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Ao escutar a sugestão, o historiador foi direito ao

início do primeiro dos evangelhos.

“Belém remete-nos para o princípio”, observou. “Os dois

únicos evangelhos que abordam o nascimento de Jesus são

o de Mateus e o de Lucas.” Baixou o tom de voz, como se

fizesse um aparte. “Mantenho os nomes dos evangelistas

por uma questão de comodidade, claro. Na verdade não

foram eles quem escreveu estes evangelhos, como já lhe

expliquei.” Retomou o tom original. “Mateus conta a

história de Maria ser uma virgem que concebe pelo

Espírito Santo e depois fala nos magos que seguiram uma

estrela até Jerusalém em busca do rei dos judeus. O rei

Herodes informa-se sobre o caso e diz-lhes que foi de

facto profetizado o seu nascimento em Belém. A estrela

conduz os magos até uma casa de Belém onde vive a

família de Jesus e onde eles oferecem presentes ao

bebé. Com receio da ameaça que o rei recém-nascido pode

representar, Herodes dá ordens para se matarem todas as

crianças de Belém. É então que Jesus e Maria fogem para

o Egipto.”

“É essa exactamente a história que sempre me contaram.”

Tomás galgou dezenas de páginas do livro até chegar ao

terceiro evangelho.

“A história de Lucas também começa com a narrativa da

imaculada concepção, quando Quirino era o governador da

Síria, e depois diz que o casal decidiu ir para Belém,

de onde eram os antepassados de José. Jesus nasce numa

manjedoura, ‘por não haver para eles lugar numa

hospedaria’, e os pastores vão prestar tributo ao

menino. A seguir Jesus é levado ao Templo, em

Jerusalém, para ser apresentado a Deus. Depois a

família regressa a Nazaré.”

Valentina hesitou.

“Pois, é... é essa a história que eu conheço.”

O seu interlocutor levantou a mão direita, como um

polícia a mandar parar o trânsito.

“Espere aí!”, disse ele. “As duas histórias são

diferentes, já reparou?”

“Bem... têm um ou outro pormenor diferente, é verdade.

Mas apenas em minudências. O essencial está lá.”

Tomás apontou para a Bíblia.

“Desculpe, mas as histórias são muito diferentes!

Mateus põe a imaculada concepção a ocorrer em Belém,

enquanto Lucas diz que ela sucedeu em Nazaré. Mateus

faz os eventos decorrerem no tempo de Herodes, enquanto

Lucas defende que tudo aconteceu na época de Quirino,

que só foi governador da Síria dez anos depois da morte

de Herodes. Mateus diz que a família vivia numa casa em

Belém, Lucas afirma que tudo se passou numa manjedoura

de Belém. Mateus conta que o menino foi visitado por

magos, Lucas só fala em pastores. Mateus diz que a

família fugiu para o Egipto para escapar a Herodes, mas

Lucas põe a família a visitar o Templo de Jerusalém e a

regressar a Nazaré.” Cravou o olhar na italiana. “São

histórias diferentes!”

“Não”, argumentou ela. “São histórias complementares.”

“Complementares? A imaculada concepção ocorreu em

Nazaré ou em Belém? Uma hipótese elimina a outra, não a

complementa! Isso aconteceu no tempo de Herodes ou de

Quirino?

Os

dois

tempos

são

diferentes

e

os

acontecimentos não podem ter ocorrido em simultâneo!

Jesus nasceu numa casa ou numa manjedoura? Não pode ter

nascido nos dois sítios ao mesmo tempo! A família fugiu

para o Egipto ou regressou directamente a Nazaré? Se

foi para o Egipto, não seguiu directamente para Nazaré,

e vice-versa! Que eu saiba, uma possibilidade exclui a

outra!

Não

podem

ser

as

duas

verdadeiras

simultaneamente! Percebe?”

Valentina passou a mão pelo rosto e massajou a face com

a ponta dos dedos.

“Pois, realmente...”

O historiador pegou de novo no seu exemplar da Bíblia,

que brandiu no ar como um troféu.

“Este problema percorre todo o Novo Testamento”,

declarou. “Todo.” Pousou o livro e voltou a folheá-lo.

“Há incoerências e contradições ao longo de todos os

textos, mas não quero massacrá-la com uma análise

episódio a episódio, por isso vou apenas mostrar-lhe o

fim da história.” Localizou as partes que buscava.

“Como sabe, a vida de Jesus termina na cruz, não é

verdade? Marcos, Lucas e Mateus afirmam que a execução

decorreu na sexta-feira de Páscoa, João afirma que foi

no dia anterior. Não pode ter sido simultaneamente na

sexta-feira e na véspera, pois não? Mas adiante. O que

dizem os Evangelhos que sucedeu então? Os quatro

concordam que, ao terceiro dia, Maria Madalena foi ao

sepulcro e o encontrou vazio. A partir daqui é a

confusão total.”

“Isso não é verdade!...”

O historiador fez um gesto enfático para o livro.

“Leia

você

mesma!”,

exclamou.

Apontou

para

os

versículos. “João afirma que Maria Madalena foi

sozinha, mas Mateus diz que ela foi acompanhada por uma

segunda Maria, Marcos acrescenta-lhes Salomé e Lucas

substitui Salomé por Joana e adiciona-lhes ‘outras

mulheres’. Afinal em que ficamos? Maria Madalena foi

sozinha ou foi com mais mulheres? E quantas mulheres

exactamente?

E

quem

eram

elas?

Os

Evangelhos

contradizem-se uns aos outros e não podem estar todos

certos. A pergunta seguinte é esta: quem encontrou ela,

ou elas, ao chegar ao sepulcro? Mateus diz que deram

com ‘um anjo’, mas Marcos afirma que foi ‘um jovem’,

Lucas garante que foram ‘dois homens’ e João não fala

em ninguém. Em que ficamos? E a seguir, o que sucede?

Na verdade não sei, porque os Evangelhos voltam a

contradizer-se. Marcos assegura que as mulheres ‘não

disseram nada a ninguém’, mas Mateus afirma que elas

‘correram a dar a notícia’.” Fez um ar perplexo. “Está

tudo doido?” Folheou o livro. “Se deram a notícia,

deram-na a quem? Mateus diz que foi ‘aos discípulos’,

mas Lucas indica que foi aos discípulos ‘e a todos os

restantes’ e João afirma que elas foram ter ‘com Simão

Pedro e com o outro discípulo’, que não nomeia. Afinal

qual dos Evangelhos diz a verdade?”

Valentina quase encarava o seu interlocutor a medo.

“Não é possível conciliá-los?”

“Isso é o que os teólogos cristãos têm andado este

tempo todo a tentar fazer”, disse ele. “Contudo, não

creio que se possa conseguir isso sem mutilar

gravemente os textos ou fingir que não estão aqui

escritas coisas que estão de facto escritas. A verdade

é que Jesus ou nasceu no tempo de Herodes ou nasceu no

tempo de Quirino. E ou morreu na sexta-feira de Páscoa