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o Apocalipse de João? Parece curto, não acha?”

“Mas como é então justificada a manutenção desses

textos na Bíblia?”

Tomás sorriu.

“São inspirados.”

“O quê?”

“Os teólogos já perceberam que estão a lidar com

falsificações ou textos anónimos. A primeira coisa que

fazem para enfrentar o problema é evitar usar as

palavras fraude ou falsificação. Dizem textos pseudo-

epígrafos e a coisa fica disfarçada. Depois afirmam

que, apesar de os autores desses textos não serem os

atribuídos, os textos são sagrados porque foram

inspirados por Deus.” Fez um movimento rápido com as

mãos, como se fosse um ilusionista. “E assim, quase por

artes mágicas, fica o problema resolvido.”

Por esta altura já Valentina fervia, agastada com a

forma como a Bíblia se desfazia na boca daquele

historiador português. Mesmo assim a agente italiana

manteve a compostura. No fim de contas, guardava ainda

alguns argumentos na manga.

“Pode dizer o que quiser”, afirmou, “mas uma coisa é

indiscutíveclass="underline" os textos do Novo Testamento contam todos

a mesma história. E isso é a prova de que pelo menos a

história de Jesus é verdadeira.”

“Por acaso não é verdade”, respondeu. “Cada texto

bíblico conta uma história diferente. E vários

episódios são completamente inventados.”

“Está a brincar comigo!...”

Tomás coçou a cabeça.

“A história de que Jesus nasceu em Belém, por exemplo.”

XX

Havia já muito tempo que o professor Vartolomeev andava

a pensar em mudar de casa, mas no momento da verdade

nunca reunia coragem para consumar o projecto. Afinal

vivia na histórica Casa de Balabanov, uma construção

novecentista em Stariot Grad, a zona antiga que havia

sido erguida no preciso promontório onde nascera a

velha cidade. Só um louco se desfaria, sem precisar de

o fazer, de uma casa daquelas e num local como aquele.

No entanto, era sempre no momento em que escalava a rua

a caminho de casa que o pensamento lhe voltava. Desde

que cruzara os cinquenta anos que sentia mudanças no

corpo, e para pior. A escalada do monte tornava-se mais

penosa a cada dia, com os músculos das pernas a

endurecerem como pedras e os pulmões a arfarem como se

ele tivesse corrido uma maratona. E isto apenas por

subir uma rua inclinada! Quanto mais tempo conseguiria

escalar o monte? Já sabia que, logo que chegasse a

casa...

“Senhor professor.”

... e se estendesse no sofá, estes pensamentos se

desvaneceriam como vapor em ar puro. Mas não podia ser

assim. Definitivamente, tinha de se convencer que a

juventude fora consumida pelos anos e o seu corpo não

tinha culpa das indulgências a que se entregava o

espírito. Viver em Stariot Grad era muito bonito, sim

senhor. O problema é que não era prático. Bastava

ver...

“Senhor professor?!”

Ouviu a voz interpelá-lo e estacou, aparvalhado.

“Hã?”

“Sou eu, senhor professor”, disse a voz à sua direita.

“Zdravei’te!”, saudou-o. “Não leva hoje o seu exemplar

do Maritsa?”

Olhou naquela direcção e viu a rapariga do quiosque a

estender-lhe o jornal com um sorriso luminoso.

“Ah, Daniela!” Deu dois passos e colou-se ao quiosque

com uma moeda na mão. “Onde tenho eu hoje a cabeça,

valha-me Deus? Claro que quero o Maritsa! Claro!”

Daniela entregou-lhe o periódico e, acto contínuo,

acenou-lhe com um pequeno livro.

“A Hermes publicou mais um daqueles livrinhos de que

tanto gosta. Quer levar este?”

O professor espreitou o título e a capa.

“Amanhã”, decidiu. “Hoje basta-me o jornal.”

Vartolomeev fez tenção de se afastar, mas a rapariga

prendeu-lhe o braço.

“O senhor hoje tem uma visita.”

“Eu? Uma visita?”

Daniela apontou para o vulto que se encontrava lá ao

fundo, junto à casa.

“É um estrangeiro”, sussurrou. “Está à sua espera.”

O professor lançou um olhar interrogativo na direcção

do vulto e recomeçou a andar, cheio de curiosidade.

Seria o correio com o resultado das amostras?

Vartolomeev acreditava firmemente que era possível

resolver o problema do encurtamento dos telómeros,

mantendo assim os cromossomas intactos. Talvez as

últimas experiências tivessem sido bem sucedidas, quem

sabe? Aqueles resultados eram na verdade cruciais para

toda a investigação. Se conseguisse solucionar esse

colossal problema científico, tinha a certeza absoluta

de que dessa vez o Prémio Nobel da Medicina seria mesmo

seu.

O vulto tornou-se um homem cujas feições o cientista

teve dificuldade em reconhecer quando se aproximou

dele. É que o desconhecido estava à sombra da árvore e

os olhos do professor Vartolomeev, como de resto o seu

corpo, já não gozavam da saúde de outrora. Mesmo assim

percebeu que o indivíduo ocultava um objecto na mão e

as esperanças recrudesceram. Seria uma carta? Uma

encomenda? Talvez os resultados das experiências? Ah,

como era importante aquele momento! Sentindo a

ansiedade apertar-lhe o estômago, o cientista ajeitou

os óculos para ver melhor.

Foi nesse instante que o desconhecido desatou a correr

ao seu encontro. O professor estacou, apanhado de

surpresa. Mais espantado ficou quando enfim reconheceu

o objecto que o homem trazia na mão. Não se tratava de

nenhum envelope com o resultado das experiências. Era

uma faca. Obedecendo ao instinto, o cientista voltou-se

para fugir.

Tarde de mais.

XXI

O empregado do Silk Road Café não podia ter chegado em

melhor hora. Distribuiu o chá, as panquecas libanesas e

as baclavas pela mesa, e isso bastou para desanuviar a

tensão e trazer o sorriso de volta ao rosto encantador

de Valentina.

“Desde criança que me contam sempre a mesma história

sobre a vida de Cristo”, disse ela enquanto se

deliciava com a primeira baclava. “Que conversa é essa

de que Jesus não nasceu em Belém e cada texto do Novo

Testamento contém uma narrativa diferente? As palavras

podem ser diferentes, claro. Mas que eu saiba a

história é sempre a mesma.”

Tomás pegou de novo no seu exemplar da Bíblia.

“Acha que sim?”, perguntou num tom de desafio enquanto

folheava as páginas do livro. “Então por onde quer

começar? Pelo nascimento de Jesus? Pela morte? Por

onde?”

A italiana encolheu os ombros.

“É-me indiferente”, disse. “Você falou em Belém, não

falou? Que tal começarmos por aí?”