“Que homem, menina Daniela?”
“O estrangeiro.” Novo soluço. “Estava à espera do
professor.”
“Como era ele?”
“Não reparei bem, vi-o de relance. Mas pareceu-me ser
um homem novo e bem constituído. Estava vestido de
negro.” O inspector tomou nota.
“E o que aconteceu a seguir?”
“Como o professor se afastou, peguei no telefone e
liguei à Desi por causa de uns livros que ela e a
Iveline iam...”
“Quem são essas?”
A rapariga assoou-se ruidosamente.
“Umas amigas.” Limpou o nariz avermelhado e secou as
lágrimas que lhe molhavam a face. “Estava eu a meio da
conversa quando... quando...”
Daniela recomeçou a chorar. O polícia revirou os olhos
e suspirou, esforçando-se por se manter paciente.
Odiava lidar com familiares e amigos de vítimas de
homicídios;
a
choradeira
era
constante
e
os
comportamentos
repetidos
e
previsíveis.
Deixou-a
acalmar-se e esperou o momento adequado para a incitar
a retomar o seu testemunho. “Quando o quê?”
“Quando ouvi o grito.”
Oprimida pela penosa recordação daquele berro dos
infernos, o choro baixo da rapariga do quiosque
transformou-se
num
uivo
prolongado.
O
inspector
Pichurov bufou; tinha de aguardar ainda uns instantes.
Aproveitou a nova pausa para tomar mais notas e deixou
passar uns trinta segundos antes de voltar a intervir.
“Que palavras gritou o professor Vartolomeev?”
A moça tinha o rosto mergulhado no lenço, mas abanou a
cabeça.
“Não foi ele. Foi o estrangeiro.”
“O estrangeiro?”, estranhou o polícia, parando
momentaneamente
de
escrever.
“Então
o
professor
Vartolomeev é que é assassinado e quem grita é o
estrangeiro?,”
Daniela fez que sim com a cabeça.
“Foi um grito de... de angústia, de dor... sei lá.”
O inspector Pichurov esboçou um esgar intrigado, mas
anotou a observação.
Ela soluçou.
“Olhei e vi o estrangeiro a fugir e... e o professor
estendido no chão.” Mais lágrimas de pranto. “Vim a
correr e foi então que vi o sangue e...”
Desatou de novo a chorar, agora convulsivamente, o
corpo sacudido em soluços contínuos. O polícia percebeu
que teria de ser um pouco mais paciente e, para queimar
tempo, passeou os olhos em redor. Reparou nesse
instante numa pequena folha de papel pousada por baixo
de uma pedra, aos pés do cadáver.
Ajoelhou-se e pegou no papel. Achou o conteúdo bizarro.
Ergueu-se e virou-o para a rapariga.
“Sabe o que isto é?”
Daniela espreitou por trás do lenço e passou os olhos
congestionados de lágrimas pelos rabiscos, mas acabou
por sacudir negativamente a cabeça.
“Não faço ideia.”
“E depois?”
O inspector Pichurov voltou a estudar o papel e ficou
um longo momento a reflectir. Pensativo, passou os
dedos pelo cabelo, que começava a escassear-lhe no topo
da cabeça, e estreitou os olhos no momento em que
capturou na mente a imagem dos relatórios que tinha
visto essa manhã no computador, mesmo antes de sair à
rua para vir tratar daquele caso.
“Pois a mim faz-me lembrar uma coisa.”
XXIII
O superintendente O’Leary não dera ainda sinais de
vida, mas Valentina e Tomás estavam de tal modo
embrenhados na análise das questões suscitadas pelas
charadas encontradas nos locais dos crimes que nem
deram pela passagem do tempo.
“Sempre ouvi dizer que a vida de Jesus estava
profetizada no Antigo Testamento”, disse a inspectora
da Polizia Giudiziaria. “Agora vem você garantir-me o
contrário. Que história é essa?”
O historiador desenhou com a mão um gesto vago no ar.
“Ponha-se na cabeça da gente daquele tempo”, sugeriu.
“O grande problema dos primeiros seguidores de Jesus
era convencer os restantes judeus de que o Messias
prometido pelos profetas das Escrituras tinha enfim
chegado e era aquele desgraçado que os Romanos haviam
crucificado.” Pegou na caneta e escreveu Messias no
guardanapo. “Messias vem de mashia, palavra hebraica
que significa ungido, ou christus, em grego, expressão
usada no Antigo Testamento para indicar pessoas
especialmente escolhidas por Deus, como reis e
sacerdotes. Já vimos que no Antigo Testamento Deus
prometeu a David que haveria sempre um descendente seu
no trono de Israel, promessa quebrada com o exílio na
Babilónia. Naquele tempo as pessoas eram muito
supersticiosas. Se as coisas corriam bem, atribuíam os
bons tempos à graça de Deus; se corriam mal, diziam que
o Senhor os estava a punir por se terem desviado do
caminho. Assim sendo, os fiéis interpretaram a quebra
da promessa de que o trono de Israel seria sempre
ocupado por um descendente de David como uma punição de
Deus por um desvio da virtude. Os judeus suspiravam
assim por um descendente de David que reconciliasse
Deus com os Seus filhos. Miqueias tinha profetizado que
em Belém nasceria ‘aquele que governará Israel’ e
reconciliará Deus com o Seu povo. O prometido. O
mashia.”
“Ou seja, Jesus.”
“Isso era o que argumentavam os seguidores de Jesus,
mas não o que pensava a generalidade dos restantes
judeus”, lembrou. “Acontece que a profecia de Miqueias
não era a única sobre o Messias. Os Salmos referem em
2:2 que ‘Sublevam-se os reis da terra, os príncipes
conspiram entre si contra o Senhor e contra o seu
ungido’. A palavra ungido diz-se mashia em hebraico, ou
Messias, e falam em 2:7-9 num decreto de Deus a
proclamar: ‘Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei. Pede-
me e eu te darei as nações por herança e os confins da
terra por domínio. Quebrá-las-ás com ceptro de ferro.’
Os Salmos de Salomão prevêem mesmo que esse descendente
de David terá ‘força para destruir os governantes
ímpios’. E Daniel diz em 7:13 que teve uma visão em que
viu ‘aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser
semelhante a um Filho do homem’, e que ‘O Seu império é
um império eterno que não passará jamais, e o Seu reino
nunca será destruído’. Já Esdras teve uma visão de uma
figura que designou ‘Filho do homem’ em que o viu
‘soltar da boca uma corrente de fogo e dos seus lábios
sair um hálito flamejante’. Quer isto dizer que os
judeus estavam à espera de um descendente de David que
fosse tão poderoso que pudesse quebrar as nações !com