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‘É esse o discípulo que dá testemunho destas coisas e

as escreveu; e nós sabemos que o seu testemunho é

verdadeiro.’ Ou seja, o próprio autor admite que não é

um apóstolo, apenas alguém que falou com um apóstolo.

Assim, o autor não pode ser João.”

“E os outros dois evangelistas?”

“Marcos não era um discípulo, mas companheiro de Pedro,

e Lucas era companheiro de viagem de Paulo. Quer isto

dizer que nem Marcos nem Lucas foram testemunhas

directas dos acontecimentos. E já percebemos que Mateus

e João não escreveram os evangelhos que lhes são

atribuídos.” Cravou os olhos na sua interlocutora,

interpelando-a. “Assim sendo, qual é a conclusão que

tira?”

A inspectora da Polizia Giudiziaria suspirou, vencida e

quase desanimada.

“Não temos testemunhas.”

O académico português estreitou os olhos.

“Pior ainda”, acrescentou. “Parece haver um grande

distanciamento entre os apóstolos e os autores dos

Evangelhos. Repare, temos como seguro que Jesus e os

seus discípulos eram todos pessoas de baixa condição

que viviam na Galileia. Ora calcula-se que nesta época

só dez por cento das pessoas no Império Romano sabiam

ler. Uma percentagem menor conseguia escrever frases

rudimentares e apenas uma ínfima parte era capaz de

elaborar narrativas completas. Tratando-se de gente sem

educação, os discípulos eram analfabetos. Aliás, em

4:13 os Actos dos Apóstolos descrevem explicitamente

Pedro e João como agrammatoi, ou ‘homens iletrados’.

Jesus seria uma excepção. Lucas apresenta-o a ler na

sinagoga em 4:16, mas em nenhuma parte Jesus aparece a

escrever.”

“No episódio da adúltera”, apressou-se Valentina a

lembrar, “Jesus está a escrever no chão.”

“O problema desse episódio é que é uma fraude, como já

lhe expliquei. Não está nas cópias mais antigas do Novo

Testamento.”

A italiana bateu com a palma da mão na testa.

“Ah, pois é!...”

Tomás voltou a sua atenção para o exemplar da Bíblia

que tinha pousado na mesa do Silk Road Café.

“Em suma, os discípulos de Jesus eram analfabetos de

classe baixa que falavam aramaico e viviam na Galileia

rural”, recapitulou. Pôs a mão sobre a Bíblia. “No

entanto, lendo os Evangelhos depressa percebemos que os

seus autores não são apenas alfabetizados. À excepção

de Marcos, que escrevia em grego popular, são todos

falantes de grego de classe alta que viviam fora da

Palestina.”

“Como pode ter a certeza desses pormenores todos?”

“Devido a um vasto número de razões linguísticas de

natureza técnica, o consenso académico hoje em dia é

que todos os evangelhos foram originalmente escritos em

grego e não na língua de Jesus e dos seus discípulos, o

aramaico”, explicou. “Por exemplo, sabemos que Mateus

copiou várias histórias de Marcos palavra a palavra na

versão grega. Se Mateus tivesse sido originalmente

escrito em aramaico, seria impossível que essas

histórias fossem copiadas exactamente com as mesmas

palavras que estão no texto grego.”

“Ah, estou a ver.”

“Além

do

mais,

a

complexidade

estilística

dos

Evangelhos, que incluem parábolas e outros artifícios

literários, implica que os seus autores eram pessoas

com educação elevada. Mais ainda, não se tratava de

judeus nem de gentios que vivessem na Palestina.

Percebemos isso porque os autores dos Evangelhos

revelam certa ignorância em relação aos costumes

judaicos. Por exemplo, Marcos indica em 7:3 que ‘Os

fariseus efectivamente, e os judeus em geral, não comem

sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a

tradição dos antigos’, o que é falso. Na época os

judeus em geral não tinham ainda o hábito de lavar as

mãos antes de comer. Se o autor deste evangelho vivesse

na Palestina, sabê-lo-ia com certeza e não teria

escrito

tamanho

disparate.

Assim

sendo,

temos

fundamentos para concluir que os autores dos Evangelhos

eram falantes de grego oriundos de classes altas que

não viviam na Palestina, o que contrasta com os

discípulos falantes de aramaico oriundos de classe

baixa

que

habitavam

na

Galileia.

Como

estão

linguística,

social,

geográfica

e

culturalmente

afastados dos discípulos, podemos com segurança afirmar

que os verdadeiros autores dos Evangelhos não eram

apóstolos,

mas

pessoas

que

não

viveram

nem

testemunharam

os

acontecimentos

que

narraram.”

Valentina recostou-se na cadeira e voltou a olhar em

redor,

como

se

pedisse

ajuda.

Contudo,

o

superintendente irlandês permanecia retido pelas suas

funções. Era evidente que dali não viria qualquer

auxílio.

“Espere aí!”, exclamou a inspectora

da Polizia

Giudiziaria, ainda combativa. “De onde vem então a

atribuição da autoria dos Evangelhos? Apareceram assim

sem mais nem menos, por obra e graça do Espírito

Santo?”

Tomás riu-se.

“Quase”, gracejou. “Isso resultou da tradição. Apesar

das provas de que Mateus e João não são os autores dos

textos que lhes são atribuídos, e dos indícios de que

Marcos e Lucas também não o são, a mais antiga tradição

da Igreja atribui a autoria de dois evangelhos a Mateus

e a Marcos.”

“Ah-ha!”, exclamou Valentina num tom triunfante. “Eu

sabia que algum fundamento haveria!”

O historiador voltou a soltar uma gargalhada.

“Tenha calma, isto não é uma competição”, disse. “Sabe,

a fonte mais antiga dessa tradição é um autor chamado

Pápias, que numa obra da primeira metade do século II

terá dito que falou pessoalmente com cristãos que

conheceram pessoas a quem chamaram ‘os anciãos’. Esses

anciãos afirmaram ter conhecido alguns dos discípulos.

Pápias terá escrito, e vou citar mais ou menos de cor:

‘O ancião costumava dizer «quando Marcos era o tradutor

de Pedro anotou rigorosamente tudo o que se lembrava do

que o Senhor disse e fez, mas não por ordem. Pois ele

não escutou o Senhor nem o acompanhou, mas mais tarde,

como indicado, ele acompanhou Pedro, que adaptava os

ensinamentos às circunstâncias, sem fazer uma

composição ordenada das palavras do Senhor. Marcos

limitou-se a escrever alguns destes assuntos como os

lembrava. Só tinha um propósito: não deixar de fora

nada do que tinha escutado nem incluir nenhuma

falsidade».’ Sobre Mateus, Pápias terá escrito: ‘E