então Mateus compôs as máximas na língua hebraica.”’
Valentina irradiava felicidade, como se aquelas
palavras fossem melodia divina.
“Está a ver?”, exultou. “Está a ver?”
“Olhe que há aqui uns problemas...”
“Problemas?”, exaltou-se a italiana. “Que problemas?
Dio mio, lá está você a complicar!”
O historiador voltou a ignorar o protesto.
“O primeiro problema é que não possuímos o texto
original de Pápias”, explicou. “O que temos é o que
escreveu um antigo historiador cristão chamado Eusébio.
Ou seja, tudo o que sabemos sobre Marcos é que alguém
diz que alguém escreveu que alguém conheceu alguém que
conheceu
alguns
discípulos
que
conheceram
o
evangelista. Ou, por outras palavras, Eusébio diz que
Pápias escreveu que conheceu cristãos que dizem que
conheceram anciãos que afirmam ter conhecido discípulos
que alegaram ter conhecido Marcos.” Contraiu o rosto.
“Um pouco rebuscado, convenhamos. São fontes em quarta
mão, com todas as consequências que isso acarreta.
Aliás, outras informações atribuídas a Pápias são
consideradas erradas pelos historiadores, o que mostra
tratar-se de uma fonte de pouca confiança. Mesmo que a
sua informação fosse rigorosa, nada nos garante que o
evangelho de Marcos a que Pápias se referiria é o
evangelho que nos chegou.”
“E sobre Mateus?”
“Pior ainda. Eusébio não diz qual a fonte de Pápias. E
a pouca informação que nos dá sobre o evangelho de
Mateus decididamente não corresponde ao nosso Evangelho
segundo Mateus. Pápias terá indicado que o evangelho de
Mateus era constituído por uma colecção de máximas,
como o Evangelho segundo Tomé, e, presumivelmente, a
fonte Q. Mas o nosso Mateus deu-nos uma narrativa
completa, não uma mera colecção de máximas. Por outro
lado, o Mateus de Pápias terá sido escrito em hebraico,
enquanto o nosso Mateus foi comprovadamente redigido em
grego. Pápias parece portanto estar a falar de um
evangelho que se terá perdido.”
“Então como é que os nossos evangelhos foram atribuídos
a esses autores?”
“A primeira referência segura aos quatro evangelhos
canónicos foi feita por um líder cristão gaulês chamado
Ireneu no ano 180”, respondeu. “Nesta altura já havia
curiosidade em saber quem eram os autores dos textos
considerados pela hierarquia mais fiáveis, uma vez que
existiam muitos evangelhos a circular que teriam sido
escritos por discípulos, como Maria Madalena, Pedro,
Tomé e outros. Recuperando tradições orais, um
evangelho foi atribuído a Mateus e outro a Marcos. As
restantes atribuições foram mais arbitrárias. Percebeu-
-se que o autor do terceiro evangelho escrevera também
os Actos dos Apóstolos, onde Paulo é uma figura
preeminente, pelo que se achou que o autor teria de ser
alguém ligado a Paulo. Escolheram Lucas, companheiro de
viagem de Paulo. E o nome de João foi ligado ao quarto
evangelho, apesar de o autor anónimo desse texto
afirmar explicitamente que não era um discípulo.”
“Nesse caso, em parte alguma aparecem esses nomes a
reivindicar a autoria dos evangelhos canónicos...”
“Exacto. O que significa que os autores destes textos
não testemunharam coisa nenhuma. Os Evangelhos foram
escritos décadas depois dos acontecimentos que relatam,
por pessoas que não conheceram Jesus, não falavam a sua
língua, tinham outra cultura e educação e viviam num
país diferente. Nestas condições, que confiança podemos
ter no que elas escreveram?”
Valentina emitiu um suspiro longo e desanimado.
“Felizmente o Novo Testamento não é apenas constituído
pelos Evangelhos”, desabafou. “Sempre há outros textos,
não é verdade?”
A observação produziu uma hesitação em Tomás. Deveria
ou não problematizar esta questão? Ainda considerou a
possibilidade de a deixar passar em branco, mas
percebeu que, tendo em conta que toda a informação
poderia ser relevante para deslindar aqueles crimes,
teria de levar a explicação até ao amargo fim.
“Receio que os outros textos também levantem problemas
graves”, disse, quase a medo. “Aliás, bem mais
graves!...”
“O quê?”
“Dos vinte sete textos do Novo Testamento, apenas oito
são de autoria segura”, revelou. “É o caso de sete
epístolas de Paulo e do Apocalipse de João, embora não
se trate do apóstolo João. Os autores dos restantes
dezanove textos são incertos. Semelhante ao caso dos
Evangelhos é a Carta aos Hebreus, texto anónimo
atribuído a Paulo mas quase de certeza de outro autor.
A Carta de Tiago é também genuína, mas o autor não é o
Tiago irmão de Jesus, conforme erradamente pensou a
Igreja quando aceitou este texto. Os restantes textos,
minha cara, são puras fraudes.”
A italiana abanou a cabeça, desanimada.
“Lá vem você!...”
“Lamento, mas a verdade é para se dizer”, insistiu o
historiador.
“Várias
epístolas
de
Paulo
são
provavelmente falsificações: a Segunda Carta aos
Tessalonicenses, que contradiz a primeira e parece ser
um texto posterior para corrigir certas coisas ditas
anteriormente e que não ocorreram, e as Cartas aos
Efésios e aos Colossenses, redigidas num estilo
diferente do de Paulo e abordando problemas que não
existiam no tempo de Paulo. Paulo também não escreveu
as duas Cartas a Timóteo nem a Carta a Tito, uma vez
que abordam igualmente problemas que não existiam no
tempo do seu suposto autor. Além disso, um terço das
palavras usadas nestas epístolas nunca foi usado por
Paulo, e a maior parte eram palavras características
dos cristãos do século II. Por outro lado, João não
escreveu as três Cartas de João e Pedro não escreveu as
duas Cartas de Pedro. Convém lembrar que estes dois
apóstolos eram analfabetos.” O historiador pegou na
Bíblia e exibiu-a. “Ou seja, a maior parte dos textos
que compõem o Novo Testamento não foi escrita pelos
autores que lhes foram atribuídos. São fraudes.”
Valentina não parava de abanar a cabeça.
“Não
posso
acreditar!”,
murmurou.
“Não
posso
acreditar!” Fitou por momentos o jardim diante da
biblioteca, a mente perdida no que acabara de escutar,
até que estremeceu e encarou o seu interlocutor. “A
Igreja sabe?”
“Claro que sabe.”
“Então... então porque não retirou esses textos do Novo
Testamento?”
“Se o fizesse, o que ficava? Sete epístolas de Paulo e