uma palavra mais desagradável para descrever a maior
parte dos textos da Bíblia.”
“Que palavra?”
Tomás fitou-a nos olhos e esforçou-se por manter a
expressão o mais neutra possível.
“Falsificações.”
XVIII
O centro da povoação exibia uma beleza desconcertante,
com os soberbos promontórios de rochedos a rasgar de
verdura o emaranhado da urbe, plano e espraiado. Um
pequeno rio serpenteava entre os edifícios, mas eram os
promontórios que verdadeiramente chamavam a atenção;
pareciam castelos erguidos na planície, imponentes e
majestosos, verdadeiras jóias que coroavam a cidade.
Sicarius baixou o vidro da janela do automóvel e
interpelou um transeunte.
“Onde é a Stariot Grad?”
O homem, um velho de longas barbas brancas e corpo
curvado pelos anos, indicou o promontório central.
“Ali”, disse. “No monte.”
Sicarius seguiu naquela direcção, percebendo o que o
GPS não conseguia explicar-lhe: o seu destino estava
numa elevação. Tentou meter pelo monte, mas a
inclinação da rua era demasiado grande e, além do mais,
havia ali um sinal a proibir o trânsito. O recém-
chegado viu-se por isso forçado a dar meia volta e a
deixar o carro estacionado no sopé do promontório.
Seguiu a pé, com a mala de couro negro a balouçar na
mão. Escalou a rua, íngreme e estreita, mas Sicarius
estava em boa forma e não teve dificuldade em galgar o
monte e internar-se em Stariot Grad. Os edifícios
tinham uma traça muito original, com o primeiro andar
mais largo do que o rés-do-chão e sustentado por traves
de madeira. O traço balcânico, cruzado com elementos
otomanos, era por demais evidente.
O visitante perdeu-se no emaranhado de ruelas da cidade
velha, pelo que teve de consultar o endereço que havia
anotado num papel e dirigir-se a um quiosque.
“A Casa de Balabanov?”
A rapariga do quiosque apontou para um edifício de
esquina,
junto
a
uma
rua
estreita
que descia
acentuadamente.
“É aquela.”
Sicarius seguiu de imediato em direcção à casa e
inspeccionou a fachada pintada de branco e bordeaux,
repleta de janelas com o topo arredondado, o primeiro
andar erguido em erker. As linhas arquitectónicas eram
tradicionais e revelavam-se em tudo semelhantes às das
restantes
construções
antigas
de
Stariot
Grad.
Considerou a possibilidade de penetrar no interior, por
uma janela ou até mesmo pela porta, mas constatou que a
cidade velha permanecia tranquila e optou por se
plantar na rua.
Consultou o relógio. Os ponteiros assinalavam meio-dia
e um quarto. O recém-chegado escolheu uma grande árvore
ao lado da Casa de Balabanov e sentou-se à sua sombra,
junto ao tronco. Abriu a mala de couro negro e, sempre
com gestos de grande delicadeza, extraiu a adaga. Uma
faísca cristalina cintilou na ponta, para êxtase de
Sicarius; era como se Deus tivesse acabado de lhe
enviar um sinal.
Espreitou de novo o relógio. Meio-dia e dezanove.
Desceu a rua com o olhar e lá ao fundo viu um homem
iniciar a escalada. Procurou-lhe as feições do rosto e
reconheceu-as das fotografias integradas no dossiê que
o mestre lhe entregara. Acto contínuo, acariciou o
punho da adaga, sentindo-lhe a superfície macia.
A hora tinha chegado.
XIX
A palavra que acabara de escutar deixou Valentina à
beira de uma explosão de fúria.
“Falsificações?”, protestou ela, a face a enrubescer.
“Lá vem você mais uma vez com essas palavras
depreciativas! Irra! Parece que faz de propósito!”
Tomás encolheu os ombros.
“O que quer que lhe faça?”, perguntou. “Quer que lhe
esconda estes factos?” Indicou a fotografia da charada
deixada pelo assassino de Dublin. “Se o fizer, nunca
irá compreender o significado deste enigma. E se não
compreender jamais poderá deslindar estes casos.”
A inspectora lançou um olhar em redor, em busca de
ajuda do superintendente O’Leary, mas o irlandês ainda
não voltara. A italiana suspirou longamente com
resignação. A agonia que lhe atacava o estômago
roubava-lhe toda a vontade de resistir.
“As coisas que tenho de fazer pelo meu trabalho”,
desabafou ela. Esboçou com a mão um gesto de rendição.
“Está bem, conte lá o que se passa com os Evangelhos.”
O historiador folheou o seu exemplar da Bíblia até
localizar o primeiro evangelho na sequência do Novo
Testamento, o de Mateus.
“A primeira coisa que tem de perceber é que os
Evangelhos são textos anónimos”, disse. “O primeiro a
ser escrito foi o de Marcos, entre 65 e 70, ou seja,
quase quarenta anos depois da crucificação de Jesus.
Ainda haveria apóstolos vivos, mas já deviam estar
velhos. Os textos de Mateus e Lucas foram escritos uns
quinze anos mais tarde, entre 80 e 85, e o de João dez
anos depois, entre 90 e 95, numa altura em que a
primeira geração já deveria ter morrido. Estes
evangelhos circulavam entre as comunidades de fiéis sem
que se soubesse quem eram os autores. Aliás, atribuir-
-lhes uma autoria até os descredibilizava. Ao serem
apresentados sem autores, o ponto de vista subjectivo
era anulado e os textos apareciam como portadores da
verdade absoluta, objectiva e anónima. Quase como se
fossem directamente a palavra de Deus.”
“Sendo assim, nenhum dos evangelistas afirma ter
escrito os Evangelhos...”
“Exacto”, confirmou Tomás. “Se alguém cometeu fraude
não foram eles com certeza, mas quem mais tarde
abusivamente lhes atribuiu a autoria dos Evangelhos. O
mais importante é que temos a certeza de que os dois
discípulos, Mateus e João, não escreveram esses textos.
O Evangelho segundo Mateus, por exemplo, refere-se a
Jesus e aos apóstolos como eles, não como nós. Isto
mostra que o autor do texto não era um apóstolo. Mas
Mateus era. Além disso, em 9:9, este evangelho descreve
o apóstolo Mateus na terceira pessoa. Logo, Mateus não
pode ser o autor do Evangelho segundo Mateus. Isso é
uma mistificação posterior da Igreja.” Valentina voltou
a revirar os olhos.
“Mistificação?”, questionou. “Lá vem você outra vez com
essas palavras acintosas!...”
“Isso é ainda mais claro no caso do Evangelho segundo
João”, disse o historiador, ignorando o protesto. “No
final do Evangelho, o autor fala no ‘discípulo que
Jesus amava’ para afirmar nos derradeiros versículos: