ou morreu na véspera. Não há ginástica que resolva
todas
estas
contradições.”
Ergueu
a
mão,
em
advertência. “E olhe que eu apenas levantei a ponta do
véu. Se estudar os Evangelhos episódio a episódio, vai
encontrar múltiplas situações destas. Ga-ran-ti-do!”
A inspectora da Polizia Giudiziaria não sabia bem o que
dizer. Era verdade que nestes episódios cada evangelho
contradizia todos os outros a cada versículo. Ela
própria acabara de o verificar no exemplar da Bíblia
usado por Tomás.
“Então, quer dizer...”, gaguejou. “Isso significa que
não é possível ter nenhuma certeza sobre Jesus!...”
“Isso é verdade sobre qualquer figura histórica. Em
história nunca se tem a certeza absoluta de nada,
apenas se calculam probabilidades em função dos
indícios existentes. Em relação a Jesus há algumas
certezas relativas. Os historiadores dão como seguro
que estamos perante um rabino de Nazaré que viveu na
Galileia, era um dos filhos do carpinteiro José e da
sua mulher Maria, foi de facto baptizado por João
Baptista e arranjou um grupo de seguidores composto por
pescadores, artesãos e algumas mulheres da região, a
quem pregou a chegada do reino de Deus. Por volta dos
trinta anos partiu para Jerusalém, protagonizou um
incidente no Templo, foi preso, julgado sumariamente e
crucificado. Tudo isto é informação considerada segura.
O resto... bem, o resto é incerto.”
“Mas como sabe que esses pormenores são verdadeiros?
Como se chega lá?”
“Porque várias fontes diferentes os relatam, incluindo
as mais remotas”, explicou Tomás. “As epístolas de
Paulo são os textos mais antigos do Novo Testamento,
escritas uns dez a quinze anos antes do primeiro
evangelho, o de Marcos. Mas o Evangelho segundo Marcos
começou a ter grande circulação antes de essas
epístolas serem copiadas pelas congregações. Portanto,
Marcos e Paulo de certeza que não se usaram mutuamente
como fontes. Se os dois dizem a mesma coisa, isso
reforça a credibilidade dessa informação porque estamos
perante fontes antigas comprovadamente diferentes. E
muita dessa informação é duplamente credível por ser
embaraçosa. Lembra-se daquilo que lhe disse? Quanto
mais embaraçosa teologicamente for uma informação, mais
confiança temos de que não foi inventada?”
“Sim, já me falou nisso.”
“Veja a vida de Jesus na Galileia, por exemplo. Nenhuma
profecia antiga indicava que o Messias viveria na
Galileia.
E
muito
menos
em
Nazaré,
uma
terriola
tão
insignificante que nem sequer é mencionada no Antigo
Testamento. Que cronista cristão inventaria informação
tão inoportuna?”
“Mas ele nasceu em Belém. Diz você que isso é
invenção?”
O historiador pegou na Bíblia e folheou até ao texto de
um dos últimos profetas do Antigo Testamento.
“Claro que é”, confirmou. “O nascimento, em Belém não
passa de um episódio arquitectado para satisfazer uma
profecia das Escrituras. O profeta Miqueias, referindo-
se a Bet-Ephrata, ou Belém, disse em 5:1: ‘Mas tu, Bet-
Ephrata, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti
que me há-de sair aquele que governará Israel.’ Perante
isto, o que fizeram Mateus e Lucas? Puseram Jesus a
nascer em Belém! Conveniente, não? Mas as contradições
entre os dois evangelistas quanto ao nascimento de
Jesus são tantas que se traem mutuamente e revelam a
ficção. Ambos sabiam que Jesus era oriundo de Nazaré,
mas tinham de conciliar esse facto incómodo com a
profecia de Miqueias. O que fizeram? Cada um inventou a
sua maneira de tirar Jesus de Nazaré e de o pôr a
nascer em Belém. Repare, a verdade é esta: se ‘aquele
que governará Israel’ nasceu de facto em Belém, como é
profetizado por Miqueias e garantido pelos autores de
Lucas e Mateus, por que razão Marcos e João não falam
nisso? Nem sequer Paulo. Como poderiam ignorar evento
tão relevante, que tão espantosamente confirmava a
velha profecia? A resposta só pode ser uma. Mateus e
Lucas fizeram Jesus nascer em Belém apenas para
satisfazer essa profecia e assim convencer os judeus de
que Jesus era de facto o rei profetizado nas Escrituras
por Miqueias.”
“Um
pouco
como
a
história
da
Virgem
Maria?”
“Precisamente! Os mesmos Mateus e Lucas disseram que
Maria concebeu virgem também para tentarem satisfazer o
que pensavam ser outra profecia bíblica.” Indicou a
fotografia do papel com a charada de Dublin. “E o mesmo
se passa com este 141414. É uma tentativa de fazer
recuar a genealogia de Jesus a David, de maneira a ir
ao encontro das profecias das Escrituras.”
“Estou a entender.”
“Isto é, de resto, uma constante nos Evangelhos. Os
evangelistas
tentaram
em
todas
as
oportunidades
apresentar provas de que os diversos aspectos da vida
de Jesus mais não eram do que coisas que as Escrituras
profetizavam sobre o Messias. Procuraram desse modo
provar aos judeus que Jesus era o salvador profetizado.
Se os factos não o confirmavam, inventavam-nos.
Inventaram que Jesus nasceu em Belém, inventaram que a
mãe o concebeu virgem, inventaram que era descendente
de David.”
Valentina franziu o sobrolho.
“Está a insinuar que o Antigo Testamento nunca
profetizou o nascimento de Jesus?”
O rosto de Tomás abriu-se num sorriso.
“Não estou a insinuar”, disse. “Estou a afirmar.”
XXII
O médico examinava o corpo enquanto dois polícias
vedavam o acesso àquele sector da rua e se esforçavam
por convencer os mirones a afastarem-se. Um bafo opaco
de neblina prateada ensombrava o final da manhã,
pintando as ruelas de tonalidades tristes.
Agarrada ao lenço e com os olhos inchados de lágrimas,
Daniela fungava ainda. O homem magro fitava-a com uma
expressão de serena impaciência.
“Conte lá o que aconteceu.”
Uma nova lágrima brotou do canto do olho da rapariga,
mas ela esforçou-se por dominar os nervos.
“Nem
sei
como
explique,
senhor...
senhor...”
“Pichurov”, identificou-se o homem magro, todo ele
feito de uma impaciência paciente. “Inspector Todor
Pichurov.”
Mais um soluço de Daniela.
“O professor passou por mim, comprou-me o jornal e... e
foi para casa.” Apontou para a árvore, quase a medo.
“Neste sítio estava o homem à espera dele e...”