ceptro de ferro’ e ‘destruir os governantes ímpios’, ou
então de um ser cósmico, esse tal ‘Filho do homem’, que
governasse um império eterno e soltasse ‘da boca uma
corrente de fogo’.” Fitou a italiana. “E agora
pergunto-lhe: quem lhes saiu na rifa?”
“Jesus.”
“Um rabino pobre da Galileia, cujo exército não passava
de um punhado de pescadores e artesãos analfabetos,
mais algumas mulheres que lhes pareciam desencaminhadas
por terem abandonado os seus lares. Era este o
descendente de David que governaria com ceptro de
ferro,
expulsaria
os
Romanos
e
destruiria
os
governantes ímpios? Era este o Filho do homem que teria
um ‘império eterno’? Este... este maltrapilho? Os
judeus riram-se. Era inacreditável! E o pior foi que,
em vez de se impor como um rei poderoso, alguém que
reunia um grande exército e repunha a soberania de Deus
em Israel, Jesus foi preso, humilhado e crucificado
como um vulgar bandido, destino que nenhum profeta
alguma vez vaticinou. Nestas condições, qual o judeu
que acreditaria que era Jesus o rei profetizado por
Miqueias, o Messias previsto nos Salmos, o Filho do
homem augurado por Daniel e Esdras?”
Valentina enrodilhara os dedos no cabelo encaracolado
enquanto acompanhava a explicação.
“Pois...”, admitiu. “Era difícil acreditar.”
“Quando Jesus morreu, os seus seguidores ficaram
desanimados. O líder afinal não era o Messias. Só que
depois veio a história da ressurreição. Isso era um
sinal, a prova de que ele tinha o especial favor de
Deus! Jesus era mesmo o Messias! Ficaram todos
excitados. O problema é que os restantes judeus não
estavam
a
ir
na
conversa,
sobretudo
porque
o
crucificado não correspondia ao perfil do Messias.
Paulo admite mesmo, na Primeira Carta aos Coríntios, em
1:23, que a noção de o Messias ser crucificado era um
‘escândalo para os judeus’. O que fizeram os seus
seguidores? Puseram-se a atribuir a Jesus elementos que
constavam das antigas profecias, de modo a convencer os
outros judeus. Jesus era de Nazaré, terra nunca
mencionada nas Escrituras? Está bem, mas arranjou-se
maneira de o pôr convenientemente a nascer em Belém
para satisfazer a profecia de Miqueias. O pai de Jesus
era um mero carpinteiro? Está certo, mas confabulou-se
que ele afinal descendia de David, como requerido nos
Salmos. A tradução em grego das profecias de Isaías
dizia que a mãe do Messias seria uma virgem? Pois lá se
improvisou uma imaculada concepção feita à medida. E o
que fazer da crucificação, que nunca ninguém profetizou
e atrapalhava sobremaneira esta construção messiânica,
constituindo ‘escândalo para os judeus’? Como resolver
esse imbróglio? Os evangelistas deitaram mãos à obra e
puseram-se a reler as Escrituras à lupa. E o que
descobriram eles? Que Isaías escreveu uns versículos
sobre o sofrimento de um servo de Deus não nomeado.”
Valentina lançou uma espreitadela à Bíblia.
“Onde está isso?”
“Em 53:3-6”, indicou Tomás, pondo-se a ler o texto de
Isaías. “‘Desprezado e evitado pelos homens, como homem
das dores, experimentado nos sofrimentos; diante do
qual se tapa o rosto, menosprezado e desestimado. Na
verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou
as nossas dores; nós o reputávamos como um leproso,
ferido por Deus e humilhado. Mas foi castigado pelos
nossos crimes, esmagado pelas nossas iniquidades; o
castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados
nas suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como
ovelhas, cada um seguia o seu caminho; o Senhor
carregou sobre ele a iniquidade de todos nós.’” O
português respirou fundo e ergueu as mãos para o céu,
num gesto teatral. “Aleluia! Estava encontrada a
profecia da morte do Messias! Deus é grande!”
“Desculpe, mas essa descrição assenta que nem uma luva
na paixão de Jesus!”
O historiador indicou as páginas abertas diante dele.
“As pessoas vêem aqui o que quiserem ver”, sentenciou.
“A verdade é que Isaías em parte alguma diz que o servo
da sua profecia era o Messias. Os historiadores
acreditam até que este texto está relacionado com o
sofrimento dos judeus na Babilónia. Mas que interessava
isso? A profecia encaixava no episódio da crucificação.
E descobriram-se também uns versículos dos Salmos a
propósito de alguém que sofre e que começam com esta
frase em 22:2: ‘Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonastes?’ e concluem assim em 22:8: ‘Todos os que
me vêem escarnecem de mim; torcem os lábios, meneiam a
cabeça.’ Logo os primeiros cristãos acharam que isso
era um texto a profetizar o que aconteceu a Jesus.
Conclusão: os Salmos também previram a sua morte!” A
italiana agitou-se de novo.
“Espere aí!”, cortou. “Jesus disse essa frase na cruz,
tenho a certeza. «Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonaste?» Ele disse mesmo isso! Eu já li isso! Essa
profecia está mesmo certa!”
Tomás fitou-a como um professor que acabou de escutar
uma resposta errada durante uma oral.
“Já vi que não percebeu o que lhe tenho tentado
explicar”, observou. Voltou a folhear o seu exemplar da
Bíblia. “Essa frase está no final de Marcos, quando
Jesus se encontra já pregado à cruz, em 15:34: ‘E à
hora nona Jesus exclamou em voz alta: «Eloi, lama
sabachthani?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus,
porque Me abandonaste?»’ Uma frase semelhante aparece
em Mateus.” O historiador pousou o indicador no
versículo. “Isto, minha cara, é mais um esforço dos
evangelistas para colar Jesus às profecias. Atribuíram-
lhe esta frase para poderem dizer que se cumpriram as
palavras das Escrituras e deste modo convencer os
restantes judeus. Está a perceber?”
“Como pode ter a certeza de que Jesus não proferiu essa
frase?”
“Certezas, minha cara, em história nunca ninguém tem”,
lembrou ele. “No entanto, a semelhança desta frase com
os versículos dos Salmos torna-a altamente suspeita,
como é evidente. Lembre-se que nenhum seguidor de Jesus
esteve com ele na hora final, como admitem os próprios
evangelistas. Os homens ‘fugiram todos’, conforme
estabelece Marcos em 14:50, e as mulheres estavam ‘a
observar de longe’ a crucificação, como diz o mesmo
Marcos,
em
15:40.
Nenhum
deles
se
encontrava
suficientemente perto da cruz para ouvir as últimas
palavras do seu líder.”
“Os apóstolos podem ter mais tarde interrogado um