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Entregar o tubo a Valentina era fazer dela o principal

alvo do agressor. Isso Tomás não podia de modo algum

permitir. A italiana não tinha hipótese alguma se o

assaltante virasse para ela a sua atenção.

Sabendo que não dispunha de capacidade física ou treino

militar que lhe permitisse enfrentar a verdadeira

máquina de combate que dava agora o segundo passo na

sua direcção, voltou-se e começou a correr, o tubo de

ensaio bem seguro na mão esquerda. Sentiu a confusão

atrás dele e escutou passos e uma respiração ofegante.

Não precisava de virar a cabeça para saber que o

desconhecido vinha no seu encalço.

“Stop!”

O grito gutural do homem apenas serviu para assustar

ainda mais Tomás.

O historiador meteu pelo corredor formado por

maquinaria e outros congeladores, todos eles decerto a

preservar diferentes tubos de ensaio com material

genético de grande raridade. Não era fácil correr com o

corpo

envolto

num

escafandro,

duas

botijas

de

respiração às costas e a visão limitada por um visor.

Mas a adrenalina ajudou-o, dando-lhe forças adicionais.

Ao chegar ao final do primeiro lanço, guinou

bruscamente para a esquerda e depois para a direita, e

meteu por um corredor paralelo.

Virou a cabeça de lado, num esforço para localizar o

seu perseguidor através da visão periférica que o visor

lhe permitia, mas não o avistou. Sentiu naquele

instante, sem que o tivesse planeado, que estava diante

da

oportunidade

de que

precisava.

Tinha

de

a

aproveitar.

Com um movimento rápido, estacou junto de uma

prateleira com material de laboratório e suspendeu o

tubo de ensaio com o ADN de Jesus numa pequena

estrutura metálica de onde pendiam outros recipientes

semelhantes. Que melhor sítio poderia existir para

esconder a amostra congelada que em tão má hora

apanhara do chão?

Sem perder mais tempo, retomou a corrida pelo corredor.

Por esta altura começara já a perceber que precisava de

um plano. Correr não seria suficiente; chegaria um

momento, mais cedo ou mais tarde, em que o seu

perseguidor o apanharia. O que fazer? O ideal seria

sair dali, era evidente. Mas como? A câmara estava

bloqueada pela porta blindada e para escapar precisava

de a franquear.

Era verdade que, naquele grupo, apenas Arpad Arkan

conhecia a senha de segurança que destrancaria a porta,

mas Tomás acreditava que já adivinhara o segredo.

Assim, tudo se resumia a chegar ao local e ter tempo

suficiente para inserir a senha e abrir a porta. Depois

fugiria e deixá-la-ia aberta, permitindo assim a

passagem do assaltante no seu encalço.

Era a melhor forma de se assegurar de que ele não

atacava os seus três companheiros. Não que o português

estivesse particularmente preocupado com Arkan ou

Grossman; era Valentina que o enchia de cuidados.

Ao chegar ao fundo do corredor flectiu para a direita.

Já dispunha de um plano; cabia-lhe agora executá-lo.

Não seria fácil, mas não era impossível. Primeiro

precisava de alcançar a porta blindada e tinha ideia de

que a entrada se situava algures na direcção para onde

corria. Conseguiria chegar lá?

Nesse instante apercebeu-se de que perdera o rasto do

seu perseguidor e ficou na incerteza, incapaz de

determinar se isso era bom ou mau. Seria bom se

significasse que o conseguira ludibriar, mas foi

assaltado pela dúvida. Era verdade que escapara graças

à sua admirável rapidez de reacção. Porém, estava

consciente de que não tinha sido assim tão rápido a

movimentar-se. Como se explicava então o súbito

desaparecimento do agressor?

Um vulto materializou-se de repente diante dele,

cortando-lhe o caminho e dando-lhe resposta à pergunta.

“Tinhas saudades minhas?”

Era o assaltante, com a sua voz rouca, quase raspada.

A última vez que a escutara fora no quarto do American

Colony, o hotel em Jerusalém, soprada num murmúrio

sinistro pelos lábios que então lhe colara ao ouvido

num abraço de morte. Desta vez as palavras já não eram

murmuradas, mas disparadas com a arrogância e a altivez

de um caçador, a voz sempre com um timbre tenebroso.

Tentou travar a corrida e voltar para trás, mas patinou

no chão escorregadio da câmara como numa pista de gelo

e espalhou-se pelo piso frio. Viu o desconhecido saltar

para cima dele e foi nesse instante que soube que

estava perdido.

LXXII

O desconhecido caiu-lhe em cima e desferiu-lhe um

potente murro no abdómen, que, apesar de amortecido

pelo escafandro, apanhou Tomás em cheio no fígado e o

deixou dobrado no chão, em posição fetal, quase sem ar

e a contorcer-se de dores.

“Esta foi para te parar”, rosnou o assaltante.

“E esta agora é a paga pelo pontapé de há pouco.”

O historiador sentiu o escafandro ser sacudido com

violência e o visor abrir-se de repente, expondo-o ao

ambiente exterior. Uma lufada de ar muito frio

envolveu-lhe o rosto, seguida por uma pancada brutal

que o fez embater com a nuca nos pés de uma estrutura

de armazenagem de bidões de plástico.

“Ai!”

Sentiu uma dor nascer-lhe entre o malar esquerdo e o

olho e tomou consciência de que fora pontapeado no

rosto.

Dobrou-se instintivamente, recolhendo-se de novo na

posição fetal e cobrindo a cabeça com os braços, à

espera de novos pontapés. Em vez disso, uma dor no

couro cabeludo, como se lhe estivessem a arrancar os

cabelos pela raiz, forçou-o a içar a cabeça da concha

protectora que o corpo formara. Viu o rosto do

assaltante perto dele e percebeu que o homem o puxava

pelos cabelos.

“Espero que tenhas apreciado a retribuição”, sorriu

Sicarius sem humor, o nariz de lado e ensanguentado.

“Lá dizem as Escrituras em Levítico 24:20: ‘Fractura

por fractura, olho por olho, dente por dente; conforme

ele tiver feito a outro, assim se lhe fará.”’

O sorriso transformou-se num esgar ameaçador.

“Onde está o tubo de ensaio?”

Tomás abanou a cabeça.

“Não sei.”

O agressor esmurrou-o sem aviso prévio no malar

esquerdo, exactamente o sítio onde o pontapé de

vingança o atingira momentos antes.

“Fala!”

Literalmente a ver luzinhas, o português sentiu o

impacto doloroso do soco sobre a parte esfacelada do

rosto e libertou um longo grito de dor.

Teria o malar fracturado?

A dor era tão grande e intensa que só podia pensar que

sim.

“O tubo de ensaio?”, voltou a perguntar Sicarius,