no abismo.”
O historiador mudou de pé de apoio.
“Porque não contou de imediato tudo à polícia?”
“Reuni o conselho de sábios da fundação e ponderámos
essa hipótese”, admitiu o anfitrião.
“Acabámos por rejeitá-la porque achámos que isso iria
torpedear definitivamente o projecto.