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legionário que estivesse perto da cruz...”

“Os apóstolos estavam era cheios de medo e receavam ser

também executados. A última coisa que queriam era

chegar-se perto de legionários, uma vez que os Romanos

tinham por hábito matar os líderes que criavam

problemas e também os seus seguidores. Há muitos

exemplos disso. Mas admitamos que os apóstolos

conseguiram falar com um legionário. Será que o romano

entenderia o aramaico de Jesus? E terá sido fiel na

reprodução do que o moribundo disse? A verdade é que

não temos um testemunho directo, é tudo com base no

‘alguém disse que alguém disse’.” Fez um gesto

impreciso no ar. “De resto, a narrativa da paixão

parece construída em redor do que está escrito no Salmo

22 e não em testemunhos presenciais.”

“Então tem tudo a ver com o Antigo Testamento...”

“De uma ponta à outra!”, confirmou Tomás. “Todos os

Evangelhos estão impregnados de palavras, frases e

expressões reminiscentes das velhas Escrituras. Os

Salmos falam no Messias? Os Evangelhos dizem que Jesus

é o Messias. Daniel e Esdras descrevem um Filho do

homem? Os Evangelhos chamam a Jesus o Filho do Homem.

Os Salmos apelidam o rei David de Filho de Deus? Os

Evangelhos designam Jesus Filho de Deus. Os Salmos

dizem que Deus disse a David: ‘Tu és meu filho, hoje

mesmo te gerei’? Marcos põe Deus a dizer a Jesus após o

baptismo: ‘Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti pus

toda a Minha complacência.’ Os Salmos descrevem alguém

que sofre a dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, porque me

abandonastes?’ Marcos faz Jesus dizer na cruz: ‘Meu

Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?’ Tudo é

reminiscente do Antigo Testamento!” Estreitou as

pálpebras. “Mesmo os episódios da vida de Jesus.”

Valentina esboçou uma careta.

“Que quer dizer com isso?”

“Não tinha reparado? O Êxodo descreve uma ordem do

faraó para que se matassem todos os meninos judeus

quando Moisés era bebé, não descreve? O que fez Mateus?

Arranjou uma ordem semelhante de Herodes quando Jesus

era bebé. O Êxodo relata a saga dos judeus a fugirem do

Egipto? Mateus relata a aventura da família de Jesus a

fugir para o Egipto. Moisés foi à montanha receber as

tábuas da lei? Mateus leva Jesus à montanha para

comentar alguns aspectos dessa mesma lei. Moisés

separou as águas do Nilo? Jesus caminhou sobre as águas

do Mar da Galileia. Os judeus andaram quarenta anos

perdidos no deserto? Três evangelistas põem Jesus

quarenta dias no deserto. Moisés arranjou o maná para

alimentar os judeus? Jesus apresentou aos discípulos o

pão da vida. Até os milagres e os exorcismos,

amplamente descritos nos Evangelhos, têm antecedentes

bíblicos em Elias e Isaías!” Indicou a Bíblia. “Os

autores do Novo Testamento não estavam a escrever

história.

Estavam

a

tentar

convencer

os

seus

contemporâneos de que Jesus respondia às profecias e

preenchia os requisitos das Escrituras. Nem mais nem

menos.”

Os dois ficaram em silêncio um longo momento, como se

medissem as implicações de tudo aquilo.

“Ajude-me, Tomás”, disse Valentina por fim, tentando

reencontrar terreno seguro no meio daquela avalanche de

informação. “Temos dois historiadores degolados quando

faziam pesquisas em manuscritos antigos do Novo

Testamento e, em ambos os casos, o assassino deixou-nos

mensagens enigmáticas. O que está ele a dizer-nos?”

“Não é claro ainda? O tipo está a mostrar-nos problemas

sérios que existem no Novo Testamento. A primeira

charada alude à origem do mito da Virgem Maria.”

Indicou a fotografia que O’Leary lhes tinha deixado. “A

segunda charada aborda os esforços dos evangelistas

para associar Jesus a profecias das Escrituras sobre a

ligação genealógica entre o Messias e o rei David.”

Cravou os olhos na italiana. “O nosso homem está a

dizer-nos que o Novo Testamento não passa de uma

colagem fraudulenta ao Antigo Testamento.”

“Mas porque nos diz ele isso? Qual a ligação entre esse

assunto e estas mortes?”

O historiador encolheu os ombros.

“A polícia é você.”

Um grupo de agentes invadiu nesse instante a esplanada

do Silk Road Café; à cabeça vinha Sean O’Leary com as

faces muito coradas e o semblante compenetrado.

“Superintendente!”, saudou-o Valentina com um esgar

surpreendido. “Por onde tem o senhor andado?”

O irlandês fez um gesto vago na direcção da rua.

“Fui interrogar a testemunha ao hospital.”

“E então? Disse alguma coisa de interessante?”

O’Leary tirou o bloco de notas do bolso no seu

característico jeito desajeitado.

“Quer saber pormenores?”, perguntou, os olhos a

deslizarem já pelas anotações. “Chama-se Patrick

McGrath, um desempregado que os amigos conhecem por

Paddy. E um homeless e estava ali no jardim a tentar

dormir quando o crime ocorreu.”

“Ele consegue identificar o homicida?”

O superintendente torceu os lábios enquanto consultava

os seus apontamentos.

“Viu o homicídio na escuridão da noite e à distância”,

disse. “Infelizmente não teve oportunidade de observar

o rosto do assassino nem notou nada de particular na

sua fisionomia.” “Ah, que pena!...”

O polícia irlandês fungou, sem tirar os olhos do bloco

de notas.

“Mas houve uma coisa estranha. Perguntei-lhe se era

verdade que esta madrugada disse aos paramédicos que a

morte do professor Schwarz tinha sido um acidente. Ele

confirmou. Aliás, insiste em repetir a mesma coisa.”

Valentina fez um gesto a desvalorizar esse testemunho.

“É absurdo!”, considerou ela. “Não se degola ninguém

por acidente. O que o leva a afirmar isso?”

“Ele alega que, depois de cair em cima do professor

Schwarz, o assassino se pôs aos berros. Diz a nossa

testemunha que era um urro de agonia, uma espécie de

lamento.”

A italiana trocou um olhar intrigado com Tomás.

“Agonia? Lamento? O que quer ele dizer?”

O’Leary parecia embaraçado.

“Pois... não sei. Apertei-o um pouco quanto a esta

questão, mas o homem garante que o assassino lamentou a

morte do professor Schwarz com um grito de sofrimento.”

Valentina abanou a cabeça.

“Não há dúvida de que essa testemunha estava com os

copos”, sentenciou. “Oiça, tenho os meus homens em Roma

a reconstituir a vida da primeira vítima, a professora

Escalona, ao longo do último ano. Precisava que me

fizesse a mesma coisa em relação ao professor Schwarz.